Ensaios e Resenhas

julho 2018 / Ensaios e Resenhas / O tesouro das histórias

Texto publicado na edição #219

O tesouro das histórias

"Zeide", romance de Caco Ciocler, está repleto de diversas perspectivas ou focos narrativos

> Por CELSO GUTFREIND

Caco Ciocler, autor de Zeide.

Caco Ciocler, autor de Zeide.

Caco Ciocler, ator conhecido e documentarista, estreia no romance com Zeide. Zeide é avô em iídiche. Caco vem de uma família judia e o livro aborda ficcionalmente a trajetória dessa família com o foco apontado para o amor entre o neto e o avô. O zeide Sucher veio da Bessarábia como tantos outros imigrantes na primeira metade do Século passado. Com passagem pela Alemanha e sem poder ir ao Canadá que fechara as portas aos imigrantes, rumou para o Brasil com dois irmãos.

O romance de Ciocler, como a vida de seus antepassados ou a de qualquer um de nós, não é linear e está repleto de diversas perspectivas ou focos narrativos. E, sobretudo, de cenas. Uma a uma, elas também compõem a base do romance, assim como a vida de um ator.

A viagem no porão do navio é uma delas, cena comovente na fome e na sede dos marujos alimentados pela esperança. Outra é o casamento arranjado de Sucher com Pina, hábito na cultura judaica da época. Quando nasce Boris, o primeiro filho do casal, o pai vai ao cartório e, na hora do registro, não consegue informar o nome completo da esposa, quase uma desconhecida para ele. Mãe e filho padecem problemas de saúde e Sucher vê-se obrigado a encontrar uma ama-de-leite que é negra. A cena aqui, como tantas outras, cria uma metáfora consistente em meio a uma linguagem banhada pela poesia. Porque, no encontro do jovem judeu e seu bebê com a mulher negra, descortina-se um pouco mais (ou muito) da alma brasileira, marcada por este melting pot cultural.

Novas cenas significativas vão se sucedendo nas mãos do hábil narrador entre as invariantes de uma comunidade judaica com suas marcas (o tino comercial, a mãe judia) e as variantes do encontro com a vida brasileira. As famílias materna e paterna, já em São Paulo, não frequentam o mesmo clube, porque há dois. E nem a mesma sinagoga, porque há duas, tema de uma anedota judaica bastante conhecida sobre um judeu náufrago que construiu dois templos em uma ilha habitada só por ele. A função de um deles era, justamente, ele não entrar.

O neto de Sucher, o menino Caco, é incapaz de entender por que a mãe se revolta com a obrigação de receber o zeide todas as quintas-feiras (a terça era reservada ao outro filho). Queria estar livre para ir ao cinema ou outra coisa qualquer, o que, depois de libertar-se do compromisso, jamais fez. O espanto da criança diante do mundo ou a necessidade de olhar o seu retrato junto aos de outros netos no armário da casa do avô denota a busca de uma identidade ou um pertencimento entre o sentido e o caos dessa história como, talvez, de todas as outras.

Antes disso, outra cena pungente. Sucher recebe o diagnóstico de um tumor cerebral e está apático. Seu sócio quer comprar a sua parte e tenta enganá-lo nas contas. Mais forte do que a doença, Sucher volta das trevas das sequelas neurológicas para defender o negócio e a família.

Caco se mostra um narrador de fôlego, legítimo herdeiro de uma cultura reunida em torno do livro e seu potencial narrativo com uma turma que inclui Scholem Alechem e Moacyr Scliar, entre tantos outros. Ele é capaz de criar uma estrutura cheia de idas e vindas, onde assistimos ao desenvolvimento do bairro Bom Retiro com a convivência harmônica entre judeus e árabes. Detalhe: Jurandir Czakzles Chaves, o Juca Chaves, é amigo do jovem Sucher.

A memória de uma sinagoga tomada pelo bafo dos fiéis em meio ao jejum de Yom Kipur, o dia do perdão, põe em cena aquele humor judaico afiadíssimo em resgatar a alegria na adversidade. Freud sempre pôs em destaque essa capacidade na vida mental das pessoas, independentemente de sua cultura. O mesmo Freud talvez dissesse que todo ator, com a parte da atenção que recebeu dos pais, busca no público a parte que não teve. Caco descobriu o seu talento dramático ainda pequeno, ao fingir um sequestro no condomínio onde morava, quando quase matou do coração a mãe judia.

De cena em cena, uma delas ganha destaque. Em Santos ainda, pouco depois da chegada e já trabalhando como caixeiro-viajante, Sucher é surpreendido por um convite do irmão. Havia um tesouro escondido em Ilhabela, com a promessa de um atalho para a fortuna. Ele, o irmão Sruel e Jacob, um companheiro de pensão, partem em busca do ouro e aparentemente o resultado é desastroso: passam fome, frio, sede e pouco encontram. Pouco encontram?

Em torno de uma Ilhabela nativa, encontram pescadores repletos de histórias. Com a “fortuna”, Sucher consegue comprar uma bicicleta que incrementa os seus negócios. Mas nada foi mais valioso do que as histórias que ouviu. Essas, sim, parecem a riqueza maior e uma das grandes contribuições da cultura judaica para o mundo desde o Antigo Testamento.

Mais do que tecidos, joias e roupas vendidas a prestação de bairro em bairro, elas, as histórias, são as responsáveis pela sobrevivência de uma cultura tão perseguida. A ficção, essa capacidade de criar relatos plenos de imaginação, manteve acesa a esperança: “Fingir não é propor engodos, porém elaborar estruturas inteligíveis”, escreveu Jacques Rancière, pensador da estética.

Caco Ciocler, com a sua narrativa, faz a gente sentir isso.

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Zeide
Caco Ciocler
Planeta
240 págs.

 

 

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