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outubro 2011 / Rodapé / O namoro das páginas: literatura e história (1)

Texto publicado na edição #139

O namoro das páginas: literatura e história (1)

O passo inicial na comparação da literatura com a história deve ser dado no sentido de tentarmos entender a natureza […]

> Por RINALDO DE FERNANDES

O passo inicial na comparação da literatura com a história deve ser dado no sentido de tentarmos entender a natureza discursiva das mesmas, procurando, por um lado, estabelecer diferenças e, por outro, possíveis semelhanças entre esses tipos de discurso. No que diz respeito à literatura, podemos nos valer da teoria dos gêneros para tentar conceituar, com algum critério, o que é a sua natureza. Talvez a teoria dos gêneros não possa dar conta de certos textos, notadamente da modernidade — em que há, deliberadamente ou não, mistura de gêneros —, mas é certo que ela ainda nos auxilia na decifração do que venha a ser o discurso literário. Anatol Rosenfeld, em O teatro épico, chama a atenção para o fato de que, embora tenha sido contestada através dos tempos, a teoria dos gêneros literários continua válida. Ela é um tanto artificial e não deve ser vista como um “sistema de normas”, mas como uma conceituação que dá conta das “arquiformas” ou das formas literárias que permaneceram ao longo da história. E essas “arquiformas” (os gêneros propriamente dito) não são puras: “Por mais que a teoria dos gêneros, categorias ou arquiformas literárias, tenha sido combatida, ela se mantém, em essência, inabalada. Evidentemente ela é, até certo ponto, artificial como toda a conceituação científica. Estabelece um esquema a que a realidade literária multiforme, na sua grande variedade histórica, nem sempre corresponde. Tampouco deve ela ser entendida como um sistema de normas a que os autores teriam de ajustar a sua atividade a fim de produzirem obras líricas puras, obras épicas puras ou obras dramáticas puras. A pureza em matéria de literatura não é necessariamente um valor positivo. Ademais, não existe pureza de gêneros em sentido absoluto”. Daí Rosenfeld dizer que há um “significado substantivo” dos gêneros (o gênero que predomina num texto literário) e um “significado adjetivo” (traços estilísticos de outro gênero presentes no texto). Assim, por exemplo, não há romance (que é do gênero épico ou narrativo) que não contenha algum traço lírico ou dramático; não há poema lírico que não traga alguma marca épica ou mesmo dramática; e não há texto dramático que não incorpore elementos épicos ou ainda líricos. Dizendo melhor: num romance, o que predomina é o narrativo (significado substantivo), embora haja componentes líricos ou dramáticos (significado adjetivo); numa canção, é o lírico que prevalece (significado substantivo), sendo que o narrativo ou o dramático também ocorrem (significado adjetivo), etc.

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO.

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