Entrevistas

outubro 2018 / Entrevistas / O outro é como eu

Texto publicado na edição #222

O outro é como eu

Presidente da Fundação José Saramago, Pilar Del Río afirma a importância de se pensar no próximo a fim de uma sociedade mais democrática

> Por Andressa Barichello

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Jornalista, escritora e tradutora, Pilar Del Río preside hoje a Fundação José Saramago. Frente a essa instituição cultural que trabalha em prol dos direitos humanos, Pilar tem como objetivo “continuar a obra que José Saramago colocou em movimento junto a outras pessoas para as quais também não bastava o próprio umbigo”.
Entre outros assuntos, em tom de fraternidade e desafio, a espanhola radicada em Portugal falou ao Rascunho sobre a importância de conscientizar os cidadãos sobre seus direitos, o papel da esquerda no Brasil e a responsabilidade cívica como valor indeclinável, tendo em vista que somos “os únicos seres vivos que podem se organizar a partir da razão e da consciência”.
Refletindo sobre o hoje e o futuro próximo, Pilar deixa-nos a pista de que a literatura e o diálogo com os grandes podem trazer alguma luz — e nos libertar do limbo que impede alcançar o outro lado, o outro.

• Entre 2017 e o primeiro semestre de 2018 houve pelo menos duas viagens suas ao Brasil. Uma para a Flip e a mais recente para a exposição Saramago — os pontos e a vista, em São Paulo. O que, de mais marcante, vem à sua memória quando pensa sobre o que ficou dessas ocasiões?
Claro que viajei ao Brasil, mas de certo modo a experiência foi a de viajar ao interior de José Saramago. Em Paraty houve um aprofundamento sobre a relação entre dois grandes, Jorge Amado e José Saramago. Duas vidas distintas que acabaram se encontrando por razões literárias e de coerência política. De alguma maneira se pode dizer que, em Paraty, a relação entre os dois escritores, com suas obras tão distintas e tão valiosas, se consolidou pela entrada de novos leitores nesse universo. A outra viagem ao Brasil acabou levando-me ao encontro, e de que maneira!, ao modo de enxergar de José Saramago que não esteve cego nem nunca quis deixar de ver o espetáculo do mundo, com todas as suas dores e possibilidades. Agora, ao final desse ano, essa exposição [Saramago — os pontos e a vista] estará em Belém do Pará e será outro encontro de José Saramago com o Brasil e outro diálogo do autor com um país com leitores que o entendem e que dele necessitam. José Saramago escreveu em O homem duplicado que “o caos é uma ordem por decifrar”. O Brasil é, lamentavelmente, um caos que reivindica ideias e cidadãos para afinar-se à razão democrática e seus valores.

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José Saramago escreveu em O homem duplicado que “o caos é uma ordem por decifrar”. O Brasil é, lamentavelmente, um caos que reivindica ideias e cidadãos para afinar-se à razão democrática e seus valores.

• O Brasil está à flor da pele. E tão à flor da pele que profundas discordâncias têm havido mesmo entre aqueles que compartilham leituras sobre o cenário político atual. Temas como o racismo institucional, reconhecimento de privilégios e o feminismo costumam estar no centro das polêmicas que envolvem — e, por vezes, dividem — a esquerda. A expressão “lugar de fala” se tornou termo frequente para tratar dos espaços que devem ser respeitados na arena pública e despertou debates a respeito da legitimidade. De que forma a responsabilidade e os limites éticos podem se fazer presentes para atuar no consenso?
A responsabilidade cívica como valor indeclinável e moral deveria estar nos manuais escolares. Não somos sozinhos, somos comunidade. Construímos cidades com milhares ou milhões de pessoas e depois nos trancamos em casas como se elas fossem fortalezas. Queremos viver uns entre os outros mas não assumimos que temos obrigações com os outros, que todos e cada um de nós somos os outros de outros… Creio que avançaremos quando aprendermos que existe uma Declaração de Direitos ao lado de uma Declaração de Deveres. E quando entendermos que os direitos e deveres são um privilégio que os seres humanos têm, os únicos seres vivos que podem se organizar a partir da razão e da consciência. Que grande privilégio, não é verdade?

• Numa democracia, para levar a efeito a garantia dos direitos, especialmente o das minorias, é preciso ganhar as eleições. Diante do abalo democrático vivenciado pelo Brasil é preciso que a esquerda arrefeça a militância por reconhecimento simbólico e, de momento, concentre esforços na elaboração de um programa político que convença o eleitorado? Ou é possível/preciso fazer as duas coisas ao mesmo tempo?
Não sou especialista em política brasileira, mas creio que quando a esquerda governou favoreceu as massas e seguramente prejudicou elites econômicas. E as elites econômicas impuseram seu discurso desqualificador, usando a comunicação social [mídia] — quando não outros meios coercitivos — de tal maneira que essas elites acabaram sendo as donas de um único relato — única história — possível. Inclusive pessoas que foram favorecidas por políticas sociais de habitação e educação saíram às ruas contra os governos que impulsionaram tais mudanças. Agora essas pessoas estão desconcertadas. Há eleitores que “sentem” que não podem votar nos partidos da direita acercados à ideia de “patrões”, mas tampouco confiam na esquerda da qual se criou uma imagem terrível de corrupta e corruptora, como se a corrupção como conceito tivesse nascido com ela. A esquerda no Brasil não é dona de seu relato, sua história. Foi dona de uma forma de governar, e essa forma — com acertos e erros — foi deposta, condenada e até aprisionada. No Brasil, agora, não se pode pensar diferente, salvo se quiser ser considerado uma anedota. O poder real não o permite. E o poder real, ou seus intermediários, mandam. E como mandam!

• Quais projetos têm mais motivado a sua atuação, e de que forma você os relaciona com a concretização de uma sociedade menos desigual e, portanto, mais democrática?
O relato. Não basta atuar, é preciso constituir uma narrativa e meios para que essa narrativa mais cedo ou mais tarde chegue às pessoas. Não basta ter [projetos como] “Minha casa, minha vida”; talvez devamos contar que esse direito não existia antes: até que pudesse existir como direito, foi uma consequência ou uma caridade. O mesmo acontece com o direito à educação, à saúde, ao transporte público. Não basta que uma pessoa um dia se depare com uma estação de metrô no seu bairro, essa pessoa tem de saber que o metrô é seu e foi feito porque ela, essa pessoa, existe, paga e precisa se locomover — a sua necessidade gerou o direito ao transporte público. A esquerda em geral, e no Brasil em particular, descuidou-se absolutamente do registro histórico daquilo que fez. Registro esse que não é propaganda, é respeito pelo outro. Como repetia José Saramago: “O outro é como eu e tem direito a dizer eu”.

• Sua agenda é repleta de eventos e compromissos relacionados ao legado de José Saramago. Mas, aquém e além do que diga respeito à sua condição de presidenta da Fundação José Saramago e à sua atuação profissional, o que tem mobilizado o desejo e a caminhada de Pilar Del Río leitora, cidadã e mulher?
Desculpe, não vou responder, porque o trabalho que faço na Fundação é simplesmente o de continuar a obra que José Saramago colocou em movimento junto a outras pessoas para as quais também não bastava o próprio umbigo. Vejamos: um escritor é, por definição, uma pessoa que compartilha. José Saramago levou ao limite sua necessidade de compartilhar; sua obra é uma proposta infindável de diálogo com os leitores. E, além disso, o cidadão que José Saramago foi também compartilhava sua forma atuante de estar no mundo, atuante e insolente, se necessário. Dessa lucidez nasceu a Fundação que quisemos levasse o seu nome e é isso o que essa instituição faz diariamente em Lisboa ou no mundo, uma vez que vivemos em uma sociedade global para o mal e também para o bem — e, na Fundação, o sabemos e tratamos de agir.

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