Ensaios e Resenhas

março 2019 / Ensaios e Resenhas / O que transborda

Texto publicado na edição #227

O que transborda

"Fundo falso", da mineira Mônica de Aquino, entrelaça diferentes ecologias no reino das palavras

> Por Cristiano de Sales

Mônica de Aquino, autora de Fundo falso

Mônica de Aquino, autora de Fundo falso

Fundo falso, de Mônica de Aquino, é um livro que não trata do que escapa. Do que se perde ou vaza. Trata antes do transbordamento. E, como sabemos, transbordar não é o mesmo que ficar sem. Antes, é ficar com. Quando algo derrama, misturam-se diferentes partes sem que nenhuma delas deixe de existir. Elas só passam a existir com o que antes não fazia parte delas.

No caso dos poemas desse livro, percebemos o transbordamento daquilo que o filósofo e psicanalista francês Félix Guattari chamou de três ecologias (aliás, vejo essa tendência em outros poetas contemporâneos). Notamos nesse Fundo falso um alargamento do humano no animal, deste no mineral, destes no vegetal, e nessas coexistências todas uma possibilidade de sermos a partir do outro. É um livro de aberturas para a vivência na alteridade. Não por se entender diferente dos outros livros de poesia, mas por entender que a vivência poética é assim. Essa lição, Mônica parece herdar de Drummond e artificializar (fazer poesia é isso) com um bocadinho de João Cabral, Quintana e tantos outros que podemos ler nos entreversos da última parte do livro dessa poeta mineira nascida em Belo Horizonte.

O livro se apresenta em partes que também transbordam uma na outra. A primeira intertextualiza com Homero uma Penélope contemporânea (talvez mesmo a clássica) que não é a mulher que espera e se preserva para a volta do herói. Não. A Penélope de Mônica de Aquino, à maneira do que sugere Ana Cristina Cesar, tece e desmancha a si própria num rito erótico de íntimo segredo. Mas não de um segredo que teme qualquer imoralidade ou punição. Antes, um segredo consciente do quanto seus devires e desejos não podem ser compreendidos por absolutamente ninguém. Ela não percorre dedos no tecido (na pele) com saudades apenas do homem que foi para longe encarnar o herói de uma epopeia. Ela faz memória com suas mãos (se masturba) pensando também nos pretendentes que a cercam, e são muitos.

E quando seu “herói” retorna, passa a existir nesse segredo íntimo e sensual (de memórias tácteis) um desejo de partir. Porque ela não é espera. É mulher. E, como tal, signo aberto, transbordamento. Essa Penélope contemporânea de Mônica não existe a despeito daquela de Homero. Ela ressignifica a mulher silenciada por séculos em seus desejos. A essa parte do livro chamou-se A memória das mãos. Essas mãos que tecem o próprio corpo em noites solitárias preparam, em verdade, um diferente destino ao herói:

A morte exige outra pele, tela composta
Faço, desfaço, Moira que confunde agulha, linha
Tesoura
Enquanto a distância joga com as Parcas
Entendo:
É de Odisseu o sudário que teço.

Partes do todo
São mais quatro divisões no livro. A dor como método mostra o quiasma dos reinos mineral e animal para evidenciar como a pedra também pode viscerar-se com o homem se o assunto em questão for a compreensão do que seja a dor e o silêncio do pássaro, digo, do poeta. Água forte revela que mover-se para o outro é o melhor modo de encontrar técnicas de inscrições para si mesmo na cadeia maior de sentidos chamada mundo. Mas esse gesto de alteridade poética, ou de reversibilidade, se preferirmos, fica mais evidente nos poemas da parte que Mônica intitulou Quarto de espelhos. Notemos a potência da ambiguidade nos versos:

Tangente
ao que sempre fora
se afasta: fica.

É do modo de ser dos espelhos serem em aparência tudo que de fato não são eles. Sua substância é não apenas refletir o outro, mas também, ou antes, fazer de si a devolução da imagem do outro (devolução da face e das perguntas do outro) ao esmo tempo que se reconhece existindo apenas com esses rastros do que não são eles mesmos. É a mútua existência do visível e do invisível de Merleau-Ponty, ou do modo de ser dos poemas; sempre um transbordar para o outro.

A palavra “fora”, acima no poema, pode ser lida como verbo ‘ser’ no mais-que-perfeito, o que nos daria algo como ‘ao que sempre foi’, mas pode ser lida também como o substantivo oposto do dentro, o que nos daria algo como ‘ao que está sempre do lado de fora’. A potência desse duplo sentido ganha mais força no verso seguinte, pois podemos ler “se afasta” como reflexivo ativo ou como condicional. E mesmo se optarmos por ler essas duas passagens como quatro possíveis, convergiremos numa mesma conclusão: o que está fora (ou já foi) se (se) afasta… em verdade, sempre fica. Dito de outro modo, ficamos sempre traçados pelo que não somos, o outro. Seria o nosso devir?

As partes que se seguem no livro nos trazem a espessura dessa experiência do afeto na alteridade. Corpo sem pausa, Efeito da quebra e Matéria bruta mostram como o poema pode ser também essa fissura-lugar-hiato onde Penélope percorre os dedos e constitui memória para continuar se inscrevendo no mundo de maneira íntima, desconhecida e transbordada.

Imagens como as do poema rasgado em rio ou da delicadeza da teia de aranha que é força imobilizante, apesar de aparentemente frágil, poderiam nos fazer pensar em metapoemas. Mas o Fundo falso de Mônica de Aquino não hesita em esgarçar e assumir as consequências do transbordamento poético: a poesia vivida com o outro. Seu livro se abre para os outros devires afetivos que fazem de seus poemas apenas a substância espelho que devolve, na espessura do que somos, possibilidades de reinscrições na ecologia ampliada onde nos constituímos feito signos, ou seja, na linguagem.

O alargamento dos reinos animal, vegetal e mineral, quando articulados na poesia, ganha também uma dimensão social, aproximando-nos da ecosofia de Guattari (onde indivíduo, coletivo e ambiente se entrelaçam numa grande ecologia). E livros como o de Mônica, que nos afetam de maneira transbordante, fazem lembrar que isso tudo vem ao nosso encontro (nós somos o outro) nos fazendo encarnar de novo no que Drummond chamaria de reino da palavra. E quando isso acontece…

“Outro poema, então, se instaura:”.

 

 

Monica_de_Aquino_Fundo_falso_227

Fundo falso
Mônica de Aquino
Relicário
99 págs.

A AUTORA
Mônica de Aquino
Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1979. Publicou o livro de poemas Sístole em 2005. Tem poemas publicados em revistas e suplementos literários, bem como em antologias poéticas como Roteiros da poesia Brasileira: anos 2000 (2009) e A extração dos dias: poesia brasileira agora (2017). Fundo falso ganhou o Prêmio Cidade de Belo Horizonte em 2013.

Print Friendly