Ensaios e Resenhas

maio 2016 / Ensaios e Resenhas / O tempo no centro da ilha

Texto publicado na edição #193

O tempo no centro da ilha

"Os mil outonos de Jacob de Zoet" é escrito com fluidez, poesia e refinado humor

> Por LUIZ HORÁCIO

David Mitchell, autor de Os mil outonos de Jacob de Zoet

David Mitchell, autor de Os mil outonos de Jacob de Zoet

Delicadeza, aventura, erudição, humor, ritmo incomum, positivamente, da narrativa. Tudo na mesma cesta à disposição do leitor. Mas nada é conforme parece. Nas letras pequenas do contrato estabelecido entre leitor e obra as indefectíveis “letrinhas” acusam a parte sanguinolenta da trama. Mesmo assim vale o preço.

A leitura de Os mil outonos de Jacob de Zouet exige enorme disposição, atenção e controle do leitor. A fluidez da escrita aliada à ansiedade de chegar à página seguinte pode levar ao desperdício e permitir maior atenção à simples aventura em detrimento da poesia que emoldura o suspense da narrativa de David Mitchell.

O começo da trama não é nada romântico, muito menos enternecedor, amigável. O início espanta e prende o leitor, com direito à ilustração do motivo disso tudo. O leitor se vê no Japão antigo, em meio a um parto difícil, sangrento, em que nenhum detalhe escapa. Isso é oferecido ao leitor em breves dez páginas, ainda restam em torno de quinhentos e cinquenta. O ano é 1799 na ilha artificial de Dejima, cento e vinte metros de comprimento por setenta e cinco metros de largura, situada na baía de Nagasaki. Uma ponte faz a ligação.

Nessa ilhota, os japoneses confinaram um pequeno contingente da Companhia das Índias Orientais, os derradeiros parceiros comerciais estrangeiros do arquipélago. Essa comunidade forneceu ao Japão, durante mais de dois séculos, algodão e seda. Dejima fora construída pelos portugueses, depois passou a pertencer aos holandeses da Companhia Holandesa das Índias Orientais.

Durante umas cento e cinquenta páginas cabe ao leitor a impressão de estar sendo constantemente apresentado a personagens, Jacob de Zoet parece carregá-los pela mão e mostrá-los ao estupefato leitor.

São muitos personagens e, é óbvio, a empatia não ocorre com todos, mas a maneira como é contada a história de cada um consegue tornar todos importantes. Os mil outonos de Jacob de Zoet é uma obra extremamente detalhista, o passado de cada personagem proeminente de Dejima é detalhado exemplarmente de modo a não aborrecer o leitor, tampouco obstaculizar a fluidez da leitura. Tudo, importante mais este detalhe, sob a batuta de um refinado humor.

Dizem que os homens se revelam numa mesa de jogo. David Mitchell deve saber disso, alguns de seus personagens se reuniam para jogar cartas, e nesse momento, às vezes em jantares ou outras reuniões, eram apresentadas características dos personagens.

À exceção do médico, Marinus, que também era professor na faculdade de Medicina em Nagasaki, e os administradores, a maioria dos homens de Dejima não estava ali curtindo férias. Trabalhos forçados era o prêmio.

Essa mesma ilha recebe Jacob de Zoet , um jovem escriturário ambicioso que pretende fazer fortuna naquele fim de mundo, na expectativa de retornar, dentro de cinco anos, com dinheiro suficiente a lhe permitir casar com Anna.

A chegada de Jacob, podemos dizer, é a parte lenta da narrativa, abarca apresentação do protagonista, sua chegada, a receptividade, descrição do ambiente, “apresentação da ilha”, costume e política locais. Embora lenta, não implica problema à narrativa, a força dos diálogos compensa qualquer espasmo de uma suposta monotonia.

Com suavidade, o autor opera a transição, lentamente conduz narrativa e leitor a uma virada significativa na história.

Não é fácil a vida de Jacob: uma relação tensa com os japoneses em que reina uma desconfiança mútua. Como não bastasse, precisa administrar conflitos com seus companheiros europeus. A missão do protagonista: dar fim à corrupção em Dejima, o que significa parar com entradas e saídas de mercadorias por meios pouco ortodoxos. Afora essa singela tarefa, caberá a Jacob atualizar antigos relatórios. E o único “soldado do passo certo” não tardará a cair em desgraça entre seus colegas.

O cozinheiro Arie Grote pergunta: “Que homem não é o sujeito mais honesto do mundo aos próprios olhos?”. Logo, as práticas nada convencionais para auferir ganho não implicam desonestidade, é algo normal, corriqueiro. Por que abrir mão?

Estamos diante de um “simples” cozinheiro, porém a maestria, a delicadeza dos detalhes na descrição tornam, como disse anteriormente, todos personagens bastante importantes. Uma frase, uma atitude, a descrição a moda David Mitchell, de um ato corriqueiro, não permitem a passagem discreta de nenhum personagem de Os mil outonos de Jacob de Zoet. Já que o momento é dos personagens, vamos ao começo, primeiro capítulo, este é o cenário e o tempo de Aibagawa Orito, parteira em Nagasaki. Ela estuda medicina em Dejima, seu professor é um holandês, desperta atenção e curiosidade por ser a única mulher da turma. Adiante, ela deixará de lado o manto dos mistérios e excentricidades para adquirir relevância maior dentro da narrativa. Embora grande parte do livro seja destinada às questões políticas, não chega a cair no tédio quase inevitável dessas cansativas abordagens. Logo a seguir o leitor se depara com a trama propriamente dita em que não faltam as intrigas, as perseguições, lutas de samurais, sem a excentricidade que sentido teria ambientar no Japão?, seitas secretas e um tanto, quase exagerado, mas que sentido seria se não antevisse uma futura filmagem?, de aventuras.

A narrativa impressiona, aborda temas para todos os gostos, corrupção e subornos, poder e seus abusos; a influência das guerras napoleônicas na ilha, a parte da excentricidade concentra-se na medicina da época, as religiões, a posição da mulher na sociedade, as cenas fortes resultam da opressão. Aqui um aspecto bastante peculiar da obra: a escravidão é apresentada pela ótica do europeu e também pelo olhar e sentimento de um escravo.

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Em meio a questões históricas, abordagens filosóficas e religiosas, sátira e muita ironia, o humor jamais é deixado de lado.

Cenas fortes, impactantes, são distribuídas de forma equilibrada ao longo do livro, mas talvez a primeira, a do parto, seja insuperável.

E cá estou de volta à primeira parte, chama atenção por andar num ritmo bem diferente da sequência da história. Talvez a abordagem, predominantemente os aspectos comerciais de Dejima, assim exija. Também chama bastante atenção a opção do autor pelos períodos curtos, não digo que atrapalhe, mas até acostumar com a estranheza, alguns leitores patinarão. Mas o que afasta qualquer possibilidade de defeitos? A construção dos personagens e a força dos diálogos. Tais aspectos, personagens fortes e bons diálogos, são suficientes para salvar qualquer obra, aqui simplesmente se destacam em meio a inúmeras outras qualidades.

Vale lembrar que o humor permeia a narrativa. Em meio a questões históricas, abordagens filosóficas e religiosas, sátira e muita ironia, o humor jamais é deixado de lado.

Ocorrem várias mudanças bruscas na história, o que exige grande atenção do leitor. No entanto, esses “acidentes” propositais não implicam consequências condenáveis, tampouco ocasionam perda de pontos na carteira do escritor.

A metade seguinte do romance guarda poucos fios de ligação com a primeira. Jacob deixa de ser o protagonista e o papel é dividido entre Aibagawa Orito e Ugawa Uzaemon. Elas assumem o protagonismo enquanto outros personagens desaparecem para ressurgirem mais adiante. Nada é desprezado por David Mitchell. Dejima fica em segundo plano e o Japão é mostrado pela lente do mistério e das excentricidades. Dejima configurava a monotonia, o vício estabelecido, o Japão apresenta o movimento, impossível não relacionar com filmes de Akira Kurosawa, que por sua vez remetem a Shakespeare, A balada de Narayama e também Rashomon, são influências “visíveis” ao leitor; encontramos raptos, conspirações, seitas. Infelizmente a aventura ocupa grande parte do livro, dispensáveis segundo o juízo deste aprendiz. Momento Sessão da Tarde de David Mitchell. Mas quem dentre vós apostará que não foi escrito visando futura filmagem, quem?

E da maneira como transcorrem as mudanças em Os mil outonos de Jacob de Zoet, o leitor logo se depara com a chegada de uma fragata inglesa, seu capitão é Penhaligon, que padece com a gota, mesmo assim consegue esconder a doença da tripulação. A chegada da fragata à costa de Dejima conduz a narrativa novamente a este cenário.

Dentre os inúmeros aspectos que fazem desta obra de Mitchell um grande romance, ressalta-se, excentricidades à parte, o fato de trazer ao leitor muitos costumes japoneses do século 19. O autor viveu muitos anos no Japão, e descreve, explica, traz para a trama tais informações sem o menor prejuízo ao ritmo da narrativa.

Ao final da leitura, ao refletir sobre o que foi lido, surge o verdadeiro protagonista de Os mil outonos de Jacob de Zoet: o tempo. O tempo e suas nuances adequadas às nossas possibilidades e exigências da vida.

 

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Os mil outonos de Jacob de Zoet
David Mitchell
Trad.: Daniel Galera
Companhia das Letras
562 págs.

 

O AUTOR
David Mitchell

Nasceu em 1969, em Southport, na Inglaterra. Viveu anos no Japão e atualmente mora na Irlanda com a esposa e dois filhos. É autor de outros cinco romances.

TRECHO
Os mil outonos de Jacob de Zoet

Quando as irmãs dizem que o Lar é muito, muito melhor que um bordel, elas não estão querendo ser cruéis. Bem, pode ser que uma ou outra queira, mas as outras não. Para cada gueixa bem-sucedida e disputada por clientes ricos há quinhentas garotas cuspidas e maltratadas, morrendo de doença.

 

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