Palavra por palavra

março 2018 / Palavra por palavra / O olhar do personagem

Texto publicado na edição #215

O olhar do personagem

As técnicas de Flaubert e Joyce na construção das cenas

> Por RAIMUNDO CARRERO

Ilustração: Aline Daka

Ilustração: Aline Daka

Quero destacar aqui as cenas construídas pelo olhar do personagem em A educação sentimental, de Flaubert, e em Retrato do artista quando jovem, de Joyce, aparentemente similares, mas com riqueza de técnicas sofisticadas.

O olhar do personagem é realizado pela pulsação narrativa, que compreende o caráter o momento/cena e o ponto de vista do personagem nos mesmos autores e nas mesmas obras, ou em situação inteiramente oposta ou diferente.

É interessante verificar que ambas as cenas aparecem na falsa terceira pessoa — quando a narrativa é feita em terceira pessoa com técnica de primeira, mas com visões diferentes, portanto, a linguagem corresponde ao sentimento da frase e não apenas ao que se diz.

Exemplo em Flaubert:

Ela estava sentada, no meio do banco, sozinha. Ou pelo menos ele não avistou ninguém. No deslumbramento que os olhos dela lhe enviaram. No exato instante em que ele passava, ela levantou a cabeça; ele curvou involuntariamente; e quando foi se postar mais longe, do mesmo lado, ele olhou para ela.

Observamos, então, que embora o texto passe a convicção do deslumbramento do personagem, o sentimento é de dúvida na oscilação das frases. Na primeira frase, o sentimento de dúvida se mostra quando o narrador diz “Ela estava sentada”, seguida de uma frase que distancia a imagem, “no meio do banco”, como se o narrador duvidasse, consolidada na palavra final: “sozinha”. Portanto, o sentimento é de dúvida e não de convicção. A frase seguinte começa também com uma dúvida “Ou pelo menos ele não avistou ninguém”.

É possível que na primeira pessoa a narrativa fosse direta, mas o autor precisa seduzir o leitor com a dúvida exposta na montagem das frases, e não nas palavras. A narrativa em seguida, embora segura, explora o pretérito imperfeito, que movimenta a cena.

Usava um longo chapéu de palha, com fitas cor de rosa que balançavam ao vento, atrás dela. Seus bandós pretos, contornando as pontas das grandes sobrancelhas, desciam bem baixo e pareciam comprimir amorosamente o oval do rosto. O vestido de musselina clara, salpicado de pequenos poás, se desdobrava em pequenos pregueados. Ela estava bordando alguma coisa; e o seu nariz reto, seu queixo, toda a sua pessoa se recortava contra o fundo azul do ar.

Lembrando que o imperfeito é sempre um desafio na obra de Flaubert. O imperfeito, destaque-se, é usado sempre em relação a Madame Arnoux, o que revela inquietação e busca.

Como ela tinha a mesma pose, ele deu várias voltas, para a direita e para a esquerda, a fim de disfarçar sua manobra; depois, plantou-se bem perto de sua sombrinha, encostada no banco, e fingiu observar uma chalupa no rio.

Nunca tinha visto aquele esplendor de sua pele morena, a sedução de sua cintura, nem aquela delicadeza dos dedos que a luz atravessava. Observava com espanto seu cesto de costura, como uma coisa extraordinária. Quais seriam seu nome, sua residência, sua vida, seu passado? Desejava conhecer os móveis do seu quarto, todos os vestidos que ela usara, as pessoas que frequentava, e o próprio desejo da posse física desaparecia sob um desejo mais profundo, numa curiosidade dolorosa que não tinha limites.

Em Retrato do artista quando jovem, Joyce surpreende este amor agora mais espiritualizado em Stephen Dedalus, onde a pulsação narrativa se altera, através de imagens e de metáforas. Assim:

Ela estava sozinha e parada, contemplando o mato; e quando lhe sentiu a presença e o olhar aparvalhado, volveu até ele os olhos numa aceitação do seu deslumbramento, sem pejo nem luxúria.

— Deus do céu — exclamou a alma de Stephen, numa explosão de alegria profunda.

Subitamente se afastou dela e seguiu pela praia. Todo o seu rosto estava esfogueado; todo o seu corpo abrasado; os ombros tremiam. Caminhou, caminhou, caminhou, a passos largos até longe, por sobre a praia, cantando selvagemente para o mar, gritando para saudar o advento da vida.

A repetição do verbo no pretérito perfeito passa a ideia de esforço, de muito empenho, se não físico, espiritual.

Embora tenha citado Flaubert e Joyce, em livros diferentes, quero lembrar o texto de Proust encontrado no posfácio de A educação sentimental, edição da Penguim-Companhia das Letras:

O subjetivismo de Flaubert se exprime por meio dos tempos verbais, das preposições, dos advérbios, os dois últimos não tendo quase nunca em sua frase mais do que um valor rítmico. Um estado que se prolonga é indicado pelo imperfeito.

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