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junho 2017 / Entrevistas / Ocupar e resistir

Texto publicado na edição #205

Ocupar e resistir

A realidade tem sido o elemento mais importante para a ficção de Julián Fuks

> Por Victor Simião

Julián Fuks, autor de A resistência

Julián Fuks, autor de A resistência

A realidade tem sido o elemento mais importante para a ficção de Julián Fuks. Principalmente em seu romance mais recente, A resistência (2015), ganhador do Jabuti nas categorias Melhor Romance e Livro do Ano de Ficção, e também em A ocupação, em processo de escrita. O novo romance tratará de diversas formas do ocupar: do narrador em um local que não é o seu, de um bebê que está em gestação. O mote: uma ocupação em São Paulo.

Doutor em literatura pela USP, Julián Fuks é jornalista de formação, com passagem pela Folha de S. Paulo. Autor de quatro livros — um de contos e três romances —, foi um considerado em 2012 um dos 20 melhores escritores brasileiros com menos de 40 anos pela revista Granta. Em fevereiro, Fuks participou do Londrix, o festival literário de Londrina (norte do Paraná). Antes de sua participação, concedeu esta entrevista ao Rascunho, na qual aborda a recepção de A resistência, o seu posicionamento em meio à política brasileira e como será o novo livro.

• Atualmente, há muita autoficção no Brasil, embora nem todos trabalhem com a questão política do Brasil. Não apenas na política no sentido de Estado, governo. Como você entende isso?
Você evoca algo importante: quando se quer tratar de política na literatura, não convém que seja dogmático, um pensamento sabido a priori. É mais interessante algo que se desenvolve no texto, dentro de um contexto, a partir da reflexão dos personagens. Isso me interessava muito mais [para escrever A resistência]. Nem sempre minha literatura foi marcada pela política. Em outros tempos, a questão literária me interessava mais. A questão de o narrador pensar qual é a narrativa possível — em Procura do romance, o cerne era esse. Mas acho que o mundo está tornando a questão política mais urgente. A realidade que temos acompanhado tem exigido do escritor uma tomada de posição: um posicionamento mais claro e incisivo. A literatura tem que se fazer mais clara nesse contexto se quiser ter mais reverberação na realidade, no mundo presente. Mas me parece que essas questões não têm respostas definitivas. A gente pensa: a literatura tem que ficar alijada da política. Por décadas isso foi o pensamento. Depois se reivindicou uma literatura mais ligada à política, ligada ao presente. Isso faz sentido também. Ou seja, não é uma resposta definitiva. Não dá para pedir que a literatura seja ou não engajada. Primeiro, essas purezas não existem; segundo, vai depender de um contexto, de uma situação histórica. Para mim é muito claro uma tomada de posição, isso não significa que sejam impertinentes as obras que não façam isso. A literatura deve ser muitas coisas ao mesmo tempo. Eu me inclino na direção da tomada de posição política.

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A realidade que temos acompanhado tem exigido do escritor uma tomada de posição: um posicionamento mais claro e incisivo. A literatura tem que se fazer mais clara nesse contexto se quiser ter mais reverberação na realidade, no mundo presente.

• Nas suas entrevistas, você sempre fala sobre a realidade, sobre a política. Quando foi receber o Jabuti, criticou o governo e disse “Fora, Temer”. Agora, seu novo tem como título A ocupação e em outubro de 2016 você foi a uma ocupação e escreveu sobre na Folha de S. Paulo. Como será essa obra?
O título faz uma ligação com A resistência, para dar o sentido de ocupar e resistir no quadro de retrocesso que a gente tem acompanhado com aflição, não só no Brasil, mas no resto do mundo. A ideia é acompanhar algo que tenha acontecido nessa ocupação no centro de São Paulo. Mas assim como A resistência não é especificamente sobre a resistencia à ditadura militar — há multiplicidade de resistência ali, como a do irmão na relação com a família —, A ocupação será tratado dessa forma. Na trama há a mulher do narrador, que está grávida. Ou seja: tem o seu corpo, em alguma medida, ocupado por outra pessoa. E o narrador, ao estar ali, acompanhar a luta da ocupação, torna-se uma ocupação por si mesmo. A ideia é construir diversamente essa noção de ocupação no livro.

• Nos seus três romances, há sempre múltiplas camadas: ora na linguagem, ora nos personagens. A ocupação terá também esta estrutura?
Acho que esse é o meu jeito de escrever, de pensar. Em alguma medida reflete o que se pode enxergar na realidade. A realidade nunca é monolítica, unitária. Pelo contrário, é múltipla, diversa. E a literatura, se quer dar conta em alguma medida da realidade, precisa ser plural e diversa. Então, cada livro tem que ter em si mesmo livros diferentes, focos diferentes. O que A resistência tem de diferente em relação aos livros anteriores, que são os capítulos mais curto, deu a possibilidade de saltar tempos e espaços, mesmo em um livro curto foi possível narrar diversas coisas ao mesmo tempo e buscar diversas associações. Então, a ideia de construir multiplamente uma narrativa é algo que pretendo manter. Esse modelo dos capítulos curtos me possibilitou liberdade para escrever, montar uma história e conduzir. Por vezes, a partir de um único pensamento vem uma cena sem que haja necessariamente no ato da escrita algo anterior a ser elaborado.

• Para escrever A ocupação, você tem um patrocínio da Rolex e conta com a tutoria do Mia Couto. Como está sendo participar desse projeto?
O patrocínio é uma coisa boa. Pressupõe tempo para escrever, o que é muito raro de se ter nas atuais circunstâncias na literatura, não só no Brasil. Viver escrevendo, viver de literatura, por assim dizer, não é fácil. Claro que não é definitivo, mas me dá um tempo para me dedicar a isso. Além do mais, me dá esse tremendo bônus, que é o diálogo com o Mia Couto, que vem do contraste. Não somos escritores parecidos. E isso ficou claro para mim desde o início, quando me propuseram que postulasse a essa vaga. Eu gosto dos livros do Mia e sabia que literatura dele está muito marcada pela dimensão ficcional, muito menos preocupada com essas questões do presente, do real. Ao mesmo tempo ele sabia que essa diferença existia desde o início e, ainda assim, me escolheu para trabalhar. A partir do contraste, estamos trabalhando. A proposta talvez seja me deixar contagiar um pouco, tanto pelo aspecto mais ficcional dos livros dele, da possibilidade de criar situações — em A resistência, fiquei aquém delas. A maior parte do tempo eu estava submetido ao que aconteceu, ao que foi ou como se disse que algo foi. Agora, talvez eu possa me permitir a inventar um pouco mais, sem perder algo do caráter autoficcional, que cria esse efeito de real no leitor, e deixar a minha linguagem, que é um pouco austera e seca demais, mais lírica, um pouco mais poética como é a do Mia Couto.

• E agora ele quer ser mais seco…
É curioso. A gente vai na contramão e vai trocando experiências dessa maneira. Ele tem sido bem generoso nesse sentido. Ele me dá textos para eu ler, os que ele está escrevendo agora. Passa a ser uma troca. Eu opino sobre as coisas que ele faz. E ele opina sobre o meu modo de escrever, de forma mais consistente.

• Você já disse que é obsessivo com as palavras: por isso seus livros mais recentes são curtos. Por que essa “obsessão”?
Não sei nem se tem aspas nessa ideia. Talvez seja um comportamento obsessivo, mesmo. Talvez em Procura do romance, a intenção de escrever o melhor livro que poderia escrever, o mais meticuloso, com maior controle sobre aquilo que eu estava criando, isso me fez ter uma preocupação constante com a escolha de cada palavra. Não saía da frase enquanto não estivesse plenamente satisfeito com ela. E isso foi criando uma preocupação com música, ritmo, que não necessariamente é visto quando se lê, mas que sei que está lá. Por isso, questões de revisão me passaram a ser delicadas. Não consigo trocar uma palavra por outra porque ela tem uma razão de ser naquele espaço. Se torna obsessivo porque nada disso tem efeito claro no leitor. Por outro lado, é um tipo de cuidado que acho interessante ter. Quando vejo em outros escritores, valorizo bastante. Mostra que não há leviandade na construção e na escolha das palavras, afinal, essa é a matéria de que é feita a literatura e é preciso zelar por ela.

• Essa obsessão continuou, mas de forma menos intensa em A resistência. Antes, você não queria repetir a mesma palavra. Já em A resistência isso foi feito conscientemente para que houvesse sentido. Isso, de certa forma, te libertou?
Sim. Foi uma percepção de que algo em Procura do romance tinha falhado. O sistema de escrita tinha me colocado em algumas encruzilhadas porque a preocupação em dizer, de buscar novas coisas a partir de outras situações me exigia um esforço constante de renovação de linguagem. Aí percebi que o final do livro era muito mais difícil que o começo porque as coisas já estão ditas e recapitular era importante, mas eu não queria a repetição. Em A resistência, percebi que precisava criar outro mecanismo. Esse sistema, que serviu melhor, foi o das repetições. Há palavras importantes e capitais que ao longo do livro ressurgem, somem e que depois aparecem novamente: é a tentativa de criar ressonâncias internas, para que uma passagem remeta a outra. Exige uma crença quase absurda em que o leitor vá se atentar a essas questões, e também existe a de que o livro funcione sem que cada detalhe venha à tona e que seja percebido. O sistema não precisa ser perfeito ou assimilado perfeitamente. É só a tentativa de construção e riqueza pela linguagem. Algumas das quais vão ser assimiladas, outras, não.

• Mas pode-se dizer que foram assimiladas. Jornais, blogs e vlogs fizeram críticas e resenhas favoráveis. O livro levou dois Jabutis, ficou em segundo lugar no Prêmio Oceanos. Ou seja, rompeu com a resistência de ser aceito tanto pelos críticos convencionais como por leitores “comuns”, digamos assim.
Isso me surpreendeu bastante. Não só a recepção crítica, mas também o efeito entre leitores. No Brasil, o livro é publicado e tem uma fase de silêncio, que deixa o autor apreensivo. Nessa fase de silêncio, alguns leitores vieram falar comigo porque estavam envolvidos com a história. Meus outros livros não tiveram isso. É como se esse livro tivesse algo a ser descoberto nessa trajetória familiar. As coisas são meio ambíguas nesse aspecto também. Foi a parte mais surpreendente para mim — claro, nunca contaria com prêmios, mas a recepção crítica era o que mais dava certo nos livros anteriores. Já a leitura mais massiva eu não tinha tido. É um prazer enorme porque cria uma sequência de diálogos novos, com pessoas que a gente vai conhecendo. É uma coisa diferente. No Procura do romance eu tinha uma definição do que aquele livro deveria ser e fui atrás. E fui atrás desse jeito mais meticuloso. Em A resistência, não. É um livro de conversas, que tive com meu irmão, com meus pais. Que ele tenha criado essa continuação dos diálogos, que a partir disso tenham me convocado para tratar sobre ditatura militar e da relação dela com o Brasil do presente, isso me enriquece e enriquece o livro. O livro deixa de ser simplesmente o que está escrito nas páginas.

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