Ensaios e Resenhas

maio 2011 / Ensaios e Resenhas / O problema da autenticidade

Texto publicado na edição #134

O problema da autenticidade

Em que sentido um livro de entrevistas pode, já em seu título, declarar-se “apócrifo”? Uma consulta a um dicionário nos […]

> Por FRANCINE WEISS

Em que sentido um livro de entrevistas pode, já em seu título, declarar-se “apócrifo”? Uma consulta a um dicionário nos confronta com o problema da “autenticidade”: apócrifos seriam obras ou fatos cuja autenticidade não se provou. Entre católicos, “apócrifos” seriam escritos não admitidos no cânone das Escrituras autênticas e divinamente inspiradas. Estas Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas, de Kelvin Falcão Klein, seriam, enfim, um verdadeiro “livro de entrevistas”?

A orelha, sinuosamente, contorna o problema, sugerindo um posicionamento do volume entre “os livros difíceis de classificar”. Como ocorreria com tal gênero de livros, este funcionaria “para leitores muito distintos”. Os conhecedores da obra de Vila-Matas encontrariam familiaridade nos comentários sobre livros como Bartleby e companhia e O mal de Montano, sendo, ainda, “bem providos de detalhes acerca do processo criativo, da técnica e das concepções do escritor”. Já os que não conhecessem Vila-Matas ficariam impressionados “pela leveza de seus vôos pelas literaturas mais diversas e com seu contato íntimo e criativo com os textos”. Entender como as conversas implicadas no título poderiam merecer o adjetivo apócrifas seria tarefa que dependeria de uma visita às páginas do livro. Vamos a ela.

Como se organiza o volume? Após a introdução, apresentam-se divisões temáticas: “Amigos”, ”Tradição e leituras”, “Crítica”, “Política”, “Vanguardas” e “Metaficção”. Cada uma dessas divisões é antecedida por um texto em que se tecem comentários elucidativos quanto ao tipo de relação que seria possível estabelecer entre Vila-Matas e o tema em questão, a que se seguem algumas perguntas e respostas. Ao final, foi acrescido o depoimento de uma antiga amiga do escritor, conhecida como “Rita Malú”.

O problema da autenticidade, ou a pressuposição da não pertinência de um eventual desejo de autenticidade atribuível seja às perguntas, seja às respostas (seja ao depoimento final), pode ser discernido já na introdução, que assim se abre:

Este livro foi escrito de forma parasitária. Nutriu-se daquilo que conseguiu absorver de outros livros, lendo as leituras que esses livros fizeram de outros livros ainda mais distantes. O nome próprio na capa funciona como uma via de acesso que se ramifica em direção a outros nomes.

Ao menos um dos grupos de livros referido parece identificável (os livros assinados por Enrique Vila-Matas, tais como Bartleby e companhia), mas talvez não seja preciosismo lembrar que há dois nomes próprios na capa: o de um pretenso entrevistador e o de um pretenso entrevistado. O nome Enrique Vila-Matas talvez possa passar como aquele com que designamos um projeto literário e sua execução (o de um escritor que é, antes de mais, um leitor). Um nome que se ramifica em direção a outros nomes — ficcionais ou não ficcionais.

Mas e o nome Kelvin Falcão Klein? O entrevistador reduplicaria, em seus apócrifos, o projeto ficcional de seu mentor (o entrevistado)? O livro derivaria de uma conversa entre o jovem Klein e o escritor espanhol durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2005, além de alguns contatos posteriores. Enfim, “as eventuais lacunas foram supridas com a ajuda da própria obra de Vila-Matas: alguns pontos instigantes que mereciam ser desenvolvidos foram alimentados com citações” retiradas de seus livros. A perspectiva é clara: “no mundo da palavra, não há nada de próprio ou exclusivo, somente recorte e montagem”. Não se defende a autenticidade de uma voz autoral discernível e sem fissuras, mas um conceito de escritura dominada por cruzamentos de vozes presentes igualmente “nos livros de Vila-Matas e neste livro que fala sobre Vila-Matas”.

Surpreendente
Isto posto e descontados alguns excessos (como a citação de Valéry formulada na dependência de um texto de Silviano Santiago), o resultado é surpreendente: carneiro deglutido em leão, assimilação de alteridades em que algo resiste, impureza e violência, reflexão e deleite. O resultado obtido não aspira à categoria do autêntico, do que pode ser chancelado pela univocidade do divino. Como a história envolvendo Onetti, que encerra “Tradição e leituras”. Vila-Matas reproduz a fala contundente de um Onetti embriagado e feliz e encerra seu relato de modo curioso: “Pelo menos é isso que penso ter escutado de Onetti naquela tarde já tão distante em Barcelona”.

O trecho remete a outro, da seção “Vanguardas”, em que o entrevistado evoca um encontro com Borges, em que o argentino recordava algo que lhe fora dito por seu pai, a propósito da memória: cada vez que nos lembrássemos de algo, estaríamos lembrando a última vez que teríamos requisitado aquela imagem do passado. Segundo Borges, a recordação de uma recordação:

Depois de evocar estas palavras de seu pai, Borges se calou durante alguns segundos que me pareceram eternos, e sempre repito esse clichê quando conto essa história, porque aqueles segundos realmente os senti bastante longos, Borges se calou e depois disse que ficava triste ao pensar que talvez não tivéssemos, nenhum de nós, recordações verdadeiras de nossa juventude.

Contrafações a uma teologia do biográfico, que conhecemos tão bem. Não o valor irrefutável da declaração autoral (sobre sua vida, fonte última de toda escrita), mas o deslizamento do que se pensa ter ouvido de Onetti em uma tarde distante, das recordações postiças com que se constroem as memórias da juventude ou, ainda, de uma mancha de sangue vislumbrada em uma almofada, durante a visita realizada ao cenário do assassinato de Trotski: “Com o passar do tempo, me dei conta de que aquela mancha de sangue era real apenas para mim”.

Nestas conversas, a escrita literária deriva, antes, de um movimento incessante de leitura, como quer Julien Gracq, para quem só se escreve por que outros escreveram antes de nós. Só se escreve por que se lê. Gracq, para quem a literatura seria mais interessante que a vida. Para quem, paradoxalmente, a vida só seria atraente por abrigar a estrutura de um romance.

Um projeto necessariamente não autêntico, não sagrado, apócrifo.

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KELVIN FALCÃO KLEIN

Nasceu em 1984, em Ladário (MS). É mestre em Literatura Comparada pela UFRGS e doutorando em Teoria Literária pela UFSC, com o trabalho Vozes compartilhadas: A poética intertextual de Enrique Vila-Matas. Mora em Florianópolis (SC). Tem textos sobre literatura contemporânea publicados em jornais e revistas acadêmicas.

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Kelvin Falcão Klein
Modelo de Nuvem
120 págs.