Ensaios e Resenhas

março 2012 / Ensaios e Resenhas / O monstro de Csejthe

Texto publicado na edição #143

O monstro de Csejthe

A condessa sangrenta, de Alejandra Pizarnik, apresenta a impressionante história de Erzsébet Báthory

> Por MARIANA IANELLI

Ainda hoje, na Eslováquia, podem ser vistas as ruínas do castelo de Csejthe (atualmente Chactice) cujas galerias subterrâneas, quatro séculos atrás, abrigaram as macabras sessões de tortura que mataram mais de seiscentas mulheres. Erzsébet Báthory, o “Monstro de Csejthe”, como era conhecida em seu tempo pelos rumores que circulavam nas aldeias sobre as atrocidades cometidas em seu castelo, tinha a imponência desta figura pálida, elegantemente vestida, de olhos impenetráveis, com que normalmente são retratados os vampiros.

A história real dessa condessa, prima do rei da Transilvânia, nascida e criada no luxo da nobreza e na selvageria de uma época de lutas sangrentas entre húngaros e turcos, sob a atmosfera da magia negra e da alquimia, inspirou já muitas versões no teatro, no cinema e na literatura. Mas é o fascínio que exerceu sobre duas poetas modernas, Valentine Penrose e Alejandra Pizarnik, que vale abordar aqui, aproveitando o lançamento no Brasil de A condessa sangrenta, texto em prosa de Pizarnik, publicado pela primeira vez em livro em 1971, que reúne suas notas sobre Erzsébet Báthory – A condessa sanguinária, livro de Penrose de 1962.

À maneira de breves capítulos e combinadas às impressionantes ilustrações de Santiago Caruso na edição brasileira, as notas de Alejandra Pizarnik sem dúvida causam tremendo efeito, especialmente a quem não conheça a biografia de Erzsébet Báthory. No entanto, a leitura do livro de Valentine Penrose, pela riqueza de dados históricos, bibliográficos, documentais, e, mais do que tudo, por sua exuberância poética, dá a compreender melhor tanto a referência de Pizarnik a esta poeta logo na abertura do seu texto como a razão por que se sentiu impelida a elaborar ela mesma seus comentários.

Fruto de uma genealogia de casamentos consangüíneos que desembocavam em alienação, fúria e epilepsia, Erzsébet Báthory tinha em seu brasão de família três dentes de lobo selvagem, emblema que convinha perfeitamente à sua personalidade taciturna e irascível. Uma hereditariedade viciada e um cenário histórico de truculência, superstição e primitivismo deram a esta mulher os dons e os meios de se associar à natureza no que nela há de predatório, venenoso e sub-reptício.

Consta que na infância lhe agradavam a caça e a montaria; que aprendeu a ler e escrever húngaro, alemão e latim; que foi uma menina muito branca, silenciosa, de olhar gélido. Aos quinze anos, casou-se à maneira tradicional húngara com Ferencz Nádasdy, que vinha de uma linhagem de paladinos protegidos dos Habsburgos por suas batalhas contra o império otomano. Depois do casamento, Erzsébet e Ferencz fixaram-se em Csejthe por escolha da condessa, em um castelo no alto de uma colina dos Pequenos Cárpatos, uma construção de aspecto bruto, com poucas janelas e um enorme labirinto subterrâneo onde, se alguém gritasse, ninguém ouviria. Foi neste lugar de penumbra, à luz de archotes, na presença de dezenas de aias e criadas, que se deu uma das mais aterradoras histórias de crueldade e obsessão assassina.

Agulhas e alfinetes
Não se sabe exatamente quando tudo teve início, mas Ferencz Nádasdy ainda era vivo. Embora não lhe importassem os assuntos domésticos nem os abusos da condessa, que então já começava a dar vazão ao seu sadismo, despindo, mordendo e picando as criadas com agulhas e alfinetes, Ferencz parecia temer a própria esposa e ignorar a que nível de loucura poderia chegar sua violência. Ele mesmo ensinou a Erzsébet como fazer para acabar com as crises histéricas das criadas colocando entre seus dedos um papel embebido em azeite e ateando-lhe fogo, um método que Ferencz utilizava com seus soldados. Esta foi uma das lições que a condessa guardaria para aplicar mais tarde em suas torturas, entre as pernas das moças que desfaleciam cedo demais.

Os comentários de Alejandra Pizarnik se ocupam do período da vida de Erzsébet em que sua depravação não conhecia mais limites, quando os rituais de sangue, dilaceramento e bocas cosidas compunham as habituais cenas de horror no castelo de Csejthe, nos primórdios do século 17, após a morte de Ferencz Nádasdy e a partida para longe dos seus quatro filhos. O requinte nas formas de tortura e nos instrumentos, desde pinças, tesouras, atiçadores, até uma réplica da Virgem de Ferro e uma gaiola de proporções humanas são variações desse luxo sinistro que possuía a condessa, de assistir à morte brotando como um fluido precioso, que não servia para entretê-la simplesmente, mas para banhá-la em sangue, revigorá-la, protegê-la. Esses banhos faziam parte dos ritos de feitiçaria praticados por Erzsébet sob orientação de Darvulia, feiticeira da floresta que freqüentava o castelo e iniciava a condessa na intimidade com as forças negativas da natureza, os esconjuros de magia negra e as maneiras de penetrar a morte sem medo.

Potenciada pelo narcisismo e por um espírito de impunidade irrestrita, era a obsessão por se proteger de possíveis inimigos, inclusive a velhice, que dava aos crimes da condessa o sentido de imortalidade do seu poder e do seu viço. Não por coincidência a ilustração que fecha o texto de Alejandra Pizarnik lembra Kâli, “Mãe negra e Esposa do tempo”, à qual Valentine Penrose se refere em seu livro, esta força destruidora que bebe o sangue do mundo, e que Erzsébet Báthory dava a impressão de encarnar, sendo ela “a Dama que assola e cresta como e onde quer”, conforme diz Pizarnik, pensando na condessa como a encarnação da própria Morte. O fascínio e o horror que esse tipo de beleza desperta, uma beleza da qual é tão difícil se aproximar, desafiam Valentine Penrose e Alejandra Pizarnik a uma equivalente conjugação poética a partir dos elementos puros do caos e da obscuridade.

Onde se reúnem esses elementos, tão familiares à poesia noturna de Pizarnik, o retrato de Erzsébet Báthory e uma “silenciosa galeria de ecos e de espelhos” compõem uma só alegoria da alma melancólica. Esta mulher, que gostava de ter sua beleza admirada na Corte de Viena, quando encastelada em Csejthe defrontava-se com seu reflexo, diante do qual permanecia imóvel durante horas. Defrontava-se com “estas criaturas que habitam os frios espelhos”, nas palavras de Pizarnik, criaturas que têm “sede de terra, de sangue e de sexualidade feroz”.

Entre os mistérios que envolvem a vida da condessa está a suspeita de sua homossexualidade. Além do acólito feminino de damas de companhia, feiticeiras e criadas que a cercavam, suas vítimas eram apenas mulheres, preferencialmente as mais belas e mais robustas. Diz-se também que uma mulher da aristocracia, travestida de homem, costumava visitar Erzsébet, e que certa vez acompanhou-a em uma sessão de tortura. As cartas e os documentos da época estiveram por muito tempo ocultos em uma zona de sombra e Valentine Penrose teve de pesquisar em cinco diferentes bibliotecas do mundo até chegar à riquíssima trama do seu livro. A grande descoberta, que permitiu a sobrevivência das provas dos crimes, foi a ata de julgamento, datada de 1611, encontrada mais de um século depois por um padre jesuíta que, recorrendo a outros documentos nos arquivos da Corte de Viena, escreveu uma monografia em latim reunindo pela primeira vez os dados dispersos do julgamento, da sentença e da ordem de execução dos cúmplices da condessa. A partir de então, a história pôde propagar-se em novas versões e outras línguas numa generosa lista de obras à qual se somam as notas de Alejandra Pizarnik.

Séquito de informantes
Ilona Jó e Dorkó, lobas de estimação da condessa, ambas condenadas à fogueira pelo tribunal em Bicse, eram as velhas criadas fiéis que espancavam, calcinavam e retalhavam, além de se incumbirem da penosa tarefa de desaparecer com os cadáveres. Havia ainda todo um séquito de informantes, sentinelas e recrutadoras de moças que reforçavam o círculo de proteção em torno de Erzsébet enquanto os rumores sobre as mortes se espalhavam. Isso porque as atrocidades não se restringiam às salas do castelo, mas aconteciam também durantes as viagens da condessa e nos aposentos de sua casa em Viena, onde os gritos podiam ser ouvidos pelos monges do convento dos Agostinianos logo em frente, do outro lado da rua.

Embora a jurisdição eclesiástica não houvesse interferido no julgamento em 1611, György Thurzó, grão-paladino da Hungria na época, primo de Erzsébet e protestante como ela, sofrendo pressão da oposição católica, deu ele mesmo oportunidade, por sua posição junto ao rei, a que uma ata de acusação contra a condessa fosse apresentada na Assembléia Magna do Parlamento em Presburgo ao fim de 1610. O escudo da reputação de um nome serviu para livrá-la do patíbulo e da fogueira. Condenada à prisão perpétua em seu castelo, sem qualquer sinal de arrependimento, Erzsébet Báthory passou ali sozinha emparedada os seus três últimos anos de vida.

No posfácio à edição brasileira, merece destaque a leitura que João Silvério Trevisan faz da condessa “como um sintoma com ecos na idade moderna, que elevou a tendência assassina à escala coletiva”. A zona de sombra em que a perversidade se aloja e da qual se alimenta, hoje, circunscreve-se em um espaço virtual onde tudo é possível. A obsessão por vencer a morte e seguir determinados padrões estéticos marca o espírito de uma época em que os abusos da ciência assumem o lugar dos velhos filtros mágicos da condessa, que “seriam uma versão tosca da engenharia erótica que a atualidade banalizou”. O mito Erzsébet Báthory, com sua carga de fantasia sadomasoquista, narcisismo e sede assassina, é agora amplamente consumido, e o que antes se dizia possessão demoníaca, sob a forma de melancolia, hoje “comparece na forma de ansiedade e de sua parente próxima, a depressão”, também em proporções massivas. Aqui retorna o tema do espelho, e a barbárie do tempo de Erzsébet, imersa em uma paisagem de lobos e de linces, reflete-se na barbárie contemporânea, em um contexto de violência real e metafórica em que “uma dissonância”, como diria Pizarnik, ou simplesmente o caos, predomina.

A condessa sangrenta surge, portanto, em momento mais do que oportuno, tendo ainda o privilégio de ser o primeiro texto em prosa de Alejandra Pizarnik traduzido e editado no Brasil. Que essas notas, magnificamente ilustradas por Santiago Caruso, possam também despertar o interesse pelo livro de Valentine Penrose que as inspirou, e que seja este um ponto de partida, em cores soturnas, para um mergulho na obra destas duas grandes poetas da modernidade.

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Alejandra Pizarnik

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Nasceu em Buenos Aires em 1936. Estreou na literatura aos dezenove anos com o romance La tierra más ajena. Morou durante quatro anos em Paris, onde conviveu com vários grandes escritores, entre eles Octavio Paz, apaixonado leitor dos seus poemas. Obteve a bolsa Guggenheim e o prêmio Fondo Nacional de las Artes. Possui uma abastada obra poética, marcada pelo tema da morte e uma atmosfera de silêncio e intimismo amalgamados em uma linguagem de rigorosa concisão. Entre os seus textos em prosa estão artigos, ensaios, reportagens e uma peça de teatro em um ato datada de 1969. No Brasil, Pizarnik figura na coletânea bilíngüe Poesia argentina – 1940 a 1960 (Iluminuras, 1990). A condessa sangrenta é seu primeiro texto em prosa traduzido e editado no Brasil.

Ela não sentiu medo, nunca tremeu. Então, nenhuma compaixão nem emoção nem admiração por ela. Só perplexidade no excesso do horror, uma fascinação por um vestido branco que se torna vermelho, pela idéia de um absoluto dilaceramento, pela evocação de um silêncio constelado de gritos onde tudo é a imagem de uma beleza inaceitável. Como Sade em seus escritos, como Gilles de Rais em seus crimes, a condessa Báthory alcançou, para além de todo o limite, o último fundo da depravação. Ela é mais uma prova de que a liberdade absoluta da criatura humana é horrível.

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Alejandra Pizarnik
Trad.: Maria Paula Gurgel Ribeiro
Tordesilhas
60 págs.