Quase-diário

outubro 2014 / Quase-diário / O poder e etc.

Texto publicado na edição #174

O poder e etc.

26.09.1992 Telefona-me Ângela do Rego Monteiro (coluna Swann — O Globo) ansiosa, dizendo que um assessor de Itamar Franco disse […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

26.09.1992
Telefona-me Ângela do Rego Monteiro (coluna SwannO Globo) ansiosa, dizendo que um assessor de Itamar Franco disse que eu seria o novo Secretário de Cultura, logo que Collor cair na terça-feira.

Desconverso, dizendo que naquele dia irei para Frankfurt e Espanha. Telefona-me Mário Machado (Ibac/Funarte) dizendo que meu nome é o primeiro da lista. Fala de um abaixo-assinado para eu ser Secretário de Cultura. Insiste. Desfila vários argumentos pelos quais eu deveria aceitar.

No dia anterior, Ana Regina, Márcio Souza e Tomás de Aquino se reuniram comigo para pedir que não viajasse porque na transição eu era peça importante e poderia ser chamado para ser secretário de governo.

Desconversei manifestando horror ao cargo.

Ivan Junqueira no final da reunião da revista Poesia Sempre me diz que todo o Ibac (Instituto Brasileiro Arte e Cultura) conta que serei o novo secretário.

Xavier, chefe do gabinete do Rouanet, disse-me que se referiu aos jornalistas ao meu nome como um dos prováveis sucessores. Todo dia alguém da área artística vem me falar disto. É complicado. Complicadíssimo. Primeiro é um tipo de atividade que: a) me obrigaria a morar em Brasília; b) conversar com políticos; c) não há verba: cortaram 80% do orçamento para o ano que vem; d) não há uma boa equipe em Brasília, etc.

O paradoxal disso tudo é que na quarta-feira posso acabar nem sendo mais presidente da FBN (Fundação Biblioteca Nacional), caso Collor derrote o pedido de “impeachment”.

30.10. 1992
Fui à TV Globo (Jornal da Globo) há dias para uma entrevista sobre O amor natural, de Drummond, e me encontro com o Ferreira Gullar, também lá para isso. O programa consistia em frases curtas nossas sobre CDA/erotismo. Cassia Kiss dizendo alguns poemas eróticos, a foto de CDA atrás.

Na saída, comento com Gullar se ele não acharia simpática a sua indicação para o Ibac, já que Mário Machado demitiu-se. Ele nem sabia direito o que era o Ibac. Expliquei-lhe a importância do Instituto, quantos teatros manejava, a questão das exposições.

Ficou curioso, balançado. Estará indo para Kohn, Alemanha. Falhei-lhe de Madri, da coleção Von Thiesen e Reina Sofia. Estaria por coincidência passando por lá.

Daí a uns dias, dei um toque na Guguta, secretária do Houaiss. Ela disse que Gullar não aceitaria. Eu disse que sim. Ela fez o contato.

Hoje o Houaiss, no gabinete do MEC, veio me dizer da “sua” escolha.

Houaiss está sofrendo uma violenta e estúpida campanha da parte do Millôr e Paulo Francis. Houve até um coquetel para ele no Rio, de desagravo. O caso do Millôr é típico: Houaiss foi contra ele e a favor da Globo, numa peritagem do processo que Millôr moveu contra a TV.

21.03.1993
Insisti com Marcos Azambuja (embaixador em Buenos Aires) de se criar o Mercoletras: uma publicação que congregasse nossos escritores do Mercosul. Ele gostou. Todos os escritores argentinos com quem conversei, gostaram. Será difícil a execução, mas seria maravilhoso. Tiraríamos nossa literatura do gueto. Atualmente a Argentina tem 20% do comércio com o Brasil, o português começa a ser lecionado nas escolas, cresce o número de alunos de português na universidade de Buenos Aires e do CEB (Centro de Estudos Brasileiros) de Buenos Aires (atualmente uns 900 alunos).

No Mercoletras faríamos edições baratíssimas, 100 mil exemplares, bilíngues, contando como apoio da Melhoramentos, Varig/Ed. Antocha, do Ferdinando Souza das listas telefônicas. Chamar para isso o Julian Murguia do INL (Instituto Nacional do Livro) do Uruguai, Arturo Navarro do INL do Chile, Hector Yanover da Biblioteca Nacional da Argentina. Ver o que o Itamaraty pode fazer.

Azambuja escandalizando alguns num almoço na embaixada: “Se o Faraó tivesse construído creches, as pirâmides não existiriam e ninguém falaria dele… Ou seja, nenhuma maravilha do mundo existia através do humanitarismo”.

E ele prossegue em suas piadas (provocadamente reacionárias), das quais os convidados riem:

— Um sujeito estava hospedado perto de uma penitenciária. E a noite inteira ouvia gritos terríveis.

— O que é que acontece lá?

— É que há uma cadeira elétrica e ontem foi dia de execução.

— Mas o eletrocutado não grita.

— Sim, mas é que faltou energia e tivemos que continuar o trabalho com velas.

03.11.1993
Jantar na casa de Roberto Marinho em homenagem a David Rockfeller com a presença de umas 100 pessoas. Na mesa de Lily de Carvalho (onde me puseram), converso com Luís Fernando Levy, da Gazeta Mercantil. Tentei lhe passar a ideia de que seu jornal poderia incorporar o Brazilian Book Review da FBN.

Alguns empresários começam a admitir que Lula é um candidato aceitável. Empresários acham que Antonio Carlos Magalhães é outra opção. Este, aliás, foi gentilíssimo com a FBN: aceitou que se realizasse, às suas custas (do governo da Bahia), o encontro nacional de bibliotecas em Salvador; me telefonou dando parabéns pelo texto sobre o pelourinho que saiu num livro que fez.

Roberto Marinho me chama para conversar no jardim de sua casa e conta que aqueles flamingos foram presentes de Fidel Castro. Tem mais de 30 ali. Parecem um bando de flores ambulantes. Suas asas foram cortadas para não voarem. Diz Roberto Marinho que em Angra tem uma porção deles.

Roberto Marinho (que agora está na Academia Brasileira de Letras) me diz: “Você que é um homem de ideias, tem que me sugerir coisas, porque quero fazer algo pela Academia”. Embora não tenha o menor projeto de ser acadêmico, falo com ele sobre a urgência de informatização da instituição e que a ABL deveria se transformar num centro cultural importante.

Eu ali na Casa do Roberto Marinho perto de David Rockfeller, lembrando do meu tempo de estudante quando Nelson e Roberto, ambos, eram malditos para a esquerda.

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