Quase-diário

maio 2012 / Quase-diário / O último tango nas Malvinas

Texto publicado na edição #145

O último tango nas Malvinas

15.04.1982 Mandei, aqui de Aix en Provence (França), para a IstoÉ, um texto sobre a crise das Ilhas Malvinas (entre […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

15.04.1982
Mandei, aqui de Aix en Provence (França), para a IstoÉ, um texto sobre a crise das Ilhas Malvinas (entre Inglaterra e Argentina).

30.04.1982
Conflito nas Ilhas Malvinas: depois de um mês, a Inglaterra dá um ultimato: qualquer avião argentino que cruzar em direção às ilhas será abatido. Lá já está a Royal Navy, terceira do mundo, com seus mísseis, refazendo sua política na colônia. Os argentinos têm superioridade área, uns 130 aviões. Hoje os EUA cortaram a ajuda militar e econômica à Argentina, declarando-se pró-Inglaterra. Toda a América Latina vai contra os EUA, a OEA (Organização dos Estados Americanos) votou a favor da Argentina. Configura-se, então, um deslocamento da luta político-econômica. Ao invés de Leste/Oeste, Comunismo/Capitalismo, temos Norte/Sul.

02.05.1982
A marinha inglesa ataca o aeroporto de Malouines (Malvinas). A aviação argentina ataca os navios ingleses. Suspense. Fico imaginando as medidas que os militares argentinos poderiam tomar para afundar a esquadra inglesa. Súbito, eles são eu, eu sou eles. Forma-se aquela coisa irracional, agressiva, animal na minha sensibilidade. É isto, como disse alguém, outro dia, o problema é que os homens amam a guerra. Boa idéia para artigos: “O último tango nas Malvinas”. Ou: jogar a idéia do tango argentino com a tragédia shakespeariana. Em ambos os casos, o lado lunar, trágico destes dois gêneros.

04.05.1982
A estupidez da guerra crescente. Afundaram um navio de guerra argentino perto da costa, longe da área do conflito: mais de mil homens a bordo. Pelo menos 800 mortos. Ação dos submarinos atômicos ingleses que afundaram também dois outros navios, fragatas. Só neste afundamento, a Argentina perdeu mais soldados que o Brasil na Segunda Guerra Mundial.

04.05.1982
Encontro M. Frèches, que diz: “mexeu com o Leão, levou um golpe de leão”.

05.05.1982
Espanto. Os ingleses descobriram que a guerra mata. Que mata seus soldados também. Ontem foi a consternação geral em Londres depois que se anunciou que um avião argentino acertou seus mísseis num navio inglês, afundando e matando 30 pessoas. Também os argentinos derrubaram dois aviões ingleses de decolagem vertical. Agora a hipocrisia americana, francesa, etc.: todos querendo que a guerra pare.

06.05.1982
Nisto, uma vitória pessoal: consegui publicar um artigo sobre essa guerra no Le Monde sem conhecer ninguém lá. Mandei-o há uns 20 dias.

09.05.1982
Terminei o poema Os homens amam a guerra ou O último tango nas Malvinas. Trabalhei nisto uns dez dias, creio. Devo ter jogado fora umas 60 ou 80 páginas de rascunho. Parei o livro sobre desejo/psicanálise. A frase inicial ficava martelando em minha cabeça: “Os homens amam a guerra”. Frase que devo ter ouvido nuns programas de tevê aqui, há meses, e que, de repente, tão óbvia, ficou gravada em mim. Comecei o poema. Passei várias noites escrevendo o texto, como um sonâmbulo: caderno, caneta ao lado da cama, eu acendendo uma pequena lanterna várias vezes para escrever, mesmo na cama.

10.05.1982
Fiz várias cópias e estou mandando para pessoas no México, Dinamarca, Itália, EUA, etc. Hoje li O último tango nas Malvinas na última aula que dei para a turma de licenciatura. Foi bonito, eu, evidentemente emocionado, eles também. Pascale Brette, a mais simpática e inteligente de todas, veio emocionada pedir que alguém o traduzisse e publicasse no Le Monde.

23.05.1982
A guerra vai braba. Os ingleses conseguiram uma cabeça de ponte nas ilhas, dizem ter desembarcado cinco mil homens. Dois submarinos modernos argentinos, os últimos da série pré-atômica, comprados da Alemanha (que eu não sabia que já fabricava e exportava esse tipo de arma), talvez estejam à espreita do Queen Elizabeth, que conduz três mil homens para o combate. Eu, irracionalmente, continuo torcendo pelos argentinos, grudado dia e noite nas notícias.

30.05.1982
Estou em Berlim, no Hotel Plaza, para o Festival Horizonte de Arte e Literatura Latino-Americana. (Penso: e se eu me levantasse e lesse O último tango nas Malvinas? Meu imaginário levanta a mão, interrompe Octavio Paz, faz apartes, lê o poema, tumultuando a sessão.)

08.06.1982
Estou em Nova York. Vi ontem Evita. Coisa estranha ver essa ópera, esse musical, nessa situação. O curioso é que essa peça foi feita por três ingleses. Pois lá está Evita sendo recebida pela Rainha, e a acusação de que Evita era uma puta. Ao machismo argentino somou-se o inglês.

19.06.1982
Cheguei há mais de uma semana no Rio. A guerra das Malvinas acabou. Tragicamente, como previa meu poema O último tango nas Malvinas, publicado no Pasquim, O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Zero Hora.

23.07.1982
Me diz Micheline (ex-esposa de Carlos Leonam) que na Dinamarca traduziram e publicaram o poema O último tango nas Malvinas no jornal Politck, numa página inteira.

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