Ensaios e Resenhas

fevereiro 2014 / Ensaios e Resenhas / O único amor jamais traído: a palavra

Texto publicado na edição #166

O único amor jamais traído: a palavra

Como pensar a palavra? Numa simples acepção, aquela rotineira e cotidiana, a palavra pode ser concebida como um conjunto de […]

> Por PATRICIA PETERLE

Como pensar a palavra? Numa simples acepção, aquela rotineira e cotidiana, a palavra pode ser concebida como um conjunto de letras com sentido. Som articulado com significação? É uma manifestação verbal? Ora, todos sabemos o que é uma palavra, lidamos com ela (ou elas) o tempo todo, na rua, no bar, no restaurante, em casa, até mesmo quando estamos sozinhos. Na verdade, a palavra é um elemento fundamental da linguagem, como aponta Heidegger nas três célebres conferências sobre a “Essência da linguagem”. Para o filósofo alemão, que deixou uma inquietante herança para seus posteriores, a palavra está relacionada intrinsecamente com o pensamento e com a poesia. A palavra significa, mas é também na sua não significação (na sua negatividade), nos novos caminhos que o pensamento vai, aos poucos, abrindo nas sendas e cesuras das experiências que ela pode se potencializar.

A palavra não é algo de estático e, se a linguagem está viva, ela permite jogos, brincadeiras, ilusões e criatividade. É esse brincar com a palavra e com seu ritmo, sempre com muita ironia e sagacidade, que o leitor encontra ao abrir as páginas de Letra e música, assinado por Ruy Castro. A assinatura é um rastro, conserva certos elementos que fazem dela, mesmo disfarçada, ser reconhecível aos olhos de um atento detetive como Sherlock Holmes ou Sigmund Freud. E nesse caso não poderia ser diferente, certo? Quem está habituado a ler a Folha de S. Paulo tem elementos suficientes para identificar nessas páginas o timbre, o gingado, o ritmo, as pausas da escritura irreverente de Ruy Castro.

Letra e música, que conta com um projeto gráfico à altura dessa assinatura, é composto por dois volumes de crônicas: A canção eterna e A palavra mágica. Grafia e som, percepções do mundo/dos mundos. Ao todo foram coletadas 64 crônicas publicadas na Folha, ao longo dos últimos seis anos. Falar de música para ele, uma espécie de saída de segurança, é “a única alternativa” para quem não é capaz de produzi-la. E como está colocado, logo no início do segundo volume, a palavra é o único amor que esse boêmio jamais traiu. Não se deve esquecer de alguns livros já publicados como as biografias dedicadas a Garrincha, Carmem Miranda e Nelson Rodrigues, além de Chega de saudade, sobre a Bossa Nova, e Ela é carioca, dedicado ao charmoso bairro de Ipanema no Rio.

A propósito dessa relação com a palavra, a traição pode ser pensada em vários níveis e sentidos. Um deles está na crônica Corretor Fanho.  As antigas Olivetti podiam deixar as pontas dos dedos cansadas e calejadas, mas obedeciam direitinho aos comandos dados. Um erro, nesses tempos, poderia ser crucial e decisivo para se jogar a folha ainda incompleta no lixo. Os barulhos do rolo que puxava as folhas ou o “trim” da alavanca quando acabava a linha ainda estão vivos, como recordação, em algumas memórias, da mesma forma que aquele da tecla que timbrava e marcava o papel. Outro momento diante da Olivetti, era quando a famosa fita da máquina acabava; se lembram de todo o processo para continuar o trabalho, inclusive das mãos sujas? Esse objeto que já foi do desejo (talvez ainda o seja para alguns) é facilmente colocado ao lado de outros como o walkman ou o disquete, que ficaram para trás e no tempo. Mas qual é a relação disso com o “Corretor fanho”? Vamos às palavra de Ruy Castro: “troquei a máquina de escrever pelo computador em 1988, o que provavelmente já me salvou a vida algumas vezes. Mas não pense que minhas relações com ele — o computador — são uma maravilha. A cada aperfeiçoamento no funcionamento da caranguejola, tenho um motivo para sobressalto, até me acostumar com a novidade e passar a dominá-la também”. Diferentemente da dócil Olivetti, a fascinante e sedutora maquinaria da tecnologia, às vezes, cisma em corrigir o que foi digitado. É claro que a facilidade de corrigir, APAGAR, COPIAR E COLAR, não está em questão, mas a “autonomia” do computador pode levar à beira de um ataque de nervos ou a um “prazer sádico”.

Outro tipo de “prazer sádico”, com toda irreverência, está em Horror a iPod. Após ter sofrido um derrame hemorrágico, com complicações respiratórias, um homem de 80 anos saiu do coma, mas continua no hospital, imóvel, sem falar, ainda entubado e quase sempre inconsciente. Fã provavelmente de Orlando Silva, Lucio Alves, Dolores Duran, ou, quem sabe, Bing Crosby, Sinatra, Ella Fitzgerald, ele tem uma relação muito forte com a música. Assim, para agradá-lo, estimulá-lo, os netos decidem fazer uma surpresa: dezenas de horas de música num iPod, “na expectativa de que seu cérebro se sentisse estimulado e voltasse a comandar o corpo”. Uma afeição, sem dúvida, dos netos pelo avô. Contudo, “Eu me pergunto se mesmo a melhor música do mundo, ou aquela com que a pessoa mais se identifica, é agradável de se ouvir sem parar, pela eternidade, e mais ainda quando o sujeito está incapacitado de se desplugar ou de manifestar de alguma forma que gostaria de passar o resto de seus dias em silêncio. Como descrever o martírio mudo de quem está sendo invadido por sons que não pediu para escutar e que, para ele, podem ter se convertido em horror?”

Essas páginas trilham também diferentes percursos da história cultural do país, do samba de raiz, a Graciliano Ramos, a um encontro entre Chacrinha (Quem não se comunica, se estrumbica!) e João Cabral, na famosa Fiorentina do Leme, passando também pelo Jazz e pelo Tango. Caminhos tortuosos, talvez desviantes, mas escapar desse movimento da música e da palavra parece não ser possível: “Meu mundo é um pouco mais vasto. Dedico-me também a assistir a filmes antigos, a viajar dentro e fora do Brasil, a observar os gatos, a torcer pelo Flamengo, a flanar pelo Rio e a parar com os amigos e desconhecidos na rua para dizer besteiras. Mas, se esse mundo se resumisse à música e à palavra, já estaria muito bom”.

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Ruy Castro

Ruy Castro. Foto: Divulgação

Nasceu em Caratinga (MG), em 1948. Colaborou com o célebre Pasquim, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e com outros importantes veículos. Parte da sua produção como jornalista foi publica em coletâneas como Um filme é para Sempre, Tempestade de ritmos, O leitor apaixonado. Escreveu as biografias de Garrincha, Carmen Miranda e Nelson Rodrigues. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

Outro dia, os jornais deram com alarde que a quantidade de informação hoje acumulada no mundo é de 295 trilhões de mega bytes — um número contendo 21 zeros e quebrados. E que, se essa informação fosse gravada em CDs de 730 megabytes cada, seriam necessários cerca de 404 bilhões de discos. Os quais, uns sobre os outros, com 1,2 milímetro de espessura cada, formariam uma pilha que iria da Terra à Lua e talvez ainda mais longe, à Barra ou ao Recreio.

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Ruy Castro
Cosac Naify
288 págs.