Dom Casmurro

junho 2018 / Dom Casmurro / O Nobel de maio de 2068

Texto publicado na edição #218

O Nobel de maio de 2068

O Nobel tinha passado por grandes escândalos e perdido completamente a sua credibilidade

> Por JACQUES FUX

Ilustração: Fabiano Vianna

Ilustração: Fabiano Vianna

O mundo se choca com a premiação. A Academia Sueca, ignorada e abandonada há anos, consegue novamente chamar a atenção da mídia eletrônica e das pessoas. O último paradigma humano é demolido. A criatura toma definitivamente o lugar do criador. O Prêmio Nobel de Literatura é concedido a uma Machine Learning.

A surpresa é total. Não que as inteligências artificias já não dominassem a vida, as escolhas das pessoas e todos os “prêmios” científicos. Isso acontecia há décadas, estava sacralizado: a “alma artificial” havia se tornado muito mais rica, complexa e talentosa que a alma atribuída àquele deus gago e manco que habitava a imaginação das religiões de antigamente. O fator de espanto era aceitar que o sonho de um novo gênio messiânico — um prodígio canônico da literatura — nunca mais pudesse ser concebido, mesmo nessa área criativa. Nos últimos anos — e quase ninguém se surpreendeu — a música e as artes “humanas” já haviam desaparecido. Restava coxa, doente, rebelde e trôpega apenas a Literatura.

O Nobel tinha passado por grandes escândalos e perdido completamente a sua credibilidade. Nesse mundo de revoluções constantes, o sonho de Alfred Nobel — o de premiar “os inventores das artes graciosas que a vida embelezam” — não tinha mais sentido algum. Não existia nem mais arte nem mais beleza, apenas o pragmatismo evolutivo da inteligência artificial. A vida era longa, saudável, porém sem tantos sorrisos. Além disso, na década de 2050, um grande vazamento de informações havia desestruturado os pilares do então “presente” e do já não mais promissor futuro. Em um passado quase obliterado, e agora insignificante, máquinas e hackers roubavam dados e segredos pessoais, informações públicas, fotos e likes e acabaram elegendo governos ditatoriais, esquizofrênicos, além de aumentar o consumo de chocolate e de expor o ser humano ao ridículo e à poligamia. Mas o furto de 50 tinha sido outro. Inquietante. Foi revelado que uma empresa coletava a carga genética de todos os bebês que nasciam no mundo. Com esses dados — e as inteligências artificiais assombrosamente evoluídas — o acaso havia desaparecido.

De posse de material tão rico e sensível, “videntes artificiais” começaram a dominar e determinar o mercado e a vida. Tudo passou a ser antevisto, inclusive as revoluções, criações, invenções e ideias. Bebês “nobélicos” — e por isso a decadência do Prêmio —, “fascistas”, “psicopatas”, “onanistas virtuais” eram desvelados desde o berço. O espanto, o mistério e o imprevisto tinham sido dissipados quase por completo. Persistia ainda a Literatura. E a ideia messiânica de um novo Autor.

No entanto, a literatura persistia e insistia no mesmo. Nas mesmas narrativas reescritas, no mesmo lugar de fala defendido com unhas, dentes e armas, na mesma (anti) e (trans) ficção. Os conflitos de egos, a vaidade acima das palavras, o nepotismo das escolhas. Assédio e mais assédio. Rezavam pelo retorno, pela vinda ou pela redenção de um Autor, mas continuavam perpetuando as frivolidades. E isso foi desgastando lentamente a engenhosidade. Depois de inúmeros vazamentos de privilégios — já que esse novo mundo algoritmo revelava e julgava instantaneamente — os prêmios passaram a utilizar jurados dissimulados robóticos. Mas, qual não foi a surpresa ao descobrir que esses jurados eram os mesmos “imortais” da Academia Sueca. Eles haviam tido os seus cérebros transplantados para uma máquina e agora estavam de fato eternizados.

A Machine Learning laureada surpreendeu por ser exatamente tudo que faltava naquele instante. Não, ela não era um produto algorítmico de todos os livros e todos os autores e textos já escritos. Ela não era o Aleph, o Om, a Bíblia, as sinfonias, distopias, utopias ou entropias já escritas ou apenas sonhadas. Não era a transposição de devaneios, de mitos, de ídolos. Não era poesia e nem prosa. Não embalava e nem abalava. Não era nada disso. E isso era o seu fundamento e talvez um retorno à gênese. Ao inédito. Ela era apenas capaz de produzir subjetividades, deliciosas e graciosas subjetividades. Algo perdido no tempo, no espaço, nos números, nas quimeras e nas equações. Deus ex machina, assim foi intitulada a laureada de 2068. O próprio paradoxo. Uma nova revolução.

 

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