Sob a pele das palavras

outubro 2019 / Sob a pele das palavras / O outro homem da mulher que amo, de Miguel Marvilla

Texto publicado na edição #234

O outro homem da mulher que amo, de Miguel Marvilla

Polêmico e provocador, o poema se articula em torno de temas clássicos ligados ao corpo

> Por WILBERTH SALGUEIRO

O outro homem da mulher que amo,
há nele as minhas marcas que são dela
e sempre encontro indícios dele quando
ela se despe e se abre e posso tê-la.
No corpo dela, o gotejar frequente
de nós, formando sulcos, vias, trilhas,
dentro da noite em que ela se oferece,
não deixa que nos sobre alternativa:
eu sigo os mapas dele, acrescentando
ao já sabido as minhas descobertas,
e ele me segue na mulher que amamos.
Pois tanta variante há no caminho
que — ou dois ou nada — um de nós apenas
não vai sobreviver nela sozinho.

Miguel Marvilla faria 60 anos em 29 de setembro de 2019, se não tivesse falecido em 10 de outubro de 2009 — há dez anos, portanto. Nascido em Marataízes, no Espírito Santo, foi contista, editor, antologista criterioso, um militante da cultura e da literatura, mas, sobretudo, poeta; e, poeta, sobretudo, sonetista, um exímio sonetista. Sua obra de rara excelência é mais um exemplo do imenso desconhecimento que temos acerca da literatura que se faz fora do circuito carioca e paulista. Mesmo entre nós, capixabas, seus livros ainda não encontraram a ressonância merecida (Suely Bispo, poetatriz, tem feito um incansável trabalho de divulgação). Coube ao mineiro Marcus Freitas, professor da UFMG e não por coincidência também um sonetista exímio, escrever o melhor estudo sobre o conversador, piadista, sensibilíssimo verse-maker, Labirinto de paixões depuradas: a poética de Miguel Marvilla, publicado no volume 4 da valiosa coleção Bravos companheiros e fantasmas: estudos críticos sobre o autor capixaba. No ensaio, Marcus diz que considera “Tanto amar o melhor livro do Miguel. Todos os poemas são excelentes. Há ali uma mistura entre a solenidade da forma e uma linguagem quotidiana que renova por completo o formato, trazendo-a ao que chamei de simplicidade elegante”.

O indisfarçável soneto acima com seus 14 versos agrupados e sua simplicidade elegante saiu justamente em Tanto amar, de 1991. Sobre ele, comentei em minha tese de doutorado (1996), Forças & formas: aspectos da poesia brasileira contemporânea (dos anos 70 aos 90): “Ménage à trois refeito dois a dois, ‘O outro homem da mulher que amo’ traça o trajeto da impossibilidade da posse e a supremacia do instante e da relatividade. Amor é ininterrupto usucapião. As palavras do poeta percorrem mapas simultâneos: a geografia do corpo feminino (a mulher que amo), as marcas aí trocadas pelo corpo do ‘outro homem’ (indícios dele), as próprias marcas (as minhas descobertas). Mais que os corpos, são as almas espírito e inspiração que se amalgamam. Selva-soneto, as rimas toantes com seu grau de imprevisibilidade corroboram o caráter de busca (invenção de ‘sulcos, vias, trilhas’) que qualquer construção decassilábica sutil demanda: amo/ quando, frequente/ oferece, descobertas/ apenas. A epígrafe do soneto, de autoria feminina, de Mária Santos Neves, prenuncia a história poemática: ‘Eu você ele somos um’ sem pontuação ou conectivos: almas gamadas; sonoros, somados, a sós, somos muitos em um”.

O comentário sucinto não evidencia aspectos fundamentais da construção lírica, decerto porque por ela seduzido, feito um quarto corpo. A propósito, se o bloco (corpo) único do soneto não explicita visualmente as divisões estróficas, o soneto no entanto se dá a ver com facilidade na junção entre sintaxe e semântica: das quatro subsumidas estrofes (4/4/3/3), três se iniciam por maiúsculas e uma (nono verso) dá seguimento ao sinal de dois pontos, que exige pausa maior. Assim, a ausência de estrofes apenas encena o que o poema realiza: corpos (eu, ela, ele; narrador, mulher, outro) que se misturam, se tocam, se perseguem, se sentem, mas que preservam as diferenças.

Polêmico e provocador, o poema se articula em torno de temas clássicos ligados ao corpo, porém lidos de maneira transversa ao entendimento do senso comum: ciúme, posse, adultério, traição, amor, fidelidade, erotismo, sexo, gênero. Afinal, a história que se conta é a de uma aceitação de uma relação a três (“há nele as minhas marcas que são dela”), em que todos sabem uns dos outros? Ou se trata de uma relação homoafetiva, em que a mulher seria o mero meio (o “caminho”) para que os corpos masculinos (“eu sigo os mapas dele”) se encontrem? Ou se trata de uma perspectiva machista, em que a mulher funcionaria como objeto de desejo e usufruto (“ela se despe e se abre e posso tê-la”) dos amantes? Ou o ato solitário do fazer o poema metaforizaria a solidão de toda cena amorosa e, assim, o poeta seria aquele que, ao fim, “sobrevive nela sozinho”?

Na cultura hegemonicamente monogâmica em que vivemos, o poema surpreende porque naturaliza, no limite, a comunhão de prazer entre corpos que se querem, comunhão que se alimenta de atritos e conflitos mas também respeito e mesmo admiração pelo desejo e pela autonomia do outro. A reação tradicional quando a cena do ciúme e da posse se estabelece na vida real é feia, mesquinha, violenta, homicida. Diariamente, no mundo todo, pessoas se matam porque se acham proprietárias de um corpo que não lhes pertence (estatisticamente, os homens são as pessoas que matam; as mulheres são mortas). Em termos mais poéticos, a cena do ciúme tem em Fragmentos de um discurso amoroso, de Barthes, uma decifração à altura: “Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo em sê-lo, porque temo que meu ciúme magoe o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade. Sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum”. O poema, todavia, vai na contramão desse ciumento de Fragmentos… talvez porque não seja o ciúme o protagonista da cena. Se há esse protagonista, a pista deve estar à vista: no título.

A expressão “O outro homem da mulher que amo”, lida sem elisão de sílaba, é um decassílabo sáfico (feito os versos de 7 a 10), e esta escansão parece simular aquilo que o poeta deseja quando repete o título como o primeiro de tantos decassílabos, em que, entretanto, é exigida a elisão para o desenho do metro do verso heroico (versos 1 a 6, e 11 a 14). Este primeiro verso é o único que pede a dispensa das elisões para que se dê o decassílabo (caso contrário, poderia ser escandido até como um setissílabo: “O ou/ tro ho/ mem/ da/ mu/ lher/ que a/ [mo]”), e a consequência disso é que devemos enfatizar cada sílaba e por extensão destacar a pronúncia de cada palavra: o// ou/ tro// ho/ mem// da// mu/ lher// que// a[mo]. O efeito sonoro dessa leitura pausada corresponde, assim, ao impacto da ideia que tal expressão carrega: de cara, o poeta diz que a mulher que ele ama tem um outro homem. Os leitores sempre voyeurs da intimidade alheia se espantam mas desejam saber mais sobre a revelação, e são fisgados para dentro da alcova-soneto junto com os três amantes. Insisto que a leitura pausada de cada uma das sete palavras que compõem o verso de abertura pertence às manhas isomórficas de Marvilla, que induz o leitor a lidar de imediato com a provocadora afirmação.

Em tempos de retrocesso e violência, em que casos de feminicídio e homofobia se multiplicam no país, estimulados pelo “macho adulto branco” que se acha no comando, poemas como este O outro homem da mulher que amo testam os limites de nossa compreensão, tolerância, grandeza de nossa mais funda humanidade. Ninguém é dono do corpo de ninguém, parece dizer o poema para todos que esquecemos, ou, hipócritas e possessivos, fingimos esquecer isso, mormente quando queremos controlar sem sermos controlados. A musa no poema de Marvilla não é mais aquela artificial de matiz romântico: espelho, duplo, face que completa o amado, o príncipe, o herói. A mulher aqui tem “tanta variante” que faz com que o poeta (o homem, o amante) se transforme, se reinvente, saiba lidar com o “outro homem” mesmo porque ambos (“ou dois ou nada”) só existem se juntos. Em síntese, o poema parece vislumbrar, por meio de uma relação entre três corpos que se frequentam, o raríssimo equilíbrio entre amor e liberdade. Equilíbrio que o soneto, com seu metro regular amparado em rimas toantes e sintaxe linear, audaciosamente pretende.

Miguel Marvilla sabia medir as paixões, mesmo radicais, como esta que transita entre “a mulher que amo” e “a mulher que amamos”. Uma “paixão depurada” em versos de alto quilate: “Não posso prescindir da janela/ é meu ofício pretender a Lua”. Lua que amava, lua que amamos.

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