Ensaios e Resenhas

dezembro 2018 / Ensaios e Resenhas / O olhar reinventado

Texto publicado na edição #224

O olhar reinventado

Com linguagem sofisticada, poemas de Alberto da Cunha Melo reproduzem a realidade por meio de imagens e símbolos

> Por PERON RIOS

Alberto da Cunha Melo, autor de Poesia completa

Alberto da Cunha Melo, autor de Poesia completa

Alberto da Cunha Melo, na melhor tradição caeiriana, pensa com os olhos. A reunião de sua Poesia completa, realizada por Cláudia Cordeiro da Cunha Melo, revela-nos isso com a devida ênfase. A coletânea, que apresenta material iconográfico a dialogar de perto com os poemas — fotografias de João Castelo Branco e Assis Lima —, traz os textos separados em quatro seções: Obra publicada, Obra inédita, Obra consolidada e O último garimpo. Somam-se ao volume duas breves biografias — do autor e da organizadora —, uma sintética apresentação da obra, feita por Cláudia Melo, além da fortuna crítica dedicada ao poeta.

A intensidade da experiência escritural baseada nesse olhar penetrante logo se verifica em duas imagens memoráveis, localizadas em Blindagem: “Quem me ilumina é a perigosa/ luz dos relâmpagos, e a voz/ de meu poema tem um tempo/ só: a duração do meu susto”. A primeira imagem é deliberadamente para os olhos, com a força do clarão; a segunda utiliza o caminho das retinas para dar ideia do vigor vocal: melopeia do espanto. Pelo deslocamento da visão sedimentada, a obra, quase como um leitmotiv, ilumina as vozes apagadas e joga atenção para o jogo de forças dos quais sempre sobram, inevitavelmente, os humilhados e ofendidos. O estilo fanopaico em Alberto da Cunha Melo é de tal modo presente que, mesmo em peças de notório teor narrativo, como o clássico Yacala, impõe-se a metáfora clara ou a visualidade das comparações inesperadas (tal poema litúrgico, aliás, mereceria um estudo à parte: com um personagem peregrino e demiúrgico, o texto representa a síntese difícil entre o carnal e o etéreo).

Pensar com os olhos
As narrativas versificadas de Alberto, como Expedição Kon-Tiki, guardam tom e tônus, e a plasticidade cromática das cenas sem dúvida favoreceria uma transposição dos poemas para uma eventual versão cinematográfica. E esses poemas longos buscam, seccionados em células menores, lançar um olhar hermenêutico sobre eventos incontornáveis da história brasileira, como Canudos (cf. Canto-chão).

Propondo um alargamento sensível e intelectual da realidade, Alberto altera o ângulo pelo qual se capturam os objetos, experimentando formas como o raro octossílabo — branco ou rimado —, a espacialidade concretista, a antiga renka japonesa e inaugurando a forma fixa “retranca”. Essa refiguração acontece de modo tão sutil que o poeta gera hipérboles sem recorrer a exclamações ou inflações verbais. Se não, leiamos o efeito condensado no terceto de Igreja do Monte: “Igreja do Monte:/ Construída tão no alto/ Que o Céu fica defronte”. Seguindo a trilha da visualidade, Alberto desenvolve uma atividade permanente de retextualização, traduzindo em linguagem verbal o que parecia feito apenas para os olhos, pictoricamente. Acolhendo a pesada solidão dos que cultivam a palavra literária, afirma-nos o eu-lírico, em A imagem do barco: “nenhum poeta já o quer/ porque poetas já não há/ por estas águas e estas gentes/ magras e subacorrentadas.// Ele se move e se navega/ ainda completo sobre as ondas,/ a oferecer o grande casco/ ainda só pesado de sós”. Como não lembraríamos, aqui, o Walmir Ayala do Caderno de pintura?

Esse olhar requalificado intervém para desestabilizar os terrenos semânticos firmes e consolidados, causando sismos de compreensão. A poesia, então, cumpre o papel de, fazendo revoltas as camadas coalhadas de sentido, manter fluido o que pretende grudar em placas de ideologia. Em Confluências, o fenômeno ocorre na microfísica das paixões eróticas: o senso comum dos amantes entende elogioso para a amada a exclusão ofensiva de todas as restantes. O texto, então, inverte a lógica e sugere um amor maior não por subtração, mas por acúmulo das mulheres que habitaram o sonho ou que estão na memória do eu-lírico siderado: “eu te amo amando/ as duzentas Marias,/ as trezentas Terezas,/ as quatrocentas Luzias/ que moram em ti”.

Às vezes, com um tom levemente irônico e lúdico, como se detecta em Coletivo suburbano, o autor empresta à trivialidade aparente um significado religioso. Em outros momentos, ao denunciar o deboche e a desfaçatez das elites econômicas, é a metonímia de uma classe dominante sem valores de empatia ou de partilha (como a voz do diretor em Um diretor falando consigo mesmo) que expõe, também em clave irônica, a arrogância egocêntrica dos que namoram o poder.

Refiguração artística
Os protagonistas da miséria são sempre cantados na arte incisiva e melancólica de Alberto da Cunha Melo: os doentes agonizantes das enfermarias, os passageiros de ônibus esquecidos, os serventes, os aposentados, os condenados de toda ordem. Nas relações desiguais, em que a barbárie pode se nutrir, o imoral e o algoz não assumem jamais sua identidade real. Muito pelo contrário, facilmente ganham um verniz angelical e tudo logo se mistura. É o que o poeta torna público: “Não vai ser fácil/ encontrar um joio/ com nome de joio/ para queimar” (Dilema dos moralistas oficiais). Em outro belo poema, intitulado Zona da mata, notamos uma escrita síntese da economia canavieira: doçura que, em vez de alimentar a infância, a elimina. No texto, não apenas a criança é literalmente exterminada em seus devaneios mais doces, como também o polímero do sonho, que todo infante fabrica, é igualmente dissolvido. Em balas: ambiguidade cruel, encruzilhada entre o sabor e o sabre.

Tudo isso se perfaz em refiguração artística, num labor imagético e simbólico, pelo qual se esquiva o poeta de verter o caldo grosso de sua palavra no fio de água rala dos panfletos loquazes e estreitos. Não por acaso, um dos temas nucleares da obra de Alberto é justamente a peleja drummondiana pelo verbo potente, que enuncie o necessário com alguma precisão. Período de testes pode ser, disso, uma confirmação: “Derrubei desastro a caixa/ de números: um calendário/ que havia sobre a escrivaninha,/ e o tempo se espalhou no chão.// […] Diante de mim, o diretor,/ duro e parado como um templo,/ não disse a mínima palavra:/ eu já estava liquidado”. A aniquilação pela hierarquia está denunciada, mas não sem a metonímia encantatória do tempo vertido ou sem uma comparação que sacralize o sofredor. É recorrência, na obra de nosso escritor, uma violência figurada; Metralhadora Thompson ou morte ‘T’ mostra que os tiros bem podem ser ouvidos nas sílabas do cantar das armas que intitulam o texto. Uma vez mais, a ironia pungente assoma no dístico final: a cantiga, no lugar de alargar o homem, o subtrai.

Sofisticação linguística
A sofisticação linguística, na poesia de Alberto, é o que oferece potência à fala interventora, socialmente participante. A dor extrema que envolve todo aquele que a sofre, num hospital, materializa-se, em Pavilhão das enfermarias, por meio da hipérbole singular da lágrima-invólucro, que devia ser apenas uma metonímia do sofrimento. Num poema como Tradição, o eu-lírico revela aos oprimidos o quanto de força represada eles guardam e o nível de debilidade — camuflada pela abstrata inércia da tradição — daqueles que ordenam: “E somos governados todos/ por um ex-dono de fazenda,/ que está um pouco amolecido,/ mas ainda sabe dar gritos”. A marginalidade cotidiana é sempre destacada em versos que, embora muitas vezes de circunstância, não perderam o gume lacerante da linguagem, frequentemente da ironia.

Ora, se é verdade — como cremos — que as equalizações sociais começam no reajuste da sensibilidade, Alberto da Cunha Melo entabula em sua obra literária o ofício desse apuro e, num tom menor dilacerante, flagra a pungente incongruência das injustiças. Não é outra coisa que podemos notar, quando lemos a respeito de um menino ladrão de jambos, no poema Rua Azul, Jaboatão, PE: “Com sua morte alguma fruta/ amadurece sossegada,/ mas quem a colherá talvez/ não a deseje tanto, tanto”. A criança, de vida transbordante, que na pressa de viver colhia a beleza ainda em botão, agora não passa de memória, tornada perene pelo mármore da poesia.

Nesse processo de tudo ressignificar, Alberto da Cunha Melo suspende a ideia disseminada de que a vida é uma competição, substituindo-a por diversa perspectiva, segundo a qual a existência precisa receber um olhar estético — de gratidão e contemplação solidária. Para Alberto, vencer conforme o padrão que incorporamos em nosso jogo social nada mais é do que tomar distância de nossa essência, afinal “quanto mais somos menos somos/ na orquestra sombria da terra:/ subir só nos dá a vantagem/de morrer um pouco mais longe”.

A presente Poesia completa não poderia ser mais necessária nesse tempo nosso, de ilusórias estaturas, segregações de classe, suspensão da empatia. O escritor pernambucano segue, muitas vezes, no contrafluxo de nossos hábitos de grandeza, os quais parecem, antes, emergir de uma miopia metafísica. Em saber-se minúsculo, por tão pouco poder oferecer a outrem, pulsa a angústia pela solidariedade: “Sou pouco para amar/ os que têm merecido/ meu pouco amor;/ para prender, segurar/ o amor que mereço,/ pouco para suportar/ ser tão pouco”.

Alberto_Cunha_Melo_Poesia_completa_224
Poesia completa
Alberto da Cunha Melo
Record
952 págs.

O AUTOR
Alberto da Cunha Melo
Nasceu em Jaboatão dos Guararapes (PE), em 1942. Foi poeta, cronista, jornalista e sociólogo da Fundação Joaquim Nabuco. Escreveu, dentre outras obras, Círculo cósmico (1966), Yacala (1999), Meditação sob os lajedos (2002) e O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos (2006), o qual lhe rendeu, no ano seguinte, o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras. Faleceu no Recife (PE), em 13 de outubro de 2007.

 

 

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