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março 2012 / Fora de sequência / O primeiro monoteísmo da história (final)

Texto publicado na edição #104

O primeiro monoteísmo da história (final)

A única fonte (direta) que possuímos sobre a nova “teologia amarniana” são as paredes do túmulo do alto funcionário Ay, […]

> Por FERNANDO MONTEIRO

A única fonte (direta) que possuímos sobre a nova “teologia amarniana” são as paredes do túmulo do alto funcionário Ay, que nela mandou gravar o celebrado Hino de Akhenaton — apenas para agradar o rei, aparentemente.

Esse Ay era uma espécie de secretário, ou mordomo-mor, do faraó — e podemos acreditar que foi transcrita ali uma peça literária, de louvor religioso, composta pelo próprio rei (nos tempos de hoje, teríamos que investigar qual ghostwriter teria se ocupado da criação literária do governante)…

No famoso “Hino ao Disco Solar”, Aton é descrito como um princípio de bondade irradiante, o Deus único que criou a vida e que parece não se importar muito em como ela prossegue, segundo aquela falta de implicação moral característica das cosmogonias egípcias (e mesopotâmicas). Mas não se trata da mesma coisa — e seria um engano pensar que não houve aportação de novidades metafísicas na reforma de Akhenaton (conforme Cyril Aldred e outros autores sustentam — parecendo que esperavam encontrar algum Sartre no lugar de um faraó).

Há uma insistência, uma reiteração quase obsessiva, no Hino, com relação ao valor moral daquele princípio de bondade em ação natural no mundo criado por ele — que, só de vê-lo (através do “canal” do Disco Solar, quando “se levanta e se deita”), em face do milagre do aparecimento e da ausência da manifestação irradiante do deus, parece auferir ensinamentos não só da rotação misteriosa em si mesma, mas extrair, do ritmo cósmico, uma doce dependência, renovada diariamente.

O cântico de louvor é igualmente uma litania da Presença que transfigura o menor ser e o mais ínfimo acontecimento, como uma lição que diariamente aprendemos e diariamente perdemos, de qualquer modo penetrados (como no vocatus atque non vocatus Deus aderit da citação de Jung: “chamado ou não chamado, Deus está presente”) pela inclusão do nosso existir na vigência desse desenrolar de uma grande pedagogia divina. É a lição que o Cosmos nos oferece, na sua magnificência e beleza prodigalizadas pelo signo visível de Aton, o Disco que articula o princípio abstrato com o mundo mental (e fundamente supersticioso), daquele “Egito do Limo”.

Diante dele, o egípcio — e todos os homens da terra banhada pela mesma Luz, clara no seu ensinamento — teria que ser levado à piedade, à justiça, à vontade de ser bom, em completo acordo com a divindade revelada como pura misericórdia para os nativos, os povos bárbaros e até para os animais. Todos os seres e toda a natureza sofriam a anulação “exemplar” que era a ausência do Deus, a qual trazia a escuridão e o caos primordial, gelado como o frio da morte. O castigo, o “inferno” é a privação de Aton — eis o que decorre da exposição repetitiva do Hino que aporta, primeiro, um sentido de igualdade geral, atingindo todos aqueles que vêm o mesmo sol, etc. Num segundo — e imediato — momento, a idéia complementar é de que todos mergulham, também, numa “privação” de Deus (pois desaparece o Sol, a Luz que é o Seu canal irradiante) à qual se acrescenta o júbilo dos seres que são ensinados sem saber, que retiram uma ética da beleza, ou uma “estética” moral, provida de ensinamentos, na qual o belo é bom e o feio… bem, o feio também o Deus não despreza — e faz parte da natureza misteriosa do seu Ser (que opera todos os ritmos e ciclos germinativos), etc. Uma cosmogonia, sim, mas uma cosmogonia egípcia “pós-limo ancestral”: isto é, uma cosmo-fenomenologia atonita — e atônita, enquanto aqui se sugere também o caminho de surpresas aberto por um rei antigo, comportando-se como um místico moderno que ainda desconcerta o nosso tempo preparado para tudo (conforme é — ainda — nosso vão orgulho).

Regeneração
Depois da coroação, Akhenaton prosseguiu prestando homenagens que revertessem para Aton, na intrincada rede de assimilações que visava a expressar, sutilmente, os aspectos do deus, em sua nova concepção simbólica, a partir dos atributos de alguma divindade mais “tradicional”. Expressamente, homenageia Ra-Harakhty-Aton — numa assimilação de Aton ao velho deus solar de Heliópolis (onde Moisés, mais tarde, iria se “instruir em toda a sabedoria egípcia”, segundo a Bíblia), e para isso manda construir — ainda como Amenófis IV — um pequeno templo vizinho de Karnak, na própria Tebas, inscrevendo todo um compromisso no título mágico que assume perante o empreendimento ainda modesto: Ank-en-Maât, ou seja “Aquele que vive na Verdade” (e que ali irá celebrar a sua “festa de sed” precoces — pois tais festas significavam a regeneração da pessoa mágica do rei).

Há motivos para se ter quase a certeza de que mais oito templos foram construídos, cercando a capital onde “reinava” o clero de Amon, como se as pequenas edificações fossem máquinas de “guerra espiritual”, num cerco místico apertando-se contra o circo de Tebas. (Recentemente, o arqueólogo norte-americano Donald Redford conseguiu descobrir as ruínas de um desses templos levantados pelo “herético”, no seu programa de expansão do novo culto.)

Mesmo prudente, nos seus passos calculados com compasso e régua de político que faz o místico esperar por cada ato decisivo, o faraó tem pressa — acordado num “sonho” que não tinha nada de ingênuo. “Ébrio de Deus”, no dizer de Daniel Rops, mas absolutamente sóbrio na acordada visão do que deveria ser feito, Akhenaton calcula os passos e pensa nos limites do que, a cada etapa, pode ser feito, ou imposto, pelo poder que detém e divide com o velho faraó, seu pai. Como na concepção arquitetônica (na “geometria” do seu projeto de construção de “Akhetatons”, ou cidades sagradas), seguindo um plano de “internacionalização” consciente, deve-se enxergar, por sobre tudo, a vontade inabalável de um sonhador, sim, mas daqueles do tipo “perigoso” de que fala T. E. Lawrence, ao propor uma diferença sutil, em assunto que ele conhecia bem: “Todos os homens sonham, mas não do mesmo modo. Os que sonham à noite, nos mais fundos recessos de suas mentes, despertam ao amanhecer para descobrir que tudo não passava de vaidade. Mas os sonhadores do dia são homens perigosos, pois podem se empenhar por seus sonhos de olhos abertos e convertê-los em realidade”.

Gestos ousados
Bem acordado e fixado nas etapas da reforma que projeta para a religião, a arte e a ordem do Estado teocrático, Amenófis IV em nenhum momento parece distraído do seu “programa” anunciado por sutis mudanças e acréscimos como os daquele título novo. Claro como um dístico, Ank-em-Maât significa dizer aos egípcios (cultos) que o rei só irá atender, doravante, àquilo que coincide com uma verdade íntima, e prepara os dois gestos mais ousados e irreversíveis da revolução amarniana: a construção da capital em honra do “novo” deus e a substituição do nome protocolar de Amenófis, segunda negação do culto oficial então definitivamente desprestigiado, numa progressão de medidas que indica uma escalada hábil, no plano religioso, a que corresponde um plano de concretude física, no sentido de “instalar” aquela Verdade, e encarná-la com a urgência que é possível, sem causar, em Tebas, comoções muito fortes na casta desfavorecida…

O impacto maior só virá quando da mudança da capital, de Tebas para Akhetaton, a Tell el-Amarna que inicialmente descrevemos como o “lugar do nada” atual.

Amarna deslocou não só a sombra — mas o próprio centro da vida egípcia para trezentos e vinte e cinco quilômetros além da antiga Tebas, em solo virgem de ocupação humana. Essa “assepsia” pretendia significar um novo eixo de concepções religiosas que, esperava-se, pudesse avançar do Egito para alcançar muito longe, no espaço e no tempo. A cidade estava contida num “quadrado mágico” como um pássaro branco, suspenso entre o vento e o céu sem nuvens. Naquela planície arenosa (com quase 10 km de comprimento e quase 5 km de largura), protegida pelas escarpas do deserto que ainda hoje desanimam as visitas ao círculo de ruínas semi-arrasadas, Akhetaton estaria articulada com mais duas outras cidades: uma “Gem-Aton” situada na Etiópia e uma terceira cidade na Síria (em lugar que permanece ignorado).

A capital tinha estelas demarcatórias dos limites “mágicos” do círculo de colinas, além dos quais não poderia avançar em qualquer sentido; tomando-se a planície como um grande D, não poderia se expandir em quaisquer dos lados não-encostados no Nilo, na parte reta da letra do nosso alfabeto (mas, na verdade, a semelhança é maior, já se disse, com o hieróglifo para horizonte). Determinadas medidas “cósmicas”, de cálculo não menos que preciso, são expressas pelo juramento que o rei fez gravar numa estela que ainda pode ser contemplada (na reserva técnica do Museu do Cairo), ao projetar construí-la:

Eu farei Akhetaton para o Aton, meu pai,
Neste lugar;
Não a farei nem mais para o sul,
Nem mais para o norte,
Nem mais a leste
Nem mais a oeste.
Não ultrapassarei os limites,
Nem ao sul, nem ao norte,
Não construirei a oeste,
Mas a oriente, onde o sol aparece,
No espaço que cercou de montanhas perfeitas;
Se a rainha me dissesse
Que existe mais além
Um lugar mais bonito para Akhetaton,
Eu não lhe daria ouvidos.
Se os conselheiros ou qualquer outra pessoa
Dissessem o mesmo,
Eu não lhes daria ouvidos
…………………………………………………………………..
Isto é Akhetaton para Aton.
Foi ele que a quis assim,
A fim de com ela se regozijar
Para sempre e eternamente.

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