Ensaios e Resenhas

março 2016 / Ensaios e Resenhas / O olhar do gênio

Texto publicado na edição #191

O olhar do gênio

Em "Salões de Paris", Marcel Proust transforma mundanidade em material artístico

> Por CLAYTON DE SOUZA

Ilustração: Proust por Robson Vilalba

Ilustração: Proust por Robson Vilalba

A despeito dos rumos esteticamente variados da atual literatura, não parece provável que haja alguém, leitor ou escritor, que não reconheça em James Joyce, Franz Kafka e Marcel Proust os alicerces essenciais do que se realizou após eles. O leitor pode objetar que nem todos os autores contemporâneos, mormente os brasileiros, tiveram contato com a obra destes três titãs (o que talvez fosse inexato no caso de Kafka, relativamente correto no de Proust e totalmente procedente no de Joyce).

No entanto, sua influência se impõe de forma indireta na obra de terceiros que a estimaram. É possível conceber o realismo mágico hispânico, tal como hoje o conhecemos, se tudo quanto Kafka escreveu houvesse sido destruído? A literatura de experimentação linguística, a introspectiva e de fluxo de consciência que contaram com vários adeptos em âmbito mundial — sendo os mais ilustres, no Brasil, Guimarães Rosa e Clarice Lispector — não se tornaram “convenções estilísticas” a partir do Ulisses joyceano e do Em busca do tempo perdido, de Proust? São, em suma, os três pilares da prosa moderna e (por que não dizer?) da pós-moderna.

Curioso que dos três, o nome menos “incensado” por escritores de meados do século 20 até hoje, é o de Proust, sendo que Kafka e Joyce são “moeda corrente” nos debates e discussões nacionais. O autor de Em busca do tempo perdido (leitura que poucos levaram a termo) permanece um tanto distante, talvez por seu estilo ou a vastidão de seu mosaico literário.

Mas o leitor moderno pode agora conhecer esse universo, de forma breve e condensada, através de Salões de Paris, união de crônicas sociais e mundanas inéditas no Brasil, publicada pela Carambaia.

Entre o cronista e o artista
Antes de se entregar a sua obra maior, Proust foi um singular cronista, em especial da alta sociedade pela qual circulava: a Paris da belle époque (inícios do século 20). Salões de Paris cobre o período de 1890 a 1912 (com intervalos), no qual transitou por periódicos efêmeros como Le Mensuel, até os célebres Le Figaro e Revue Blanche.

Já um observador perspicaz, de refinado gosto e cultura, Proust circula por salões de condessas, ateliês e saraus badalados, entre burgueses em ascensão (como ele próprio) e aristocratas decadentes. Seu olhar tudo registra, das conversações à indumentária, dos chistes e gafes aos ditos espirituosos e heráldica dos presentes, com a atenção do cronista social, mas também com a lisonja do artista iniciante, deslumbrado com os círculos a que tem acesso e sempre aspirou.

Para além dessas “efemérides mundanas”, onde se topa com nomes como Alphonse Daudet, Sarah Benhardt e Anatole France em meio a outros desconhecidos, mas que na época brilhavam pela sociedade, Proust também versa sobre fatos e temas como a linguagem obscura dos poetas de seu tempo, os contrastes entre o conservadorismo e a ousadia moderna de escolas de pintura rivais, além de fait divers como o assassinato de uma mãe pelo filho.

Parece desnecessário acentuar a importância dessas crônicas para os estudos proustianos:

Naquela época, entre os íntimos da princesa, uma pessoa (…) divertia a todos por sua simplicidade de espírito (…)

— Ah, o telefone! Que bela invenção! — exclamou o brilhante convidado. — É a mais bela descoberta já feita… — corrigindo-se, temendo ter faltado com a verdade — depois das mesas giratórias, bem entendido.
(O salão de S.A.I. a princesa Mathilde)

“Swann ficou irritado ao ver a condessa Monteriender, famosa por suas simplicidades, inclinar-se para lhe confiar suas impressões antes mesmo que a sonata houvesse findado (…) “É prodigioso, nunca vi nada que impressionasse tanto…” Mas um escrúpulo de exatidão obrigou-a a corrigir a primeira assertiva e ela fez esta reserva: “nada que impressionasse tanto… depois das mesas giratórias!”
(No caminho de Swann)

Já um observador perspicaz, de refinado gosto e cultura, Proust circula por salões de condessas, ateliês e saraus badalados, entre burgueses em ascensão (como ele próprio) e aristocratas decadentes.

Os trechos acima assinalam sua importância. A memória involuntária invocará ao leitor proustiano, no decorrer das páginas, momentos do romance, em especial No caminho de Swann.

Mas (fugindo aqui a um sestro crítico já tradicional quando se fala em Proust) Salões de Paris mantém sua importância para além da obra-prima do autor: nessas crônicas observa-se com interesse tanto a evolução do estilo de Proust quanto o tratamento dado aos temas.

Neste último aspecto, além dos temas citados, o leitor encontrará ensaios de percepção não só preocupados em falar da importância da preservação de catedrais históricas ou registrar o falecimento da avó de um colaborador da redação; mas, no primeiro caso, fazer com que ele mergulhe, como num quadro impressionista, na perspectiva do cronista a observar os efeitos da luz do dia sobre a bela arquitetura; no segundo, convidá-lo a uma imersão introspectiva nas relações familiares, passionais e possessivas (abordagem recorrente em Proust).

São tais e outros temas, iluminados pelo estilo único do autor, que constituem o valor da obra.

O estilo
Mas o valor maior reside no estilo do autor. Essa obra registra sua evolução, da prosa mais sintética nas crônicas iniciais até a solidificação do estilo proustiano, já célebre em seus romances.

Aos que o desconhecem (quando possível, vale oferecer a regra e um exemplo ao mesmo tempo), esse estilo consiste em, interrompendo-se a oração principal (seja por travessões, seja por vírgulas ou parênteses onde abundam metáforas e comparações cuja exuberância só encontra par em Shakespeare), onde reside a ideia central e é por vezes estendida indefinidamente em parágrafos que tomam páginas inteiras, intercalar, em seu interior, orações subordinadas, concatenando ideias que, ao final, formam um todo coeso.

Um “estilo cansativo, mas que não cansa a mente”, como já disse Beckett, e que leva o leitor, na era do culto à “prosa enxuta”, mais longe que qualquer atual.

Ressalte-se ainda o talento do autor em elevar experiências banais da vida ao nível de verdades espirituais (para usar sua expressão) e que, nessa obra, cujo gênero enfoca justamente tais “banalidades” e fatos mundanos, encontra campo fértil:

Chega um dia em que a vida não nos traz mais alegrias. Mas então a luz que as assimilou devolve-as para nós, a luz solar que com o tempo soubemos tornar humana e que é, para nós, apenas uma reminiscência da felicidade.

Esse olhar analítico não dispensa o humor — outro atributo proustiano — atento a esses aristocratas simplórios de espírito, às damas refinadas cuja saia, de cauda comprida, diminui “a tarefa da municipalidade, varrendo as ruas”.

A edição e tradução
A edição, em sua capa e páginas douradas, é um portento, elegante como a prosa do autor. Só não é impecável porque detalhes como a diagramação do texto, não justificado, e um índice sem numeração contam. Na tradução, o leitor reconhecerá a prosa idiossincrática do maior escritor do século 20.

Salões de Paris é desses acontecimentos editoriais únicos que marcam a memória dos leitores da boa literatura.

 

Proust_Saloes_Paris_191

 

Os salões de Paris
Marcel Proust
Trad.: Caroline Fretin de Freitas e Celina Olga de Souza
Carambaia
208 págs.

 

o autor
Marcel Proust

Nasceu em Anteuil, Paris, em 10 de julho de 1871. Estreou na literatura em 1896 com Os prazeres e os dias, coletânea de contos e poemas de influência simbolista. Colaborou em periódicos como Le Figaro e La Revue Blanche. Em 1905, afasta-se cada vez mais da vida social para se dedicar à composição de sua obra maior, Em busca do tempo perdido, ciclo de romances que formam um mosaico social da frança de inícios do século 20. Morreu em 18 de novembro 1922, em decorrência de problemas respiratórios.

trecho
Salões de Paris

O campo, encontrei-o vibrando com o odor dos pilriteiros. A sebe formava como que uma sequência de capelas que desapareciam sob a profusão de flores amontoadas em um altar; abaixo delas, o sol pousava no chão um quadriculado de luz, como se acabasse de atravessar um vitral.

 

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