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junho 2018 / Entrevistas / O lírico cotidiano

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O lírico cotidiano

Nos poemas de "Vem à quinta-feira", a portuguesa Filipa Leal capta o que há de pulsante no banal

> Por Andressa Barichello

Filipa_Leal_foto_Maria Leal Craveiro

Vem à quinta-feira, da escritora, poeta, jornalista portuguesa Filipa Leal surpreende pela maneira com a qual capta o cotidiano para devolvê-lo em forma de poemas. São versos que dão importância aos momentos frágeis, aqueles mais efêmeros, nos quais alguma coisa reveladora lampeja.

Conheci o termo “lamechas” em Lisboa, quando ensaiava a leitura de Tabacaria em um grupo de não profissionais. Nosso orientador, leitor apaixonado de Fernando Pessoa, ameaçava dar-nos uns tapas se fizéssemos aquilo feito coitadinhos — aquela leitura poderia ser tudo, menos lamechas.

Reencontrei essa palavra, que passou a fazer parte do meu vocabulário afetivo, num poema do livro Vem à quinta-feira (2016). É nessa obra, de forma física enxuta e aparência gráfica tão azul, que aparece a palavra que no Brasil nunca li nem ouvi, mas suponho que tenha o sentido daquilo que é lamentoso, ou ridículo pelo excesso de romantismo. Expressão prima-irmã, talvez, do brasileiro “piegas”.

Escolho descrever longamente a “lamechice” como gancho para construir esse texto porque entendo que Filipa Leal é dessas poetas que, para a construção de seus poemas, não receia agarrar-se a esse tipo de miudeza em que ora me agarro para tentar construir uma resenha. Ao contrário disso, que é falar das palavras nunca lidas nem ouvidas, Filipa recorre ao vocabulário das ruas portuguesas para tratar de temas igualmente comuns.

Vem à quinta-feira é um livro que não receia sublinhar a miudeza e o já conhecido mais do que o senso comum poderia julgar relevante. Talvez porque para encontrar o que para cada um é relevante seja preciso, antes, desafiar o senso comum.

Assim, também escolho a lamechice como gancho, porque por vezes parece mais fácil falar dos poemas de Filipa Leal por meio de oposições, por aquilo que eles não são, dissolvendo-os nas ligações conscientes ou não a que eles nos conduzem. E, também pensando nisso, qual poderia ser o exato contrário de poemas lamechas? Poemas que falem das coisas belas e comuns sem receio e sem quaisquer volutas?

Em Vem à quinta-feira estamos diante de poemas que, ao se embrenhar nos espaços urbanos, nas conversas, permitem escutar em meio aos ruídos da rotina coisas que estavam lá, pulsantes, e ninguém escutou; o que estava lá, escondido entre os cabelos e, às vezes, entre as palavras do dia a dia.

São poemas em que não há nada de extraordinário, há mesmo o que há de mais ordinário: o desejo de encontrar alguém que não se vê faz tempo, a morte de quem amamos, despedidas em saguão de aeroporto, nossa incapacidade de ação e resposta imediatas àquilo que nos toma, o constante adiamento dos prazeres, a tristeza,
a saudade da infância.

A partir de situações como essas, Filipa aviva os variados sentimentos vindos de experiências singulares e também coletivas. Aos afetos que nos são mais próximos, irmãos, pais, tias loucas e até avós de primos. São, portanto, poemas que nos fazem rir dos papéis familiares, os redistribuem e questionam com bom humor. Sinto na poesia de Filipa Leal a simplicidade dos relatos. A condensação desses fatos imensos nas poucas linhas de um conjunto de versos faz crer estarmos diante de uma poeta que, ao captar a essência de certas cenas da vida, intui que elas podem ser tudo — até lamechas — menos banais.

• Ao mesmo tempo em que os poemas do livro fazem sentir uma voz plenamente inserida no mundo moderno, cheio de velocidade nas comunicações e relacionamentos, faz-se também presente uma fé no imponderável, naquilo sobre o que mesmo a tecnologia não avança. Poderíamos dizer que essa reserva nos poemas de Vem à quinta-feira é a solidão?
Julgo que a solidão está mais presente nos meus primeiros livros do que nos mais recentes. Talvez porque, com a idade (é estranho, talvez, mas verdadeiro), me sinto cada vez menos só. Faltam-me demasiado as pessoas que perdi, mas até essas parece que me acompanham. A solidão é uma carga adolescente. Gosto muito de estar sozinha, e preciso muito desse espaço reservado e fundamental para a reflexão e para a escrita, mas não me sinto só. Talvez os poemas sintam, mas eu não.

• O tempo se encarrega de nos apresentar versões novas para aquilo que nos disseram algumas pessoas em quem confiávamos. Questionar o núcleo ao redor do qual crescemos é talvez o único jeito de encontramos nossas origens? Ou de fazer com que nossa história alcance o presente?
Questionar? Sempre. Quase tudo. A família é, no entanto, dos raros territórios humanos inquestionáveis para mim. Creio que a família está no campo do inquestionável, no sentido em que tenho pela minha família um amor incondicional. E gosto que seja assim. Parece-me que em tempos de fast-food e “fast-feelings”, a família tem direito ao erro e ao perdão, como terá o dever de nos perdoar o erro e de nos ver errar, também por perdoarmos tanto.

 “Posso dizer que não defendo a infelicidade como condição para criar seja o que for. Não estamos condenados ao horror para sermos escritores.”

• “[…] buscamos no quotidiano uma estrada onde se repita o amor e a casa de algum Verão.” É possível uma casa ou um verão onde de fato tenhamos amado e sido amados tanto quanto nos quer fazer crer a nostalgia?
Amar é o “pecado” mais original. Amar é possível, apesar de tudo. E é uma surpresa incrível quando muda o Verão, mudam as casas, mudam a descrença e a dor, e de repente voltamos ao amor como quem volta à alegria das férias grandes.

• No poema que dá título ao livro e em outros, onde o desejo ondula entre avanços e recuos, parece haver certo diálogo com a covardia. Você diria que a nossa geração sente mais medo de ser feliz do que de fracassar? Ou que antecipa alguns fracassos para não ter de lidar com a impotência?
Interessa-me a auto-ironia, a aparente exposição dos meus próprios fracassos, o humor negro que pode resultar desse verbo tão humano: falhar. A cobardia é um tema interessante, mas como diz o poeta espanhol Antonio Gamoneda: “os bons temas dão maus poemas”. Não posso falar por uma geração. Posso dizer que não defendo a infelicidade como condição para criar seja o que for. Não estamos condenados ao horror para sermos escritores.

• Existem na sociedade diversos símbolos, distintivos sociais ou profissionais. A sua poesia tem a força de desnudar e apontar para a equivalência. Num dos poemas, por exemplo, a poeta que vende seus poemas nas rua distancia-se da poeta que publica livros quase pelo acaso. A velocidade dos nossos tempos favorece ou atropela o florescer dos bons acasos?
A velocidade perturba-me muito, apesar de eu mesma ser aceleradíssima — serei, porventura, um produto deste século. Mas, como confessei no poema Cavalos, eu confundo velocidade e violência. Há uma falta de ponderação perigosa neste excesso de rapidez de resposta a que o mundo do lucro nos obriga. Poderíamos, talvez, ser todos melhores (enquanto escritores, enquanto pessoas) se não recebêssemos dezenas de e-mails e de mensagens e de solicitações por dia e pudéssemos, realmente, tomar o nosso tempo. Tempo também para apreciar o acaso. O acaso não existe se não repararmos nele.

• Você apostaria na meritocracia como a ideia responsável por quando chegarmos ao futuro descobrirmos que lá tudo estará como dantes?
Esse meu poema [Havemos de ir ao futuro] não é a defesa conservadora e nostálgica de um regresso ao passado político ou social. É a hipótese de um lugar divino onde todos nos encontrássemos (netos, filhos, pais, avós) numa grande festa, como na infância, depois de morrermos todos. É um exercício de fé.

• Muitos dos seus poemas não possuem títulos; poderia comentar alguma coisa a esse respeito?
Não me obrigo a dar títulos aos poemas. Alguns têm título porque deles depende até algum sentido, como numa pintura cujo título acrescentasse o que o desenho não diz.

• Quais são os próximos projetos de Filipa Leal já concluídos ou em andamento? Há para breve alguma expectativa de publicação da sua obra por alguma editora brasileira?
O meu próximo livro já está entregue à editora Assírio & Alvim. Estou na fase de revisão e decisão sobre o que fica e o que sai. Poderia passar 20 anos a fazer só isso, mas sei que haverá um momento em que terei de parar e aceitar que o livro é aquele e que basta de alterações. Adoraria estar publicada no Brasil, mas, até agora, houve apenas um poema meu, há uns anos, num manual escolar, e alguns outros na revista brasileira Pessoa. A minha relação com o Brasil é sobretudo enquanto leitora: sou fanática da literatura brasileira.

A autora

A escritora portuguesa Filipa Leal foi finalista do Prêmio Oceanos 2017 com o livro Vem à quinta-feira. Autora de livros como Lua-Polaroid (2003) e Talvez os lírios compreendam (2004). Aos 39 anos, ela é uma das vozes jovens que mais repercutem em Portugal.

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