Rodapé

fevereiro 2012 / Rodapé / O namoro das páginas: literatura e história (4)

Texto publicado na edição #142

O namoro das páginas: literatura e história (4)

Vejamos como o debate acerca da relação entre literatura e história se situa em autores mais recentes (alguns deles em […]

> Por RINALDO DE FERNANDES

Vejamos como o debate acerca da relação entre literatura e história se situa em autores mais recentes (alguns deles em diálogo, aberto ou tácito, com Aristóteles). Hayden White (Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. Trad. José Laurênio de Melo. 2a ed. São Paulo: EDUSP, 1995) entende que a história é uma narrativa entre outras. O historiador tem como tarefa mais importante produzir uma versão plausível do passado. De algum modo, ele cria um passado. Daí a idéia de White de que a obra histórica é um artefato verbal — como o é a obra literária. A narrativa historiográfica, para ele, é artefato verbal na medida em que tenta ser um modelo de compreensão de acontecimentos passados. As formas da narrativa historiográfica têm mais a ver com a literatura do que com a ciência. E o conteúdo da história pode ser encontrado como, de algum modo, inventado pelo historiador. Hayden White, neste ponto, põe a questão de que todo relato histórico está a serviço do fato examinado. Haveria uma correspondência forte entre a construção narrativa e o acontecimento de que o historiador trata. Isto é que garantiria a verossimilhança do relato, o seu poder de persuasão — e o faz passar por verdadeiro. É o mesmo que ocorre com uma narrativa literária. White, com isso, tenta combater uma concepção de história — em especial, a história positivista do século 19 — que apostaria em critérios científicos fechados, tomando como modelo os métodos das ciências naturais. Nesse sentido, história é, para ele, mais literatura do que ciência. A preocupação de Hayden White em ver a obra histórica como estrutura narrativa que se quer um modelo do passado faz o ensaísta propor uma teoria dos tropos. A tropologia de White, assim, se baseia na hipótese de que o discurso histórico se funda num duplo movimento: 1) a fidelidade ao passado (a partir dos documentos de que o historiador dispõe); 2) a utilização de uma forma para dizer esse passado (ou a armação de uma intriga apropriada a esse passado). Isto significa dizer que o historiador, antes de fazer a sua narrativa/interpretação de um fato, seleciona e agrupa os documentos disponíveis de uma certa maneira. Ou seja, configura os acontecimentos de antemão, desenha itinerários. Essa armação de um enredo seria uma operação poética. Entrariam nela, de algum modo, componentes imaginários — ou, pelo menos, arbitrários. Se a obra histórica é uma representação do passado, a armação da intriga, repita-se, é uma representação de antemão desse passado.

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO.

Print Friendly