Ensaios e Resenhas

abril 2013 / Ensaios e Resenhas / O peso de uma história

Texto publicado na edição #157

O peso de uma história

Busca impossível e múltiplos planos narrativos conduzem “O ruído das coisas ao cair”, de Juan Gabriel Vásquez

> Por RODRIGO CASARIN

Juan Gabriel Vásquez, autor de "O ruído das coisas ao cair"

Juan Gabriel Vásquez, autor de “O ruído das coisas ao cair”

“O primeiro dos hipopótamos, macho da cor das pérolas negras e tonelada e meia de peso, caiu morto em meados de 2009.” Triste, muito triste um hipopótamo aparecer morto já nas duas primeiras linhas de um livro. Contudo, um romance que começa com um hipopótamo já merece atenção. Falo de O ruído das coisas ao cair, do colombiano Juan Gabriel Vásquez, que ficou com o título de melhor romance de 2011 do Prêmio Alfaguara.

A notícia da morte do pobre animal dispara lembranças em Antonio Yammara. Lembranças de quando sua vida mudou. Lembranças de Ricardo Laverde. São essas memórias que Yammara sente necessidade de relatar. “Li em algum lugar que um homem deve contar a história de sua vida aos quarenta anos, e esse prazo peremptório cai-me perfeitamente bem”, anuncia antes de regressar a 1996 — e depois cada vez mais ao passado — e contar uma história que buscou, a um alto custo, reconstruir.

Yammara é um professor universitário que nas horas vagas costumava jogar sinuca em um boteco próximo à faculdade. É nesse bar que conhece Ricardo Laverde, homem que havia pouco deixara a prisão e quase nada diz sobre o seu passado. Certo dia, quando a relação começa a se estreitar, Ricardo aparece com uma fita e pede auxílio a Yammara para ouvi-la. Satisfeita a necessidade, enquanto andam na rua, um atentado mata Ricardo e fere gravemente o professor.

Curioso sobre o que Ricardo teria ouvido na fita e por que o homem sofrera a violência — que também o atingiu, deixando como seqüela uma dor crônica e um trauma a ser superado —, Yammara passa a buscar informações sobre o passado do colega. Essa busca se torna o centro da vida do personagem, que praticamente deixa Aura, sua ex-aluna e agora mulher, e Letícia, a filha do casal, de lado. Contudo, suas pesquisas parecem ser em vão. Até que encontra Maya, filha que Ricardo tivera com Elena, uma estadunidense que fora para a Colômbia a fim de prestar serviços sociais. 

Planos e focos
A maneira como Vásquez trabalha com os planos narrativos é um dos pontos altos da obra. A história de O ruído das coisas ao cair se passa em três momentos distintos: quando Yammara vê a história do hipopótamo que desencadeia as lembranças e o leva a escrever o relato; a breve história que o protagonista viveu ao lado de Ricardo e a busca pelo passado do colega; e, finalmente, a reconstrução do passado de Ricardo — de modo que a terceira parte está dentro da segunda, e ambas são englobadas pela primeira.

Além disso, outras histórias menores estão ao redor desta tríade do plano principal. A relação de Yammara com sua mulher e sua filha — que é um dos pontos problemáticos do livro, como falarei mais adiante — é uma delas. A maneira com que o narcotráfico influenciou a vida de pessoas comuns na Colômbia ao longo das décadas de 1970 a 1990, outra.

Vásquez também se mostra hábil na construção de situações com focos diferentes, como quando Yammara e Ricardo estão na Casa de poesía para ouvir a fita. Enquanto Ricardo a escuta, Yammara senta em frente a outro aparelho para ouvir o poema Nocturno, de José Asunción Silva. Então, Vásquez constrói uma cena em que os versos de Silva servem de inspiração para os pensamentos de Yammara, que estão focados em Ricardo. De acordo com cada expressão, cada reação do colega, Yammara imagina um caminho diferente para a história que acredita que Ricardo esteja ouvindo. Essa mistura do som e conteúdo da poesia com as reações de Ricardo ao ouvir a sua fita e os pensamentos do protagonista dão um oportuno toque cinematográfico ao livro.

Mais um fator a se destacar na obra está depois que Yammara encontra a filha de Ricardo e descobre que o colega assassinado, seguindo seu sonho de ganhar dinheiro como piloto de avião, fora detido por tráfico internacional de drogas. Nesse ponto não há demonização nem idealização do traficante. Do mesmo jeito que Ricardo aparece levando drogas da Colômbia para os Estados Unidos — ciente de que isso era ilegal, mas sem juízo moral sobre o ato, talvez por se passar no momento em que a política de guerra às drogas do governo Nixon começa a ser implantada —, também fazia o seu papel na comunidade, procurava dar o melhor para a sua mulher e planejava um futuro tranqüilo. Ou seja, o traficante não recebe o tratamento clássico, estigmatizado, que se dá a um bandido desse tipo. Há, sim, uma contradição e complexidade humanizadoras.

História possível
Sem dúvida, Vásquez fez um grande livro. Contudo, há alguns pequenos problemas na obra. O maior deles, provavelmente, é a falta de força de Aura e Letícia. São personagens fracos, rasos, sem carisma, que não atendem ao propósito de serem as figuras de extrema importância que Yammara deixa de lado com o intuito de buscar a história de Ricardo. Ainda sobre Aura, Vásquez dispensa alguns parágrafos para uma extensa apresentação da moça, disfarçada de diálogo, que em momento algum se justifica. As informações que nos são dadas sobre ela não criam empatia alguma e não são primordiais para que o texto funcione, para que a história se encaixe. Outro ponto (bem menos grave, diga-se) que poderia ser mais bem trabalhado é o ritmo da narrativa e o balanço entre os planos da história.

Mas problemas existem até mesmo nos grandes clássicos, então não são eles que diminuem a obra de Vásquez. Apesar de mostrar como o narcotráfico, de alguma forma, acabou por influenciar direta ou indiretamente a vida de todos os colombianos — e isso por si só já justificaria o livro —, O ruído das coisas ao cair também pode ser encarado como um livro que mostra a necessidade de se ter uma história. Para Yammara, saber do passado de Ricardo, saber quem ele era, torna-se uma necessidade que norteia (ou desnorteia) sua vida. O mesmo acontece com Maya, que de todas as formas buscou saber algo sobre o seu pai.

O que chega até eles — e até nós, por conseqüência — não é a história real (a discussão do que é uma história real fica para uma próxima oportunidade) de Ricardo, mas a história que foi possível reconstruir, a que restou em cartas, documentos e memórias. Uma história que é ao menos plausível, possível de se imaginar e contar. Todos precisamos de uma história e precisamos que as pessoas ao nosso redor — principalmente as mais próximas — também a tenham. Pode até ser uma história imprecisa, romantizada ou inventada, mas, ainda assim, precisamos de uma história que pelo menos tenha sentido. Sem uma história não somos nada.

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Juan Gabriel Vásquez

Nasceu em Bogotá, na Colômbia, em 1973. Escritor e tradutor, graduou-se em Direito e doutorou-se em literatura latino-americana pela Sorbonne. É autor de Os informantes, História secreta de Costaguana, entre outros. Seus livros foram publicados na Inglaterra, EUA, Holanda, França, Itália, Alemanha, Polônia e Israel. Atualmente, vive na Espanha.

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Juan Gabriel Vásquez
Trad.: Ivone C. Benedetti
Alfaguara
248 págs.