Ensaios e Resenhas

março 2020 / Ensaios e Resenhas / O monstro resiste

Texto publicado na edição #239

O monstro resiste

"A metamorfose", de Franz Kafka, ganha nova tradução no Brasil e segue atual em meio às guerras ideológicas

> Por Fábio Lucas

Franz Kafka, autor de A metamorfose

Franz Kafka, autor de A metamorfose

A mente humana não cessa de provar o estarrecimento com a existência posta entre a consciência de si e a experiência do mundo. Há sempre um hiato possível nessa passagem geradora do indivíduo, da alteridade e até, como notaram alguns filósofos, do próprio mundo, presente em cada consciência de infinitas formas alternativas. Desde a descoberta infantil da presença corpórea ao esmaecer da senilidade, a interação com o lado de fora produz o encantamento com a vida. Mas a travessia do tempo do ser consciente no mundo não tem nada de fácil. A começar pela autoimagem do corpo que personifica o ser e se expõe a si e aos outros, topando a cada dia com uma realidade raramente tranquila. Para escapar dela, ou processar melhor o que vivencia, a mente conta com o inconsciente e seu trabalho de movimentos oníricos, redimensionando o real. Trabalho imitado pela arte, no refinamento da imagem do mundo.

Quando o sonhador contemporâneo sai ou se distrai da realidade intranquila, não estranha se topar com o mutante Gregor Samsa, de Franz Kafka. Sintoma de um tempo que não terminou, cenário do mundo em vários lugares desde que foi publicada há mais de um século, em 1915, A metamorfose ganhou atualidade com os anos. E não foi porque a inventividade surrealista — para usar essa chave de leitura — tenha sido assimilada por leitores e não leitores do autor. Mas talvez pela concretização do pesadelo satírico kafkiano, em medida tão larga que o monstruoso personagem do enredo se banalizou. Hoje podemos ser tratados como insetos horripilantes em transformação por qualquer motivo — por qualquer outro, próximo ou distante, ocupando o mesmo cômodo, habitando a mesma cidade ou em um país longínquo, praticando a intolerância por esporte na rede onipresente do momento.

Se Kafka possuía dupla inquietude, supostamente na origem de sua criação literária — com o próprio corpo e com familiares, além daquela que o deixava doente em trabalhos desimportantes diante da vontade de escrever — a metáfora do estranhamento de si e do entorno na descoberta de novos contornos físicos pode servir, por exemplo, ao Brasil de uma geração marcada pela desavença e pela discórdia demolidora de afetos.

Como na obra kafkiana, primeiro se dá a surpresa: “Isto é Gregor?”. O susto aos poucos é substituído pelo incômodo, de cara velado, e logo escancarado, tal o grau de diferença corpórea em relação ao conhecido membro da família. A cena é tão comum no cotidiano das guerras ideológicas, do choque dos costumes de 105 anos depois do lançamento do livro, que a sensação de peso daquela realidade opressora quase se esvazia. Quase. E é na ponta desse resto de inquietude chegando até o leitor do século 21 que A metamorfose ressurge essencial.

Um século depois
A edição da Antofágica é caprichada. Com nova tradução de Petê Rissatti, ilustrações de Lourenço Mutarelli, capa de Pedro Inoue, projeto gráfico de Giovanna Cianelli e textos de Otávio Albuquerque, Flávio Ricardo Vassoler e também de Rissati e Mutarelli, a aura do clássico centenário acompanha a publicação em cada página. O leque de interpretações que podem ser acopladas a situações de mudança de vida, especialmente as dramatizadas por impossibilidades de compreensão do olhar alheio, numa época de incompreensões acesas, faz desta reedição um objeto de colecionador. Por se tratar, como aponta Albuquerque na apresentação, de obra mágica capaz de oferecer uma nova experiência mesmo depois de várias leituras.

A história do caixeiro-viajante que se torna prisioneiro de um corpo estranho em seu quarto, passando a ser objeto de repugnância da família, atravessou um século lido por gerações sucessivas em todo o mundo. A identidade metamorfoseada de ser humano em animal sem controle sobre as muitas perninhas desproporcionais para o corpo, e desprovido da capacidade de comunicação, pode refletir o estado de crise de Kafka com seus próprios corpo e identidade. “A claustrofobia do mundo retratado em sua ficção espelha a de sua própria existência”, escreveu Louis Begley no livro O mundo prodigioso que tenho na cabeça — Franz Kafka: um ensaio biográfico (Companhia das Letras, 2010, tradução de Laura Teixeira Motta).

A percepção de um desencaixe estrutural que permeia a obra do autor de O processo (1925) e O castelo (1926) não se restringe a um reflexo individual, contudo. A inclusão de seus livros na “Lista de obras nocivas e indesejáveis” do nazismo, que os queimou em público, chama atenção para o caráter coletivo de seu alcance. Não apenas como escritor judeu, mas como denunciante de um imaginário de opressão que transcendeu sua insatisfação pessoal com a realidade, responsável pelo estado de ansiedade que chegou a lhe causar colapsos nervosos. Em trecho de carta transcrito por Begley, Kafka desabafou: “Vejo todo o meu modo de vida seguindo uma direção que é alheia e falsa para todos os meus parentes e conhecidos”.

O Homem e o inseto
A direção da vida reprimida por todos os conhecidos era uma percepção dramática que fazia com que o escritor cuidasse de transmitir aos seus personagens, como para Gregor Samsa, o peso do desencaixe. Peso que lhe questionava a identidade indo além, negando a humanidade. Conforme relatado a Felice Bauer, por quem Kafka era apaixonado e com quem trocava cartas: “Não posso viver com pessoas; eu absolutamente odeio todos os meus parentes, não porque sejam maus, não porque eu não os tenha em boa conta (…) mas simplesmente porque são pessoas com quem vivo em estreita proximidade”, em outro trecho do ensaio de Louis Begley. A mesma carta a Felice contém um conselho encerrado em conclusão trágica: “Cuida, Felice, para não pensares que a vida é ordinária, sem com ordinária quiseres dizer monótona, simples, trivial. A vida é meramente terrível; sinto isso como poucos. Com frequência — e nos mais íntimo do meu ser talvez o tempo todo — duvido que eu seja um ser humano”.

Tal banalidade da condição inexoravelmente terrível da vida pode ser vislumbrada tanto no inseto monstruoso de A metamorfose, quanto no discurso de seu criador. Como se o inferno existencialista de Jean-Paul Sartre, emblema da peça Entre quatro paredes, encenada em 1944, tivesse sido descrito antes, metaforicamente, por Kafka. Um século mais tarde, em nosso tempo conturbado de disputas políticas e religiosas polarizadas, a associação do tormento interno com o incômodo julgamento dos outros traz o existencialismo de trincheira de volta, ao menos como figura de representação para proximidades incompatíveis: como se levássemos modos de vida alheios e falsos uns para os outros, incapazes de aceitar a integração dos modos de vida. Assim, choques individuais e familiares pipocam, deflagrando a tensão de choques coletivos. Até eleições se tornam guerras eleitorais, onde amigos e parentes ficam irreconhecíveis ao ponto de se comportarem feito inimigos.

Na metamorfose do corpo em que transparece a inquietude metafísica, Kafka sinaliza para o “meramente terrível” da vida sem salvação. O “retorno das condições reais e naturais” nem vem da compreensão dos outros, nem da vontade do indivíduo monstrificado. A teratologia da intolerância é irreversível. Sem a construção de consensos no horizonte, e muito menos a esperança de que o silêncio prolongado, ou quem sabe um novo despertar, tenham o poder de restaurar a normalidade. Inclusive porque a normalidade é questionável, indesejável e, dentro de suas impenetráveis definições, monstruosa.

A condição angustiante daquilo que se apresenta como real surge como condenação prévia à prisão decretada pela metamorfose. Nesse aspecto, não há muita diferença entre as realidades do ser humano inserido na redoma do cotidiano e do inseto ex-humano perseguido pelo núcleo familiar. A diferença é propositalmente aparente, enquanto a personalidade do sujeito monstruoso tenta se acostumar à nova corporeidade, sentindo idêntica desconfiança dos habitantes de seu mundo, seja na forma de homem, seja na de inseto.

Franz_Kafka_Metamorfose_239

A metamorfose
Franz Kafka
Trad.: Petê Rissatti
Antofágica
227 págs.

O AUTOR
Franz Kafka
Considerado um dos grandes nomes da literatura moderna, Franz Kafka nasceu em Praga, na atual República Tcheca, em 1883. Entre seus trabalhos mais conhecidos (alguns publicados postumamente), além de A metamorfose (1915), estão os contos Na colônia penal (1919) e Um artista da fome (1922) e os romances O processo (1925) e O castelo (1926). Morreu na Áustria, em 1924, aos 40 anos de idade, em decorrência de tuberculose.

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