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fevereiro 2013 / Fora de sequência / O primeiro monoteísmo da história (1)

Texto publicado na edição #99

O primeiro monoteísmo da história (1)

Apenas aproximada — e sempre parcial — é a idéia que podemos formar sobre o que parece ter sido toda […]

> Por FERNANDO MONTEIRO

Apenas aproximada — e sempre parcial — é a idéia que podemos formar sobre o que parece ter sido toda uma antiga civilização. Planetas recuados em suas órbitas, as civilizações remotas nos oferecem pouco mais que ruínas, alguns cacos, vestígios de restos — enquanto ainda é possível pisar nos sítios arqueológicos não desaparecidos (como o de Elêusis, na Grécia).

Apesar do avanço do conhecimento, do aprimoramento das técnicas de investigação ou, simplesmente, do esforço imaginativo servido das melhores e mais confiáveis fontes de informação histórica, sabemos tão pouco sobre o passado longínquo quanto acerca da intimidade de um único indivíduo, através de cartas e outros documentos os quais, por confessionais que sejam, no entanto, não resgatam o eu nebuloso, não abrem o cofre da personalidade guardada num vidro de transparência falsa, de cálice de vinho já ressequido e sorvido pela areia fina. O que dizer, então, de todo um povo extinto?

Podemos, acaso, dizer quem eram e como viviam, de fato, os nossos remotos antepassados — somente porque escavamos, esforçadamente, nas ruas subterrâneas de Akrotiri, em Santorini?

A coleção de equívocos que uma só pessoa deixa na mesa da vida devia nos ensinar a dizer muito pouco sobre Thera e Tebas (e sobre taras de qualquer tipo), com base apenas nuns poucos afrescos e nuns vasos partidos. Na verdade, até um amigo morto nos coloca diante de uma “intimidade” que não era mais do que a breve faísca desse campo magnético no qual se cruzam as vidas — planetas também fadados a desaparecer — e nos perguntamos (consternados pela perda de um irmão de repente desconhecido): quem era ele?

São perguntas para as quais é sempre temerário pensar que encontramos a resposta — e cuja impossibilidade de elucidação completa e segura pode nos dar, perfeitamente, a medida máxima das dificuldades ao se tratar de chaves para “abrir” as idades remotas, os mundos antigos e sumidos numa das dobras do tempo, que igualmente apaga povos e indivíduos. No caso do Egito faraônico, temos a impossibilidade desse tipo elevada à extrema magnitude, pois a civilização das margens do Nilo foi tão longeva que a sua extraordinária duração, dir-se-ia, abre (e fecha) uma verdadeira “nebulosa” no céu da história.

Planisférica, ela nos oferece o afastado firmamento de noites e dias recuados quase cinco mil anos pontuados por costumes e acontecimentos confusos, descritos através dos véus de registros, descrições várias e documentos antigos — muitos dos quais contraditórios entre si. Dentre as grandes civilizações, a egípcia, se a assimilarmos ao mistério de todos e de cada um de nós, teria sido o velado sistema, digamos, do mais estranho indivíduo visto surgir não só de origens obscuras, mas repentinamente crescido (o que é o mais notável)… porque ela “aparece” já constituída, a partir de certo momento, naqueles traços fundamentais que irá conservar até o declínio.

Dúvidas
O Egito — “dádiva do Nilo, presente do Rio da Vida, etc.” — nasceu quase completo em si mesmo, quando veio à luz historicamente, na passagem das idades pré-dinásticas para o horizonte da crônica que se conhece daquela forma aproximada, imperfeita e cheia de lacunas lamentáveis, cujas dúvidas nos levam a desacreditar de toda “decifração” a posteriori.

Cinco mil anos não são cinco semanas. As datações admitem margens de erro, sabe-se, quanto mais se recue no tempo. E, para além dos métodos de calcular a idade das coisas, elas próprias nem sempre são o que se imagina, situadas naquela curva que deforma também o espaço. Podemos “ver”, no máximo, o Egito surgindo subitamente articulado, “acordando” no Delta (para viver a mais extensa das vidas)… mas pouco podemos saber, com alguma certeza, sobre os sonhos e os pesadelos do seu sono longo do fim. Ele está velado, por mais do que linhos e panos mortuários, para a arrogante sabedoria de historiadores que julgam conhecer o temperamento essencial da cultura, os traços definidos do seu perfil — pois durou tanto que poderia ter dado início à sua própria arqueologia! Reparemos bem no que isso significa: uma civilização que podia olhar para si mesma, a certa altura, como hoje olhamos para os gregos antigos.

Nossas “décadas”, o que seriam para um egípcio da época dos faraós? Talvez lhe parecessem menos que um intervalo entre as refeições — caso pudesse ser convidado a espreitar a pressa do Ocidente, incompreensível para um homem trazido da procissão de séculos e séculos ao longo dos quais o país se conservou sempre idêntico a si mesmo, fundamentalmente (lição de continuidade sem paralelo durante o vastíssimo suceder, hierático, das dinastias nativas e das linhagens mestiças de invasores logo aculturados).

Num únicomomento houve a quebra, a ruptura desse portento sem sustos. Num só instante, fulgurou a mudança sem aviso, no curso da corrente subterrânea que conservou aquele império como um milagre de continuísmo. Foi uma hora, um minuto — breve, muito breve — de luz diferente, mas deixou marca indelével na história do espírito. Dentro daquele planeta fechado na sua órbita, tal “desvio” se deu por volta de 1350 a.C., quando da aparição de uma das mais estranhas personagens do mundo antigo: o rei Amenófis IV, filho (e sucessor) de um notável soberano do reino expandido — e relativamente tranqüilo — do final da 18ª dinastia.

O Egito antigo é estranho? Pois eis aqui um homem ainda mais estranho do que os segredos do seu ambiente: o faraó que quis mudar o curso da civilização “imóvel”, e que se tornou mais conhecido pelo nome de Akhenaton. Sua trajetória oferece o melhor exemplo da estranheza individual como perfeita medida dos enigmas de uma cultura que durou demasiado para que possamos compreendê-la. Ambos, então, se encerram no cerne velado de dois enigmas — mas a estranheza de um não deixa de lançar alguma luz sobre a estranheza do outro.

Rei, poeta e profeta, Akhenaton foi um príncipe messiânico antes dos “Messias”. Ele tentou romper — como faraó e anunciador do Deus Único — com a férrea estrutura mágico-religiosa do Estado que se perpetuava através da rede do culto, na devoção a deuses indiscutidos do panteão servido pela casta dos sacerdotes mais poderosos (e ricos) da história. Para tentar entender esse homem — o indivíduo remoto no seio da distância — será preciso rever toda idéia feita, toda simplificação excessiva, e buscar mais fundo, sob o sol africano, a sombra debaixo dos colossos. Ao contrário dos “Ramsés”, dos faraós “cinematográficos” apropriados pelas vulgaridades de Hollywood, o faraó Akhenaton nos impõe que pensemos contra a mediocridade, em oposição da visão rasa e domesticada pelas paredes estreitas do mundo.

Sedento de Deus
Conquistador do abstrato, sua aventura — interior — foi a de um rei sedento de Deus, coexistindo com o monarca que tinha pressa de ser também reformador do “Reino-Amado-dos-Deuses”, ritualmente renovado pelas façanhas dos reis-hérois. No seio do país tradicional, Akhenaton representa outro tipo de guerreiro e — secreto dentro do segredo — a ambição, mais complexa, de alargar as fronteiras do espírito. Sua ascensão fez surgir a mais inesperada crônica da realeza antiga, até então sem desvio de curso do Estado teocrático encarnado em reis sem angústia. Rebelde surpreendente, em contramarcha contra a ascendência do culto de Amon — quase um Estado dentro do Estado egípcio —, ele foi coroado sem quaisquer contestações possíveis (era o herdeiro de um grande faraó), mas estava decidido: não iria admitir o poder paralelo dos altos sacerdotes dividindo a autoridade suprema com o rei do Egito.

A sua tentativa de ruptura, portanto, foi — ao que parece — movida por razões políticas e pela visão mística. Seja como for, ela nos coloca em face de um monoteísta antecipado a Moisés, e sua história é também a do primeiro fracasso, lamentável, de uma reforma espiritual em busca do Absoluto. Por ela, Akhenaton morreu — e poderia ter desaparecido da memória dos homens, como um doente e depravado rei indigno das duas altivas coroas que herdara de seus predecessores submissos ao clero do deus hegemônico, Amon.

Essa crônica real precisa ser revista como a do primeiro “revolucionário” de que se conhece o nome — apesar da perseguição da sua memória, da destruição da cidade que ele edificou para o Deus Único (Aton), e da supressão de suas insígnias reais de todos os monumentos construídos pelo “herético”.

O que importa em Akhenaton? Restaurar uma visão correta do reinado que tentou contrariar um poder maior do que o do Faraó? Isso e mais do que isso — pois Akhenaton importa (e muito) para o tempo profano que se tornou a medida de todas as coisas. Sua ascese é a primeira notícia da aspiração, clara e coerente, à santidade entre os homens — sem que isso o transforme num profeta mal-humorado e irascível. Ao contrário, desperta nele o alto poeta de hinos de louvor e o artista que incentiva os artífices trabalharem livremente, inspirados na observação direta das coisas (antes não permitida). Por sua orientação, surgiu um novo estilo no qual os assuntos e os temas tradicionais passam a ser tratados com realismo tocante — e em fuga total da observância da convenção hierática anterior, que estabelecia normas severas para o trabalho artístico, na rigidez da sociedade faraônica que Akhenaton quis transformar num jardim edênico, de doçura impossível.

Quem foiesse rei? Responder a essa pergunta significa tentar dar o perfil de um governante autor de hinos, cujo olhar se voltou para o interior, e não para o exterior das fronteiras ampliadas pelas conquistas. Sua memória, por tantos motivos, é o que de mais surpreendente pode ainda nos reservar a espantosa civilização do Noroeste da África — mas resta saber vê-lo para além dela, se quisermos fazer justiça a um reformador certamente não ignorado pelo profeta hebreu do monoteísmo (educado na corte egípcia de menos de meio século depois da aventura espiritual de Akhenaton).

Não esqueçamos, também, da tradição oculta que costura o acontecimento de Amarna — no elo com algum saber ainda mais antigo, o qual foi se modificando ao cruzar com outras doutrinas iniciáticas (como o dos essênios — o que nos leva a Cristo e à matriz das tradições ocultistas) com as quais perdemos contato, assim como ficamos desconhecendo, durante séculos, a existência desse governante e primeiro guia capaz de nos conduzir para “fora” da história, rumo ao futuro de coração antigo.

Pois ele é também o pai primordial dos seres inquietos. E os seres inquietos precisam dar a mão, agora mais do que nunca, às origens da Inquietude — no fundo de piscina vazia em que sufocamos, nesta hora de glória única (e mundial) do deus do consumo.

Do Cairo para Amarna
São tão pobres quanto longínquas as ruínas da cidade construída para um deus, no Egito, por um rei punido por isso. Por essa primeira aventura espiritual, pelo movimento — o primeiro — de uma alma na busca do Absoluto, o rei pagou muito caro, pois essa febre do abstrato também quis ser uma reforma ampliada do modelo da religião para a esfera do Estado e da sociedade. Não há quase nada para se “visitar” — na linguagem do turismo apressado — em Amarna.

Nada corresponde menos à expectativa das folhas douradas de sarcófagos e múmias desfazendo-se em tiras. No país de hoje, o Egito de ontem vai se tornando uma espécie de cenário de cartolina pintada, montado numa feira que não tem vínculo espiritual com o país primitivo — e que, por sobre a herança do Islã, quer ser moderno como um shopping a céu aberto entre o hotel Mena House e a fantasia de visitantes saindo do aquário gelado dos hotéis diretamente para ver as pirâmides.

á                          lllll        HaH     Do Mena milionário à rede de baratos hotéis Sakkara, os egípcios não imaginam que alguém — que não seja um arqueólogo monótono, inclinado a se empoeirar nas “velhas trilhas obstruídas” — queira partir do centro nervoso da capital para ir percorrer umas rasas ruínas sem atrativo, longe de todo o conforto pelo qual vamos nos tornando fervorosamente histéricos — e não só nos paraísos dos folhetos turísticos (onde está dito que nascemos para estar confortáveis e sermos felizes?,pergunta uma canção mais antiga do que você imagina).

No distante lugar de Amarna, o que se deu foi um acontecimento marginal da grande história local, que em nada “justifica” deixar a capital alegre, cortada por avenidas que levam a dezenas de boates — todas com nomes dinásticos. O Cairo, dizem-lhe, “é uma das maiores metrópoles do mundo, tem o melhor museu de antiguidades, etc.”, e está tão próximo das pirâmides que é só estender a mão para um táxi ou, então, buscar os funcionários da agência oficial de turismo, sorridentes e prontos a oferecer opções que vão das novas “reconstituições históricas” — simuladas com atores e cenários vivamente pintados — aos roteiros que demandam, geralmente, a margem oriental do Nilo. É o rumo do Vale onde a necrópole saqueada (por ladrões e por arqueólogos) abafa de calor na temporada alta, sob o sol queimando mesmo nas entradas escuras dos túmulos, entre duas Coca-colas e uma água mineral.

“Mas, Tell el-Amarna? Quem desejaria ir lá?!”, perguntarão os guias locais, confundidos. E pelo menos algum deles — não sem a boa intenção de reorientar os desejos do visitante — tentará dissuadi-lo da idéia de deixar a superpovoada cidade da região de Gizeh (onde acaba de ser de ser redescoberta, neste mês de junho em que escrevemos, a “pirâmide perdida” do rei Menkauhor, mencionada pela primeira vez em 1842, pelo arqueólogo alemão Karl Richard Lepsius, e depois desaparecida debaixo das areias do deserto)…

[Continua na próxima edição]

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