Nossa América, nosso tempo

fevereiro 2017 / Nossa América, nosso tempo / O provedor de conteúdo (Arqueologia do hoje) – I

Texto publicado na edição #202

O provedor de conteúdo (Arqueologia do hoje) – I

A observação final entre analfabetismo e cidadania precária é ainda mais pertinente hoje em dia

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Joao_Cezar

Uma cena singular: a contemporânea
A cena contemporânea apresenta uma singularidade assinalável no que se refere à difusão inédita de um novo meio de comunicação.

Claro, penso na trindade dos tempos digitais: iPhone, iPad, laptop — se possível, não saia de casa sem eles. Mas, sobretudo, como sobreviver em casa sem eles?

Uma comparação, ainda que ligeira, esclarece a diferença.

Limito-me, por questão de economia, à introdução do texto impresso, isto é, à tecnologia dos tipos móveis.

Num primeiro momento, os livros impressos eram tão custosos que chegavam a constar de dotes e testamentos de reis e rainhas. Somente no século 18 o preço do livro tornou compatível sua transformação em objeto (parcialmente) cotidiano.

Não é casual, portanto, que o mesmo século tenha presenciado a emergência definitiva do romance inglês moderno. De um lado, o modelo protestante de alfabetização independente do Estado (o modelo francês, napoleônico) favoreceu a formação de um público leitor em contínua expansão. De outro, o barateamento do custo do livro estimulou o consumo da nascente prosa de ficção romanesca. Ainda assim, a plena difusão do livro somente conheceu um trânsito relativamente livre no século 19.

Lenta, pois, na verdade, multissecular, foi a apropriação da tecnologia dos tipos móveis.

E veja que, se atentarmos à situação brasileira, o fenômeno revela-se ainda mais complexo.

Uma cena ainda mais singular
Em primeiro lugar, a mera existência de tipografias era proibida na colônia, assim como a circulação de livros considerados “perigosos” — quase todos na concepção dos donos do poder. Circunstância agravada — e muito ao contrário da América Hispânica — pela ausência de universidades, vale dizer, pelo absoluto desinteresse da Coroa portuguesa em promover centros de produção de conhecimento. Nem mesmo locais para a reprodução de saberes legitimados pela metrópole!

A independência política não alterou fundamentalmente esse cenário. A alfabetização, logo, o objeto livro, permaneceram apanágio de uma elite; aliás, muito pouco afeita às letras.

(Pois é: nos tristes trópicos, Bildung bem poderia ser o nome de uma empreiteira de sucesso.)

Numa crônica publicada em 15 de agosto 1876, e sempre recordada, Machado de Assis comentou com desilusão o resultado do censo realizado em 1872, dando voz ao implacável senhor algarismo:

— A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. (…) 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, — por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.

(Alguém duvida?)

A observação final entre analfabetismo e cidadania precária é ainda mais pertinente hoje em dia. A República paradoxalmente agravou o dilema ao estabelecer a alfabetização como requisito para o exercício do voto. Dispositivo somente suprimido pela Constituição de 1988, sintomaticamente batizada “Cidadã”.

A singularidade da cena contemporânea
Karl Marx identificou com agudeza o sentido da alienação no sistema capitalista no século 19. Desprovido completamente dos meios de produção, ao trabalhador não restava senão o próprio corpo. E, quando esse mesmo corpo era submetido à disciplina draconiana de um esforço mecânico e exaustivo, a alienação fechava seu perverso círculo vicioso. A resistência a esse estado de coisas conferiu significado à agenda de esquerda, favorecendo a consolidação do movimento operário.

Essa compreensão ajuda a entender a forma radical de reação do Ludismo, no início do século 19 especialmente na Inglaterra, mas com ressonâncias em outros países europeus. Ora, se a maquinização da produção aumentava o desemprego e tornava o trabalho dolorosamente fiel à etimologia, por que não destruir as máquinas?

Numa versão mais sofisticada, esse entendimento foi traduzido no lema revolucionário dos sovietes: as indústrias, aos operários; rompendo o circuito da alienação.

Permito-me tal digressão ligeiríssima — e você perdoará a palidez do esboço — para acentuar, por efeito de contraste, determinado aspecto da cena contemporânea.

Vamos lá.

Eis:

(Advirto: o que segue também será insuficiente, pois se trata de hipótese que carece de maturação. Pensemos juntos:)

Eis: o capitalismo financeiro e globalizado somente é funcional se, em alguma medida, uma série de novas tecnologias de comunicação, associada ao universo digital, estiver disponível a um número crescente de consumidores. Isso mesmo: em escala global, o consumo tende a eclipsar a noção de cidadania.

Da Revolução Francesa à revolução do e-commerce, a promessa da cidadania foi metamorfoseada no passaporte do consumo. Todos são assim livres para comprar, logo, iguais para desejar idênticos sinais de distinção, portanto, irmanados na fraternidade de dívidas e créditos a perder de vista.

Pronto: cumpri o dever de casa; agora, em tese, não deveria ser julgado conservador ou conformista pelo que proporei a seguir.

É inédita a rapidez — melhor, a celeridade — com que os meios de comunicação digitais tornam-se acessíveis a um número igualmente inédito de pessoas em todo o mundo. A dinâmica desse fenômeno é complexa e demanda olhos livres, já que assinalar exclusivamente os (óbvios) aspectos sombrios do processo impede que se identifiquem os pontos cegos do sistema.

No entanto…

Ninguém ignora as armadilhas desse dispositivo panóptico ao qual parecemos aprisionar-nos voluntariamente. Todos nós já nos demos conta de que se sabe, com um grau de precisão que exigiria anos de análise, onde estamos regularmente, aonde vamos com frequência, as páginas que mais visitamos e os produtos que mais buscamos. Nenhum de nós se surpreende ao receber mensagens eletrônicas ou ao ver a tela de nossos gadgets tomada por ofertas que efetivamente correspondem a “nossas” preferências, ou que finalmente nos revelam “nossos” desejos, cujos objetos há muito deixaram de ser obscuros.

De acordo.

Mas não é tudo.

A visão da cegueira
O ensaísta português Miguel Tamen traduziu o ardiloso título de Paul de Man, Blindness and insight, por meio de outro engenho, O ponto de vista da cegueira. Pois neste artigo busco algo como a visão da cegueira, isto é, os elementos da cena contemporânea que permitam driblar o panoptismo nosso de cada dia.

Talvez sejam poucos, pouquíssimos até — mas nem por isso menos provocadores.

A eles.

As assim chamadas “revoluções coloridas” do Leste europeu inovaram no uso político das redes sociais. A eleição de Barack Obama em 2008 ampliou o gesto. Na China, apesar do forte controle, o universo digital por vezes logra furar o bloqueio estatal. No mundo inteiro, telefones celulares foram convertidos em máquinas de registro os mais diversos, fontes de denúncia que podem levar à derrubada de regimes e à desmoralização de políticos.

(Preciso recordar a tristemente célebre “república dos guardanapos”?)

De igual modo, e com frequência, as redes sociais são transformadas em trincheiras ecumênicas, que tanto alvejam poderosas cadeias de lojas quanto promovem modestos estabelecimentos de bairro; tanto advogam causas humanitárias quanto propagam ódios e discriminações.

O que conta mais, porém, é a capacidade incomum de mobilização e de contágio imediato.

Em outras palavras, para além da necessária crítica ao panoptismo digital, em sua relação intrínseca e simbiótica com o capitalismo financeiro, é igualmente preciso o gesto intelectual de explorar eventuais brechas nessa engrenagem global, pois, em sua expansão planetária, por que não supor que áreas com algum grau de autonomia (a palavra ainda é válida nos dias que correm?) possam articular visões de mundo alternativas?

Mais: em que medida essa articulação de alteridades pode constituir o ponto cego por definição do panoptismo digital?

(A visão da cegueira — nada menos.)

Por exemplo, a multiplicação de plataformas engendra uma dificuldade: como produzir conteúdo que dê conta dessa proliferação? Como controlar todo o conteúdo disponível nas redes? Tarefa ainda mais delicada pela supressão crescente dos intermediários: no instante em que você (sim, você!) lê este artigo milhares de vídeos começaram a viralizar e um número sem fim de youtubers principiou a desfrutar de uma celebridade instantânea.

Coda
E ainda não disse nada acerca do “provedor de conteúdo” — o tema deste texto.

Mas não devo suspender nossa conversa antes de assinalar o aspecto decisivo do cenário atual.

Somos todos, e ao mesmo tempo, testemunhas e partícipes, pacientes e agentes do instante, histórico, no qual a introdução de novos meios de comunicação ocorre simultaneamente a sua difusão generalizada.

As consequências culturais, políticas e econômicas dessa simultaneidade são tremendas.

Tentarei pensá-las na próxima coluna.

(A visão da cegueira — se tanto.)

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