Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / O lirismo das ruas

Texto publicado na edição #114

O lirismo das ruas

Para aproveitar melhor o último trabalho de Raimundo Carrero, A minha alma é irmã de Deus, é necessário fazer alguns […]

> Por ADRIANO KOEHLER

Raimundo Carrero, autor de A minha alma é irmã de Deus

Para aproveitar melhor o último trabalho de Raimundo Carrero, A minha alma é irmã de Deus, é necessário fazer alguns acordos antes. Em primeiro lugar, é necessário entender que o escritor não te dará uma história mastigada, em que o início, o meio e o fim são claramente identificáveis e acompanham o virar das páginas. Em segundo lugar, é preciso saber que o autor usará toda a capacidade lírica que possui, para abordar a realidade de uma maneira poética, para tornar o que é feio, aos nossos olhos cotidianos, algo belo aos olhos da persona humana. Por fim, o escritor nos alerta, nas páginas finais do livro, que sua obra é uma experiência única, um só bloco, desenvolvido através de temas, histórias, personagens e textos que se cruzam várias vezes. Não são apenas citações, mas personagens e ações que podem se repetir, uma intertextualidade com a própria obra e com outros autores. Avisos feitos, mergulhe e aprecie, pois vale a pena.

O primeiro conselho deve-se à forma como Carrero estrutura A minha alma é irmã de Deus. Em vez de uma narrativa temporal, temos vários pequenos textos, quase contos, em que as personagens do livro vão sendo apresentadas ao leitor. Logo na primeira cena, sabemos que há uma Camila, que deve levar o lixo para fora, e um Leonardo, que manda nela e que, apesar das condições extremamente pobres em que vivem, ainda guarda uma certa dignidade nas maneiras de ser e agir. Raquel, a prostituta que vendia o seu corpo não por prazer ou por dinheiro, mas por ter um corpo social, ou seja, porque seu corpo devia ser da sociedade, é apresentada no segundo texto. No terceiro texto, que começa com a mesma frase dos dois primeiros, sabemos que há um Alvarenga. As personagens são citadas, a situação em que vivem e o que passam é brevemente esboçado, e daí em diante é necessário muita atenção para não se perder no vaivém dos pensamentos de Camila, que considerei a personagem principal do livro.

E é um vaivém constante, em que não temos muita certeza de quem é quem, de quem faz o quê. Longe de perturbar o entendimento da obra, essa inconstância da narrativa nos obriga a prestar mais atenção a cada linha escrita. Em alguns momentos, o autor repete uma ou outra situação já mostrada no próprio livro (não posso falar de outros livros, pois ainda não os li), confundindo-nos um pouco mas logo nos fazendo relembrar o que foi dito em outra ocasião para que o cenário fique um pouco mais claro. Mesmo a profusão de personagens, que traz em si uma surpresa que não ouso abrir para o leitor, serve como ponto de inquietação e investigação, como elo que une a narrativa que em alguns momentos parece fugir tanto de seu núcleo principal — a história de Camila — que poderíamos pensar que o autor se perdeu.

Mas Carrero não se perde, apenas conduz o leitor a uma visão diferente do mundo que está ao nosso redor, ainda que intocado por nós. Um mundo de excluídos, que vivem em casas abandonadas, que se alimentam e se vestem de lixo, que têm um caráter e uma honra próprios, que não conseguimos compreender, e que têm uma lógica que não temos como alcançar. Camila é uma das milhares de excluídas que perambulam, zumbis, pelas cidades do Brasil. Mas por favor, não pense que A minha alma é irmã de Deus é um panfleto ideológico, muito pelo contrário. Carrero se preocupa em contar a cabeça dos personagens, sem acusar fulano ou beltrano pelo país de desigualdades que somos. Para o autor, o objetivo é mostrar a alma dessa mulher, Camila, e de quem está ou esteve ao seu redor.

Intertextualidade
Ao quebrar a narrativa para tirá-la de um progressão linear, o autor se liberta para abusar do lirismo, para contar o que não sabemos. Sim, pois só a poesia pode ser capaz de nos fazer entender uma realidade absolutamente diferente da nossa. (Ao ler Camila, me lembrei de duas mendigas, gêmeas, que andavam sempre de luvas e lavavam as frutas que ganhavam ou catavam no lixo antes de comer. Sempre me perguntei de onde vinha aquela fidalguia entranhada na alma delas.) Muito provavelmente, nosso afastamento se deve à nossa ojeriza ao feio, ao sujo e ao desarrumado. Não conseguimos nos aproximar para entender que aquelas pessoas são pessoas como nós, que em algum momento decidiram (não nos cabe julgar, apenas entender que houve, sim, uma decisão, se não delas mesmas, de alguém que a impôs a elas) sair dos trilhos convencionais da sociedade para viver à sua margem. Mas Carrero consegue nos colocar nesse universo sem que nos apossemos de sentimentos piegas ou de falsa caridade, apenas desejosos de conhecer pessoas interessantes como as suas personagens.

Carrero deixa dúbio, e faz bem em fazê-lo, o que são ou qual a origem de suas personagens. Em alguns momentos, achamos que Camila foi raptada. Em outros, que ela fugiu. Há uma Ísis, fotógrafa, que parece ser uma pessoa da alta sociedade, de bem. Há Raquel, a prostituta do corpo social, que pode ter vindo de uma boa família, mas que nada indica tenha sido isso. Há outras, uma profusão de mulheres que não se sabe de onde vêm, mas que fazem parte da vida de Camila de alguma maneira, e que ajudaram a transformá-la no que ela é.

A intertextualidade de Carrero — que pode ser vista mesmo dentro de A minha alma é irmã de Deus, em que trechos são repetidos ao longo do livro, sem que pareçam uma pegadinha para leitores distraídos, mas fazem sentido na narrativa — é que permite ao leitor ir montando um quadro geral um pouco mais convencional, situando melhor a obra. Confesso aqui minha dificuldade em entender textos muito líricos, mas apreciei a maneira como Carraro faz as ligações entre os diversos “sonhos” de que o livro é feito, entre os diversos pedaços, a princípio aparentemente dispersos, mas unidos entre si por um fio condutor que é, em essência, a vida de Camila, de quem só temos uma noção um pouco mais clara ao chegarmos ao fim do livro.

É um belo trabalho, árduo, a princípio, se o leitor espera uma leitura linear, convencional, mas que de sua aparente confusão — e tenha certeza de que tudo no texto é premeditado, nada está ali ao acaso — é possível extrair um retrato inusitado de personagens e pessoas que para nós são invisíveis e incompreensíveis.

LEIA A PARTICIPAÇÃO DO AUTOR NO PAIOL LITERÁRIO.

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RAIMUNDO CARRERO

Nasceu em Salgueiro (PE), em 1947. Jornalista e escritor, já trabalhou no rádio, na televisão e no Diário de Pernambuco, onde permaneceu por 25 anos, tendo exercido diversas funções, entre elas as de crítico literário e editor. Foi assessor de imprensa da Fundação Joaquim Nabuco e da UFPE, e presidente da Fundação de Patrimônio Artístico e Histórico de Pernambuco (Fundarpe). É membro da Academia Pernambucana de Letras. Publicou 17 livros, entre eles Somos pedras que se consomem, Sombra severa, Maçã agreste, Sombrias ruínas da alma, Ao redor do escorpião... uma tarântula?, O amor não tem bons sentimentos, Sinfonia para Vagabundos e Extremos do arco-íris.

Eu sou Camila. Disse desde o dia em que estava no quintal, menina, brincando com nada, e a palavra, o nome próprio, estalou no ouvido. Sabe o que é brincar no quintal? Não, não sabe, ninguém sabe. Como essa insignificância de corpo, pernas e braços, em usar no mundo. Só de calcinha. Só de calcinha mas com aquele sentimento de agonia nos ombros, de gastura nas carnes, porque estava no mundo. Não era simples, nada era simples, nem difícil. Só no mundo e nunca quis saber o que era o mundo. E repetia o nome próprio. Sempre o nome. Era uma coisa antipática. Eu sou Camila.

Raimundo Carrero_Minha alma_114

Raimundo Carrero
Record
176 págs.