Ensaios e Resenhas

fevereiro 2012 / Ensaios e Resenhas / O pai efêmero

Texto publicado na edição #108

O pai efêmero

“Uma releitura brilhante da vida e de obras do Bruxo do Cosme Velho. Para realizar a homenagem e demonstrar a […]

> Por LÚCIA BETTENCOURT

“Uma releitura brilhante da vida e de obras do Bruxo do Cosme Velho. Para realizar a homenagem e demonstrar a admiração ao mestre, Gustavo Bernardo propõe uma construção narrativa inovadora para nosso tempo que, no entanto, se assemelha ao estilo machadiano de narrar. Revela-se assim seu intenso e dedicado trabalho como grande pesquisador do escritor e sua capacidade impressionante de seduzir o leitor, tal qual o próprio mestre.” Marta Alves (graduanda de Português-Literatura da UERJ e bolsista de Iniciação Científica pelo CNPq), nesta citação, revela todo seu encantamento com A filha do escritor, de Gustavo Bernardo, que parece exemplificar, com elegância, uma maneira “pós-moderna” de ensinar literatura — ou seria de criar ficção?

Como aparece ressaltado, o pesquisador e o professor estão, indiscutivelmente, presentes e ativos dentro deste romance que pretende fundir aspectos da obra de Machado com conjecturas e suspeitas sobre sua vida. Confrontando, numa estrutura elaborada, no hospício de Itaguaí — cenário que por si só já remete à novela machadiana O alienista —, uma mulher que se diz filha de Machado de Assis, e um médico que evoca o inesquecível Simão Bacamarte, fundador da Casa Verde, o romance de Gustavo Bernardo vai borrando os limites entre loucura e sanidade, entre passado e presente, entre teoria e leitura, e coloca todas as certezas em movimento, ao mesmo tempo em que as relativiza.

Se todos os comentadores de seu texto ressaltam o trabalho de apropriação de aspectos da vida de Machado de Assis, e do resgate de elementos de seus romances e contos, para com eles montar sua história; se vão ainda além, falando da maestria com que Gustavo Bernardo se equipa com as técnicas retiradas dos romances de Machado: os capítulos curtos, a coloquialidade, a interpelação ao leitor —, falar sobre esses aspectos seria, então, um mero exercício de estilo, uma nova redação para temas já explorados.

Resgate de obrasA dúvida será sempre a mesma: em se tratando de uma metaficção, é possível falar da obra em si, sem discorrer sobre as obras latentes? Como ler um texto que se refere a outros e faz questão de explicitar essas referências? No caso do romance em questão, é possível lê-lo sem conhecer a obra machadiana? Apostando que seus leitores — estimulados pelo diálogo que o médico Joaquim estabelece com textos do passado, e pela estrutura detetivesca que busca solucionar o mistério de Lívia, a bela e perturbadora mulata que aparece, sem lenço nem documento, na distante Itaguaí — vão se sentir desejosos de conhecer os romances Ressurreição e Dom Casmurro, bem como a novela O alienista, o romance de Bernardo faz mais do que um jogo entre a obra machadiana e o argumento: existe nele o desejo de resgatar a leitura de obras que, impostas como obrigação nos tempos de colégio, passam a ser conhecidas como “chatas” ou “difíceis”.

Para compensar essa dificuldade, A filha do escritor vem se oferecer, nos dias de hoje, disfarçada em mulher sedutora e misteriosa, numa roupagem mais simples, e nem por isso menos elegante, para tomar pelas mãos esses leitores recalcitrantes e atraí-los para o(s) romance(s) de sua origem. O Machado conhecido na escola será, sempre, na opinião do autor, diferente do Machado lido por curiosidade e distração. Mas, se sua tese é verdadeira, sua demonstração se invalida, uma vez que o Dr. Joaquim se dedica à leitura de Machado por razões profissionais, e não por mero gosto. O médico, procurando descobrir a verdadeira identidade da bela mulher cujo discurso, embora dentro da lógica, foge ao bom senso, julga ser sua obrigação a leitura de obras que lhe expliquem aquilo que ele percebe como sendo uma manifestação de loucura.

Narrando a partir da primeira pessoa, a versão apresentada perde sua objetividade e deixa de ser confiável quando vemos que o próprio narrador comenta sua narrativa. Com este recurso tão bem utilizado por Machado de Assis, Gustavo Bernardo faz mais que avaliar o texto, ele entretece sua trama na trama originária, nos meandros da vida do autor homenageado, e também no seu próprio comportamento enquanto narrador, nos comentários dirigidos a alguém cuja crítica ele parece temer, e que nos surpreende, ao final, por revelar-se ainda mais remotamente distante do que se esperava.

Com devoção filial, Bernardo pretende que seu personagem, talvez a própria literatura, resgate seu pai efêmero do olvido e das injustiças provocadas pelo distanciamento no tempo. A qualquer momento que se trave contato com a obra do mestre, postula-se, este comparecerá ao encontro marcado, seja num asilo de loucos ou no silêncio de uma sala propícia à leitura. Mas talvez não se faça necessário ser Mestre para ter este resgate: qualquer autor, ao ser lido, bem como seus personagens, comparecerão munidos da vitalidade que o próprio ato de ler lhes confere.

Astúcia mimética
Assim, então, mais uma teoria surge no corpo do romance. Supondo-se que o personagem de Lívia fosse uma estudante de Letras e que, fascinada por seu orientador, quisesse que este fosse seu pai, ao perceber essa impossibilidade, “torna o impossível mais impossível ainda e transforma o próprio Machado de Assis no seu pai — e em um pai que nunca conheceu, com o qual se corresponde apenas por escrito, ou seja, por meio da literatura”. Desvela-se assim a ânsia de filiar-se a uma linhagem que enobreça o escrito, não apenas por direito de astúcia mimética, como por um suposto direito que a pesquisa e a compreensão do texto possa passar ao admirador as qualidades bebidas em sua fonte literária.

Encontrar o pai, mesmo que para isso se tenha que pagar o preço da loucura, mesmo que seja necessário encerrar-se nos labirintos das leituras infindáveis, circulares, ou que se precise elaborar sofisticadas e elegantes teorias “científicas” que permitam que seres imaginários engendrem filhos reais. Daí a conferência proferida pelo Dr. Joaquim: “A lei da reciprocidade genética no campo das confabulações de pacientes acometidos por variantes da esquizofrenia ficcional”. Se os “personagens dos escritores e dos poetas são seus filhos imaginários, paridos entre padecimentos inimagináveis”, se pessoas reais podem assumir a paternidade de seres ficcionais, nada mais lógico, graças à lei postulada pelo narrador do romance de Gustavo Bernardo, que personagens reais possam ter pais imaginários. Legitimando sua situação perante o alvo de sua admiração, o autor, porém, recua e, impiedosamente, termina o romance de forma inesperada, rasgando a crisálida bem urdida de onde a mariposa da ficção se originou.

Abandonando Pedro ao seu desespero no confronto com a realidade, deixando Lívia catatônica, numa espécie de encantamento às avessas, quando o beijo, ao invés de libertar do sono ou da realidade indigna, precipita tudo para a destruição, o romance termina sem piedade para com quem o escreveu. Compreendemos, então, a epígrafe, que, no jogo de espelhos que esta obra criou é retirada do próprio delírio de um de seus personagens, o Poeta: loucura/ loucura/ como fosse assim/ uma prosa indireta.

Na prosa indireta, referidora, acompanhamos as inumeráveis referências a autores e personagens da literatura. Além de Machado, encontram-se presentes Lima Barreto, Fernando Pessoa, Cervantes, até o profeta Gentileza, um desfile amplo e colorido, esvoaçando sobre a história. E lamentamos que, consumidas pela chama (da paixão?) esses personagens nos digam adeus e revoem, nas asas da gigantesca falena, perdendo-se na escuridão.

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GUSTAVO BERNARDO

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Nasceu no Rio de Janeiro, em 1955. É doutor em Literatura Comparada e trabalha como professor de Teoria da Literatura no Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Autor de Redação inquieta, Educação pelo argumento, A dúvida de Flusser e Lúcia, entre outros.

Gustavo Bernardo_livro

Gustavo Bernardo
Agir
152 págs.