Sob a pele das palavras

dezembro 2018 / Sob a pele das palavras / “O quereres”, de Caetano Veloso

Texto publicado na edição #224

“O quereres”, de Caetano Veloso

O poema fala da indomesticabilidade do corpo na vida, que é “real e de viés”

> Por WILBERTH SALGUEIRO

Caetano Veloso, autor de O mundo não é chato

Caetano Veloso, autor de O mundo não é chato

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te e amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n’roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim

O quereres, de Caetano Veloso, pertence, em primeira leva, a Velô (1984), e é das mais belíssimas letras do compositor. O poema-canção se sustenta em uma estrutura de seis oitavas em decassílabo mais um refrão em redondilha maior. São seis estrofes de oito versos; em cada verso, todos com dez sílabas poéticas, cai a tônica na sexta. Exceto na última estrofe, em que os versos 48 e 50 têm suas tônicas na sétima sílaba (“Bem a ti, mal ao quereres assim” e “E, querendo-te, aprender o total”); e o último verso (“Do querer que e do que não em mim”), que se constitui como decassílabo sáfico. Mas percebe-se que, no canto, o poeta “acerta” a tônica, deslocando o acento forte para a sílaba anterior (de queREres para QUÊreres, e de aprenDER para aPRÊNder), e transformando em tônico (ao alongar vocalmente) o segundo “que” do último verso (“do queee…”). Assim, o poema se realinha, com todos os versos decassílabos heroicos. O estribilho é um dístico heptassílabo e intervém a cada duas oitavas. Tal arquitetura dá ao poema um caráter cabralino: rigor, medida, razão, projeto — derramamentos contidos.

O poema fala da indomesticabilidade do corpo na vida, que é “real e de viés”; no corpo do poema, porém, o desconcerto do sujeito no mundo ganha ordem, regra, rimas, cálculos. A dispersão da vida (força) encontra na canção (forma) a harmonia alhures impossível. Como disse José Miguel Wisnik no songbook de Caetano, O quereres é “uma dessas canções que se oferecem ao deslizamento permanente do ser”, deslizamento que encontra barreiras num complexo sistema métrico e rímico, com pletórica armação de antíteses e oxímoros e intrincada rede quiástica que lembram o conceptismo barroco.

O título da canção utiliza raro recurso de substantivar o verbo, flexionando o infinitivo e produzindo uma estranha combinação de um artigo no singular e um verbo tornado substantivo no plural, embora se refira à segunda pessoa do singular: o quereres, tendo um elíptico “tu” entre o artigo e o verbo. Além da forma “quereres”, este verbo aparece ora projetando-se no gerúndio do “querendo” da estrofe final, ora no “querer” do estribilho, ora no “quero” ativo do sujeito, ora no anafórico “queres”, que pontua toda a canção, induzindo o ouvinte a esperar a surpresa da próxima conexão.

No livro Sobre as letras, que acompanha Letra, Caetano escreve em torno de O quereres: “A estrutura é tirada de cordel. Mas também tem um pouco de ‘It ain’t me, babe’, de Bob Dylan, que diz: “‘it ain’t me you’re lookin’ for, babe”. Lá é diferente, mas alguma coisa em O quereres lembra esse tema, do homem que fala para a mulher: ‘eu não estou onde você quer’”. A pista é evidente: na canção, se elabora o erótico desentranhado da vida cotidiana para a geometria pensada do poema. No querer do cotidiano imperam os desencontros incessantes; no querer da canção assimila-se a simetria, reinventando, via arte, a solidão da incorrespondência vital. Em seus 52 versos, de um lado, há aquilo que o Tu quer: “descanso”, “eunuco”, “ternura”, “anjo”, “prazer”; de outro, o que o Eu é: “desejo”, “desejo”, “garanhão”, “tesão”, “mulher”, “o que dói”. Há uma nítida divergência de vontades, estando o Eu no princípio das potências ativas, afirmadoras, dionisíacas.

Os versos de O quereres emblematizam a própria figura do compositor que, há décadas, vem alternando atitudes e estéticas diante de contextos os mais díspares: da postura tropicalista à fina estampa, de canções “concretas” a folclóricas, do falatório midiático ao silêncio programado, de campanhas éticas e cidadãs a certas amizades politicamente incorretas etc. O fato é que, ali onde se espera que o poeta aja ou reaja de um determinado modo, vem a surpresa, o inusitado, o bombástico. Em particular, se perpetua uma impudica curiosidade do senso comum acerca da sexualidade de Caetano. Em Verdade tropical, o baiano põe lenha na fogueira: “Aproximei-me, como figura pública, do que Andrew Sullivan chamou de clima ‘ubíquo, vagamente homoerótico’. (…) Tendo tido uma frequência muitíssimo mais alta de práticas heterossexuais, poderia dizer, a esta altura da vida, que me defini como heterossexual. Mas que nada. O que importa é ter os caminhos para o sexo rico e intenso abertos dentro de si”.

A “bruta flor do querer” encontrará repouso e abrigo na construção poética, no fingimento medido. Em paralelo aos lances eróticos, o poema se explicita metapoema: “Encontrar a mais justa adequação/ Tudo métrica e rima e nunca dor”; “Onde queres mistério, eu sou a luz/ E onde queres um canto, o mundo inteiro”. Aqui, se verifica a alusão a Luz e mistério (1978), em que se diz em duo, com Beto Guedes: “Oh! meu grande bem/ Só vejo pistas falsas/ É sempre assim/ Cada picada aberta me tem mais/ Fechado em mim”. A ambivalência de “canto”, que se espraia do seu sentido geográfico de “lugar” para o sentido poético de “lira”, encontra perfeita ressonância no verso-chave do poema: “Onde queres o livre, decassílabo”: ali onde o sujeito é cobrado por atitudes (in)constantes e (im)previsíveis, surge a “justa adequação”, a “métrica”, a “rima”, o “mundo inteiro” que cabe num decassílabo. Do livre (o desregrado, o desprendido) ao decassílabo (ciência de saber fazer o verso), uma vírgula.

Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso, esclarece: “Ao compreender que as dificuldades da relação amorosa vêm do fato de que ele está sempre querendo se apropriar de um modo ou de outro do ser amado, o sujeito decide abandonar a partir de então todo ‘querer-possuir’ a respeito dele”. Hoje, “querer” se traduz por, em síntese, “desejar”. No entanto, etimologicamente, “querer” vem do latim “quaerere”, que significa o que entendemos por “procurar, buscar”. Então, entre o desejo e a procura, o poeta parece dizer ao leitor: “eu não estou onde você quer”. Bruta, lapidar, essa flor que se quer, mas escapa, porque ausente de todos os buquês.

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