Ensaios e Resenhas

abril 2020 / Ensaios e Resenhas / O terrorista lírico

Texto publicado na edição #240

O terrorista lírico

"O cavalo pálido", de Boris Sávinkov, narra de maneira ficcional um atentado a bomba organizado pelo próprio autor contra o governador-geral de Moscou

> Por YURI AL'HANATI

Boris Sávinkov, autor de O cavalo pálido

Boris Sávinkov, autor de O cavalo pálido

Ao receber o Oscar de melhor filme por Parasita neste ano, o diretor Bong Joon Ho citou uma frase atribuída a Martin Scorsese — seu concorrente na noite —, que dizia que o mais pessoal é também o mais criativo. Como regra de ouro da arte, é possível constatar, ao longo da história, diversas correntes literárias ou autores desfiliados que buscaram explorar suas experiências mais íntimas no papel.

Seguindo essa linha, o russo Boris Sávinkov (1879-1925) causou comoção na cena literária de sua época devido à sua experiência com o terror. Seu livro O cavalo pálido, publicado originalmente em 1909 e que agora chega ao Brasil, com tradução e posfácio de Rubens Figueiredo, narra em forma de diário o cotidiano de um grupo de terroristas que pretende matar, com um atentado a bomba, o governador-geral de Moscou. O episódio, aqui narrado de maneira ficcional, foi protagonizado de fato pelo autor em 1906, quando era integrante da Organização Combatente do Partido Socialista Revolucionário (SR). Como militante, Sávinkov foi responsável por diversos atentados a bomba entre 1903 e 1906, o que lhe valeu a alcunha de “nosso amigo assassino”, dado por expoentes das artes na França, para onde fugiu depois de um tempo. Lá, ficou amigo de Pablo Picasso, Diego Rivera, Guillaume Apollinaire e Blaise Cendrars, que lhe alavancaram o nome como escritor.

É claro, a literatura russa de então já havia experimentado narrativas sobre crimes políticos e foras da lei, especialmente com o grande romance Os demônios (1872), de Fiódor Dostoiévski, mas é o tom introspectivo, psicologicamente denso e pessoal do narrador — chamado vulgarmente ao longo do livro de George, seu nome falso — que espanta à primeira vista em Sávinkov. Ao invés de um romance ideologizado, de emoções caudalosas e vozes de comando, o que se vê é uma ação esvaziada de vontade, um narrador fleumático que busca entender, não sem certa melancolia, por que mata enquanto se prepara para matar. Da mesma forma, sua quadrilha, longe de ser a personificação do mal e do terror, é uma reunião de tipos cansados e tristes. Fiódor e Vânia, batedores, Erna, a química que prepara as bombas, e Heinrich, o motorista, compõem um mosaico de criminosos saltimbancos mambembes, cada um com seus dramas particulares em meio ao grande plano. Um sexto personagem, Elena, uma moça casada por quem George é apaixonado, serve de locomotiva para o romance. Ela põe as rodas na ação, pois o triângulo amoroso do qual se vê fazendo parte intersecciona com outro, dentro de seu próprio bando: Heinrich ama Erna e Erna ama George, que não a ama. Aqui o amor, ao contrário de ser um sentimento que eleva, adiciona sua boa dose de melancolia à trama. Todos parecem se sentir condenados por amar uns aos outros, tendo em vista o assassinato que planejam e a inevitável execução posterior por parte das forças da justiça.

É Vânia, entretanto, que dá densidade à antessala da ação. Cristão fervoroso e grande interlocutor do narrador, preocupa-se com a moralidade de seus atos e tenta analisar o terror sob a ótica da exegese bíblica. Especificamente, o evangelho segundo João e o Apocalipse são citados de forma extensiva ao longo do romance (curiosamente, algumas correntes acreditavam que o apóstolo João seria o mesmo João autor do Apocalipse). Perdendo a luta da fé contra suas próprias conclusões, vê o mundo reduzido à cosmovisão de Smerdiakov, o criado e suposto filho bastardo de Ivan Karamázov, do célebre romance Os irmãos Karamázov (1879-1880), de Dostoiévski. O personagem, assassino de seu mestre e pai, não enxerga nada de positivo no mundo, e anseia, mais do que tudo, dar vazão a seu ódio e castigar o povo russo, sendo ele a encarnação da chave positiva em resposta ao questionamento de Ivan Karamázov que contrapõe a mortalidade da alma à permissividade dos corpos — o célebre “se Deus não existe, então tudo é permitido?”.

Cansaço e melancolia
Vânia, ao contrário de tantos contorcionistas semióticos modernos, não consegue conciliar a fé e o ato de matar, nem mesmo para fins revolucionários, e se vê cada vez mais imerso no “reino de Smerdiakov”, o caminho oposto ao reino de Cristo. Ao dialogar com a obra de Dostoiévski, Sávinkov presta contas de suas leituras ao mesmo tempo em que sublinha o esvaziamento de valores da era moderna, tanto em relação à cultura quanto na esfera da espiritualidade. Uma derrota ao transcendentalismo proposto por Ralph Waldo Emerson que, ironicamente, anteciparia tanto as grandes correntes tradicionalistas do ortodoxismo russo nos séculos 20 e 21 quanto os maiores expoentes do existencialismo francês — não por acaso, Camus foi um dos célebres leitores de Sávinkov. O narrador olha com desinteresse para o cosmos, e não fosse o amor por Elena, pouco mais teria pelo que viver.

O resultado dessa ação desprovida de base filosófica é o “Cavalo Pálido” — referência ao veículo do cavaleiro do Apocalipse que representa a morte no Livro das Revelações. Como bem apontou o tradutor Rubens Figueiredo em um esclarecedor posfácio, o título do livro aponta para o cavalo e não para o cavaleiro. “Ou seja, não está em primeiro plano o agente imediato e consciente, mas o veículo, a força propulsora, poderosa e decisiva, conquanto sem direção e sem escolhas próprias”, sugere. O próprio George, o narrador, tem suas ações subordinadas a Andrei Petróvitch, membro do comitê revolucionário e hierarquicamente superior, que, por sua vez, repassa ordens de origens obscuras. A máquina revolucionária, kafkianamente impessoal e distante, pede sangue sem oferecer remédio às dores dos espíritos de seus agentes.

O cansaço da voz narrativa muito provavelmente se correlaciona com o momento do autor ao escrevê-la. Sávinkov escreveu O cavalo pálido em Paris, depois de fugir da cadeia russa onde aguardava sua execução pelo assassinato do governador-geral de Moscou em 1906, e já carregava suas inquietações com os movimentos revolucionários de sua época. Muito embora tenha continuado em suas atividades de espionagem e terrorismo, voltou-se contra Lênin e foi capturado pelos soviéticos para ser sentenciado à morte. Seus personagens também encaram o terror como uma possibilidade de propósito, mas sem muita fé no reino de Smerdiakov. O heroísmo do feito, que justifica qualquer punição posterior, parece não se sustentar muito nos silêncios que entremeiam os planos, e colocam suas almas irremediavelmente no espectro oposto ao da própria fé cristã.

Não há como negar que O cavalo pálido é um romance desesperançado, triste, marcado por uma linguagem dura e igualmente melancólica. Seu desenvolvimento é trágico e não oferece redenção alguma, nem ao leitor, nem aos personagens e nem ao próprio autor. Sávinkov, com uma biografia repleta de feitos curiosos e encontros inesperados (muitos deles descritos no posfácio da edição), converge seu final com o final de seu personagem-narrador, como se já soubesse de antemão o que o destino reserva aos seus. Para além da curiosidade biográfica, entretanto, o livro se sustenta como o prenúncio de um começo de século turbulento para o país, que pode ser lido tanto como um libelo do dever quanto um elogio ao nada.

Boris Sávinkov_O cavalo pálido_240

O cavalo pálido
Boris Sávinkov
Trad.: Rubens Figueiredo
Grua Livros
168 págs.

O AUTOR
Boris Sávinkov
Nasceu em 19 de janeiro de 1879, em Kharkiv, na parte do Império Russo onde hoje corresponde à Ucrânia. Foi expulso da Escola de Direito de São Petersburgo por participar de uma série de manifestações estudantis. Planejou diversos atentados a bomba entre 1903 e 1906, pelos quais foi preso e sentenciado à morte, mas fugiu da prisão e se refugiou em Paris. Deixou poucos escritos, entre eles O cavalo pálido (1909), O cavalo negro (1924), que seria um desdobramento do primeiro livro, e o autobiográfico Memórias de um terrorista (1917). Jogou-se da janela da prisão onde cumpria sentença e morreu, em 1925, aos 46 anos de idade.

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