Sujeito oculto

dezembro 2019 / Sujeito oculto / O menino sem dedos

Texto publicado na edição #236

O menino sem dedos

O fracasso era uma peste entre o lápis e o caderno

> Por ROGÉRIO PEREIRA

Ilustração: Carolina Vigna

Ilustração: Carolina Vigna

Não tínhamos alternativa: a faca no bolso rumo à plantação de trigo. A manhã esgarçava os braços a nos envolver em nossa sonolência. O sereno ainda a gotejar no matagal. A mãe nos arrancava cedo da cama. Arrastava a remela dos olhos com a lerdeza e a preguiça da infância. No terreno irregular, outras famílias se espalhavam. Cada uma no pesado mutismo cotidiano. Corpos arqueados, olhar para baixo. O sol por trás das árvores não nos causava nenhuma alegria. De longe, a cena lembra uma pintura campestre abandonada num museu imaginário — um campo de girassóis ressecados e desbotados. Mães e filhos a colher trigo para alimentar a vaidade familiar de casas desconhecidas. Tínhamos de cortar trinta ramos, amarrá-los com tiras de paineira. Os esquálidos maços eram amontoados. Cada família formava sua mísera montanha de sobrevivência. Próximos à mãe, nosso feudo tinha uma guardiã. Ao final do trabalho, entregávamos a colheita. A mãe anotava a produção do dia num improvisado caderno com os dedos grossos e números tortos. O trigo ficava dias dependurado num galpão a secar. No Natal, enfeitariam arranjos de flores.

Escondia as mãos sob a carteira escolar. A palma direita sempre sufocada na madeira rabiscada a caneta ou a golpes de canivete. A estratégia contra a vergonha não dava resultado algum. O fracasso era uma peste entre o lápis e o caderno. É impossível esconder os dedos quando se tem fome. Ao estender as mãos em busca da caneca azul da merenda, a ponta verde do dedo brilhava. Vaga-lume perdido na claridade dos dias. Ele tem a ponta do dedo verde, zombavam com estrondo. A algazarra do recreio transformava-se em tempestade. O mais verde era o dedão direito. Verde, bem verde. Não conseguia notar a gosma a infiltrar-se na pele. Era daltônico. Ignorava a tortura que habitava meus olhos. Pensava ser apenas um idiota cromático. Passei toda a infância a colorir desenhos escolares de ponta-cabeça. Meu arco-íris desaparecia na confusão de lápis desobedientes

O chinelo de dedos nada protegia nas manhãs frias. O sereno encharcava os vãos dos pés com facilidade. Esperávamos o minguado sol feito um condenado, por um milagre, a caminho do cadafalso. Vamos cortar o máximo possível. A frase da mãe era uma rotina em nossos ouvidos de cera. Tínhamos de trabalhar com rapidez. O ramalhete de paineira em tiras preso à cintura; a faca pequena nas mãos pequenas. Bastava um leve, mas firme toque no raminho de trigo. Trinta facadas e nascia estripado um maço. A cada maço, alguns centavos. Muitos centavos, algum dinheiro. Algum dinheiro, a possibilidade de alguma comida. A morte do trigo era a nossa salvação. Nunca acreditei que o trigo representa prosperidade, fartura, união e alegria.

(Ia à escola há pouco tempo, mas tinha na ponta dos dedos o cálculo da sobrevivência. Morávamos de favor numa chácara de flores em C., sem banheiro, mas com água encanada e luz elétrica. Acabáramos de chegar da roça. Éramos meio bárbaros, meio urbanos. Vikings perdidos em Nova York.)

Sem perceber, a cada trigo decepado, a lâmina da faca produzia cortes superficiais na ponta delicada dos dedos. Sou destro. Por ali, a gosma verde escorria. Dias e dias. Cortes e cortes. Aos poucos, sem querer, sem saber, sem notar, transformei-me no menino do dedo verde. Não imaginei que passaria parte da infância em Miraflores, sob o olhar atento de Maurice Druon. Não tínhamos nenhum livro em casa. Somente a Bíblia. A mãe dizia que Deus não tinha cor, nem sexo. Deus nunca teria o dedo verde. Eu não fazia milagres. De meus dedos não nasciam flores, apenas sorrisos de escárnio nas bocas de dente de leite.

Havia outro menino que também tinha lá seus problemas com os dedos. Sentado na última carteira, recostava o corpo avantajado (era mais velho que os demais alunos) e ressonava até que a professora o descobria em seus pesadelos infantis. Acordava assustado feito passarinho apedrejado no fio de luz, para zombaria de quase toda a turma. Tinha um dedo torto — o minguinho esquerdo formava um L para fora devido a uma queimadura. Estampava a pele negra chamuscada. Nunca aprendeu a ler e a escrever com o mínimo de correção. A vergonha o tornara um menino silencioso, quase invisível. Um animal empalhado para orgulho dos caçadores mirins. Trabalhava à noite num restaurante. Dormir era mais importante que estudar. Há algum tempo, descobri que morreu atropelado. Era alcoólatra. Estava bêbado. Não havia parede capaz de ampará-lo.

Após matriculá-lo numa escolinha para crianças pequenas, percebi que meu filho carregava no peito um pedaço da minha história. Ele tinha uns três anos. Uma tarde, ao final do estreito corredor, onde pais ansiosos esperavam os filhos como se fossem animais raros, notei a coincidência. Não havia ramos de trigo por perto. Apenas alguns sapos coloridos de cerâmica estáticos no jardim diante da escola. Os altos prédios desenhavam sombras ao redor. C. crescera muito, transformara-se numa cidade estranha, admirada por proporcionar aos ricos uma vida confortável. Mas ainda há casas sem banheiro. Às vezes, é fácil esconder latrinas nas bordas de uma ficção. Como de costume, ele correu para o meu colo. Na camiseta, o desenho de um menino sorridente a festejar o nome da escola: Tistu. Neste mesmo dia, arranquei o livro da infinita biblioteca que me acompanha e o reli com interesse e pressa. Voltava a Miraflores — uma cidade, um presídio. Jamais a esqueci.

Minha biblioteca é uma plantação cujos trigos teimam em não secar.

Print Friendly