Tudo é narrativa

abril 2019 / Tudo é narrativa / O outro que me habita

Texto publicado na edição #228

O outro que me habita

Siri Hustvedt joga com dúvidas acerca da unidade que constituiria um indivíduo

> Por Tércia Montenegro

Siri Hustvedt

Siri Hustvedt, autora de A mulher trêmula ou Uma história dos meus nervos

Siri Hustvedt escreveu seis romances, mas o primeiro título dela que me chegou às mãos foi um tipo de autobiografia: A mulher trêmula ou Uma história dos meus nervos. O livro parte de uma experiência pessoal: depois do falecimento de seu pai, a autora começou a sofrer de fortes tremores durante falas públicas, uma situação que não lhe afetava a voz ou a inteligência, mas certamente produzia embaraço. Em pesquisa sobre a sua condição, e ao mesmo tempo em que estudava temas médicos para compor a personagem de um romance, Siri Hustvedt foi coletando reflexões sobre psicanálise e psiquiatria — e os momentos mais interessantes jogam com dúvidas acerca da unidade que constituiria um indivíduo.

“O que realmente sei a meu respeito? (…) O que vem a ser o corpo? E a mente? Cada um de nós é um ser singular ou plural?” Muitas destas indagações, que eu já havia percorrido antes, em leituras de Merleau-Ponty, por exemplo, levaram-me agora a um lugar mais longínquo. Penso se o descontrole físico, ou o desconhecimento de si, pode ser visto como um tipo de ficção, na medida em que indica o alheio, o inesperado — e creio que Siri Hustvedt acompanha este raciocínio, pois poucas páginas adiante explora a escrita automática e a sensação que tantos escritores têm, de que as palavras que produzem lhes são estranhas em certa medida; não nascem (pelo menos não exclusivamente) deles mesmos:

Quando estou escrevendo bem, com frequência perco todo o senso de composição: as sentenças surgem como se eu não as tivesse escolhido, como se outro ser as manufaturasse. Não é minha maneira costumeira de escrever, que inclui polimento, períodos dolorosos de iniciativas e interrupções. Mas a sensação de ser conduzida acontece diversas vezes durante a criação de um livro, em geral nos momentos finais. Não escrevo; sou escrita.

Estas considerações, óbvio, levam em conta que há diversos graus de consciência, que o interno é formado pelo externo, o sujeito moldado pelo coletivo. Mas elas apontam, sobretudo, para um dinamismo desses atravessamentos. A experiência subjetiva inclui o mundo dentro do sujeito: “visões, sons, cheiros, sensações, emoções, outras pessoas, pensamento e linguagem. Eles estão em nós”.

O que autora entende como o “problema mente-corpo” — e que ela explora não só nestas memórias, mas também em outros títulos — abre um vasto campo. O que a ciência quer dizer exatamente quando distingue o psicológico do fisiológico? Há uma lacuna neste ponto, e é preciso admitir que qualquer ser humano existe numa zona de ambiguidades. A divisão mente-cérebro criou a distinção entre psiquiatria e neurologia, o que reforçou o dualismo orgânico-não orgânico. Estamos acostumados a separar os elementos materiais e imateriais, que constituem um ser.

O livro de Hustvedt virou uma referência no âmbito das reflexões neurológicas. É interessante observar como o seu trânsito flexível entre literatura e ciência abre fronteiras para o pensamento. Como ela diz numa entrevista, “interpretar dados é também uma tarefa da filosofia e das artes”. É inevitável o paralelo com Oliver Sacks, que igualmente narrou casos clínicos como se fossem contos, sob o ponto de observação privilegiado do neuropatologista que ele foi. Siri Hustvedt está bastante interessada nas histórias dos pacientes — mas não somente por uma simples investigação etiológica. Há momentos em que a ideia de unidade a assombra por um lado diferente: “A narrativa não fazia parte da doença? As duas coisas podem ser separadas?”. Concordemos ou não com este ponto, sabemos que o contexto nunca merece desprezo: “Existe uma fenomenologia do estar doente, e ela depende de fatores como temperamento, história pessoal e cultura na qual se vive”.

De qualquer maneira, quando alguém entende os benefícios de trabalhar consigo mesmo — apesar de toda a multiplicidade que isso subentende —, acontece um ganho. Fica-se numa posição de “poder colocar a próxima pergunta de um modo sofisticado”. É o que a curiosidade obtém: não a chegada a um fim propriamente dito, mas a chance de crescer cada vez mais no nível da compreensão, que dispara novas perguntas. Para começar nesse caminho, basta se perceber.

Impulsos bizarros que nos habitam, reações inesperadas, estranhezas… O corpo, ao fugir do controle (racional ou social), foi tantas vezes apontado como vítima de possessões espirituais. Mas considere que aí está uma atuação do inconsciente — das Es (o isso), conforme o termo inicial que Freud escolheu, a partir de Georg Groddeck, que escrevera: “o homem é animado pelo Desconhecido, que se encontra dentro dele como ‘Es’, um ‘It’, uma força impressionante que dirige tanto o que ele faz como o que acontece a ele” —, ou considere, de maneira saudosista, que há demônios e anjos a se revezarem em mim, sempre tratarei de um íntimo potencial, uma ação secreta. O Eu é um Deus na medida desta complexidade; e o encontro entre dois seres — como este, de mim para você, leitor(a) — envolve um mistério que reverencia o alheio.

Como diz Siri Hustvedt, “há momentos em que olho para uma coisa com tanta intensidade que desapareço”.

Namaste.

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