Tudo é narrativa

janeiro 2018 / Tudo é narrativa / O regresso ao contínuo

Texto publicado na edição #213

O regresso ao contínuo

Há momentos em que fazer uso da língua se torna um distúrbio

> Por Tércia Montenegro

Ilustração: Aline Daka

Ilustração: Aline Daka

Em 2017, o centenário de nascimento de Algirdas Julius Greimas — linguista lituano grandemente responsável pelos avanços na área da semiótica — trouxe várias comemorações pelo mundo acadêmico. Os estudos dessa linha greimasiana costumam ser temidos por sua complexidade, mas também trazem ao pesquisador experiências de reflexão tão arrebatadoras que só podem ser comparáveis a determinados momentos estéticos. O próprio nome desta coluna no Rascunho, Tudo é narrativa, foi inspirado nessa proposta semiótica. Óbvio que não pretendo agora enveredar pelo tema teórico da construção do sentido — mas, em homenagem ao autor de Semiótica das paixões, gostaria de fazer volteios em torno de um assunto que o leitor pode inclusive considerar em sua dimensão mística: o par contínuo-descontínuo.

Simplificando estes termos dentro de uma estrutura textual, o contínuo é a continuação, a rotina; o descontínuo é a parada, ou o acontecimento. Assim, qualquer enunciado modula estas instâncias, à medida que vai trabalhando com fatos dados ou novos. Toda cadeia processual possui alternância, e é a própria tensão entre tais dicotomias que vai gerando o andamento do texto.

Se saímos, porém, da perspectiva de uma semiótica tensiva (mais explorada por outros teóricos, sobretudo por Claude Zilberberg), encontramos uma distinta aplicação para esta ideia oposicional. O descontínuo seria tudo o que está mergulhado na, por assim dizer, semiosfera. O princípio da comunicação é que ela aconteça por fragmentos. O fato de precisarmos falar a respeito de algo que estamos pensando, por exemplo, demonstra como existe uma separação entre a nossa mente e a de outra pessoa. Cada indivíduo é mera parte da humanidade, que se encontra em estado de dispersão — por isso, parece primordial que nos comuniquemos. Essa troca só é possível porque existe a separação, a diversidade. Se tudo fosse reduzido ao uno, as necessidades de transferência ou diálogo ficariam subitamente esgotadas.

Faço uma pausa para o leitor respirar, contando uma ilustrativa experiência pessoal.

Já faz muito tempo sinto uma espécie de chamado para uma vida mais primitiva, algo que nomeio como tentação de ser hippie. Insistentemente cogito passar um longo período sem tecnologia, de maneira mais ou menos selvagem, em contato íntimo com a natureza. Como jamais arrisquei efetivamente essa mudança, contento-me com pequenos retiros rústicos, para me desintoxicar. Foi assim que há cerca de um mês passei um final de semana numa praia ainda pouco conhecida, a quatro horas de Fortaleza. A paisagem, com dunas belíssimas, era um tipo de representação do infinito — e andar sob as estrelas parecia um ensinamento ancestral: estamos aqui por um instante apenas, mas isso não é trágico. Logo estaremos de novo integrados ao contínuo universal. Sem desejos, anseios ou fragmentos.

Tudo muito espiritualizado e perfeito — não fosse pela presença de outras pessoas falando, quebrando o momento. Eu queria apenas ser esmagada pelo silêncio, deixar que ele me preenchesse, mas duas senhoras atrás de mim conversavam. Elogiavam um conjunto de panelas em promoção numa certa loja.

Escutar aquele comentário me fez entender como a comunicação pode ser um defeito.

Há momentos em que fazer uso da língua se torna um distúrbio, uma ação postiça. Toda mensagem é uma forma de romper-se, de evidenciar as fraturas: de mim para você, sempre haverá desentendimentos, elementos alheios incontornáveis.

Esse é o descontínuo, convulsionando. E ele convulsiona o tempo inteiro, no espaço cultural permeado por signos — a tal semiosfera.

Entretanto, temos uma potencialidade de transcendência, uma integração holística possível — o regresso ao contínuo, quando nada mais for separado, tempo e espaço e corpos: tudo inexiste porque chegou a uma totalidade tão extrema que qualquer coisa (inclusive a linguagem) se torna supérflua, uma futilidade que finalmente se ultrapassou.

A própria língua deixaria de existir porque tudo nela — assim como no mundo — funciona na base de contrastes. Se digo (na tentativa de explicar uma vida-além) que ela seria um estado perene de paz, aí já existem oposições, pois não se entende o conceito de paz a não ser pondo-o em contraste com o de guerra; a ideia de estado obriga a pensar na ausência de estado, o perene evoca o perecível. Assim, cada palavra ou partícula existe somente por dialogar com outra — e este mecanismo, por si, é um sintoma da imperfeição, das partes que vão se dinamizando e nunca chegam à unidade completa. Chegar a essa imobilidade seria o fim das contradições e do simbólico. Seria a morte, por assim dizer.

Nesse momento, penso que a frase do sábio “Só sei que nada sei” não parece uma lição de humildade, mas, ao contrário, uma afirmação iluminada (e até um pouco envaidecida): saber o nada é saber o tudo. É ter acesso à perfeição. Quando não existem divisões, compreender-se dentro da continuidade é contemplar o divino. Ou melhor, é dissolver-se nele, deixar de ser matéria, átomo. Retornar ao contínuo.

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