Ensaios e Resenhas

setembro 2019 / Ensaios e Resenhas / O poder e o abismo

Texto publicado na edição #233

O poder e o abismo

A tênue fronteira entre o poder e o arbítrio alicerçam a tragédia "Tiestes", de Sêneca

> Por CLAYTON DE SOUZA

Seneca_233

A tirania é um fenômeno que, acima de tudo, desvanece a linha entre a justiça e o arbítrio venal. Quando isso se dá, abrem-se as portas para o caos, fragilizando toda a estrutura de um governo. É impressionante como o gênero dramático se presta (talvez mais que os demais) a retratar perfeitamente as atrocidades advindas de tal fenômeno.

Vêm-nos à mente as terríveis figuras de Ricardo III e Macbeth, apenas para ficar no drama elisabetano; porém, este paga tributo às grandes tragédias greco-latinas que, de forma pioneira, investiram em brilhantes análises sobre o poder, imortalizando em cenas inesquecíveis os abismos a que a dignidade humana pode descer quando senta-se em um trono.

Tiestes, tragédia do escritor e filósofo Sêneca, em edição bilíngue, é mais um exemplar desse tema.

O mito da dinastia dos tantálidas é relativamente bem conhecido e a ele está intimamente ligado o drama em Tiestes. O mais ilustre e remoto patriarca dessa família, Tântalo, é famoso por sofrer no tártaro um suplício horrível, consequência de seu ato cruel e prepotente de querer testar a onisciência dos deuses mitológicos matando seu filho Pélope e servindo-o em banquete a estes. Por seu ato, é condenado a padecer de fome e sede inauditas nas profundezas, tendo a seu alcance árvore com frutos e um lago que, não obstante, dele se apartam quando busca se saciar.

Tântalo, contudo, no contexto da peça, é mera sombra trazida por uma das Fúrias, no limiar do drama, a fim de corromper, com sua aura danada, o ambiente e o íntimo dos personagens. Simbolicamente, temos aqui o vício que se propaga hereditariamente pelos descendentes, num ciclo de danação sempre renovado.

É na figura de seus dois netos que assentará tal herança. Atreu é famoso por sua (suposta) paternidade: Agamenon e Menelau, heróis na guerra de Troia, são seus filhos. Tiestes é seu irmão. Na peça, ele e seus três filhos encontram-se exilados, fruto de sua ambição em usurpar o trono de Atreu, além de lhe ter seduzido a esposa. A fúria selvagem do monarca é insaciável: à guisa de vingança, convida o irmão a regressar, simulando reconciliação, mas secretamente assassina os sobrinhos, renovando o crime do avô no banquete atroz que promove a Tiestes, espetáculo tão terrível que faz o próprio sol retomar sua marcha, deixando o mundo em trevas.

Transgressão
A sina dos tantálidas define-se a partir do crime inaugural do remoto patriarca (paráfrase humana do que perpetrava a tirania de Cronos/Saturno na esfera dos numes): a ele a vingança atrida paga tributo, mas as ressonâncias se estendem por gerações: encontram-se na imolação de Ifigênia pelo pai Agamenon, na violação de Pelópia pelo pai Tiestes. Essa dinastia é marcada pelo abuso familiar, tudo a partir daquela ação. É expressivo que o primeiro ato da peça se dedique à condução de Tântalo de volta ao mundo dos vivos, compelido pela Fúria, que assim vaticina as implicações dessa presença:

Avante, detestável
espectro, e atiça a fúria em teus ímpios penates.
Dispute-se no crime e, no alternar das chances,
saque-se a espada. Nem limite tenham as iras,
nem pejo. Instigue as mentes um cego furor,
dure o ódio paterno e longo desatino
perpasse as gerações

Ao se admitir que a peça seja das últimas escritas por Sêneca (que fora preceptor do imperador Nero e foi por este perseguido, tendo que recorrer ao suicídio), as imprecações da Fúria transcendem os infortúnios que assolarão até os descendentes tantálidas, ela alude a fatos históricos: a preterição de Britânico em favor de Nero pelo imperador Cláudio, o assassinato deste pela esposa Agripina e o desta e de Britânico por Nero:

O irmão aterrorize o irmão e o pai ao filho
e o filho ao pai; morte ruim os filhos tenham,
porém, pior nascença. Ameace seu marido
a esposa odienta

Como se vê (e como enfatizam os estudos analíticos dessa edição), Tiestes ganha dimensão universal por consubstanciar, em sua essência, a força corrosiva do poder e suas consequências, mesmo em meio ao seio familiar.

Atreu é esse retrato extraordinário do tirano sedento em sua vontade, tanto quanto seu avô o é no tártaro. O banimento de seu irmão, que seria uma sanção penal legítima, não o satisfaz. Sua transgressão real é dupla: de um lado, o assassinato, do outro a transferência da pena para os descendentes.

Exemplar no enfoque a essa antinomia é o diálogo do ato dois entre Atreu e seu conselheiro (símbolo dos valores éticos caros à ordem):

Conselheiro
Queira o rei vida honrosa e todos vão querê-la.

Atreu
Onde só vida honrosa cabe ao soberano
é precário o reinado.

Conselheiro
Onde não há pudor,
respeito à lei, decoro, afeto, lealdade,
tudo é instável.

Atreu
Decoro, afeto, lealdade
são bens do homem comum, reis façam o que bem queiram

A ira de Atreu o conduz então ao ato antinatural, desproporcional ao agravo — o que deve ser visto pela ótica da filosofia estoica de Sêneca. Por consequência, o caos assume dimensões cósmicas, e o gozo do rei só pode inspirar pavor ao leitor/espectador:

Atreu
Ando de par com os astros e os supero todos!
Atinge o alto dos céus a minha fronte altiva!
Obtenho agora o emblema e o trono de meu pai.
Dispenso os deuses; alcancei meus votos todos (…)
Quem me dera deter os deuses fugitivos
e trazê-los à força, todos, p’ra que vissem
a ceia da vingança (…)

Ecoa em tais versos a herança remota de Tântalo. Para além dela, e da pavorosa tragédia que se abate sobre Tiestes, a obra enfoca as arbitrariedades do poder, e como as consequências da intemperança e do vício configuram-se catastróficas quando se instalam no assento régio.

Dramaturgia e a edição
Essencialmente filósofo, Sêneca concentra-se mais na interioridade de seus personagens que na mise-en-scène propriamente dramática. Estes não apenas sentem, mas observam como o fazem. Os diálogos não apresentam dinâmica interação, pelo contrário: a auto-observação, os símiles (e outras figuras de retórica), descrições alentadas expressas em falas extensas, soando mais como solilóquios, atestam não apenas a influência do filósofo, mas também a de vertentes em voga na época, como os declamadores e rétores.

As setentias, no entanto, sobressaem em sua rica variação. É outra marca expressiva do autor:

Ter um reino é fortuito, é uma virtude dá-lo
Saber viver sem reino, este é o maior dos reinos

Não se pense, porém, que o filósofo obscureça o poeta. O trato com a linguagem, tanto nas ferramentas mobilizadas como na métrica, não dá margem para que o leitor duvide que esteja diante de um hábil artífice, mesmo que num formato dramático distante da expressão moderna.

A tradução de José Eduaro S. Lohner devota-se a, de modo aproximativo, verter toda a exuberância do original. Opta, em grande parte, pelo alexandrino, apurando o ouvido nas nuances rítmicas do coro. Seu esforço vai além: suas notas aos versos elucidam sutilezas, traçam influências, contextualizam a obra. Contudo, a fim de não quebrar a fluência da leitura, recomenda-se atentar às notas numa segunda leitura, pois são extensas e constantes.

Os estudos que se seguem à obra são minuciosos, eruditos, e enriquecem muito a experiência. Da explanação do mito, passando pelo estilo do autor, e compreendendo até um excerto traduzido por José Feliciano de Castilho, não se pode exigir mais dessa edição.

Tiestes é mais um capítulo do rico e excitante panorama da tradução greco-latina no país, e como tal se faz imprescindível.

 

 

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Tiestes
Sêneca
Trad.: José Eduardo S. Lohner
Editora UFPR
264 págs.

O AUTOR
Lúcio Aneu Sêneca
Nasceu em 4 a.C., em Roma, no declínio da grande era de Augusto. Orador de qualidade, despertou a inveja do próprio imperador Calígula, que chegou a cogitar sua morte. Dedicou-se à filosofia e à literatura, sendo também preceptor de Nero, em cuja corte exerceu atividades de ministro e conselheiro. Viveu nos reinados de Tibério, Calígula, Cláudio e Nero, sendo que durante esse tempo foi hostilizado, relegado em Córsega e, por fim, condenado à morte por Nero, seu antigo pupilo. Suicidou-se em 65 d.C.

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