Inquérito

março 2016 / Inquérito / O levantador de tapetes

Texto publicado na edição #191

O levantador de tapetes

26 perguntas ao escritor gaúcho João Gilberto Noll

> Por RASCUNHO

O escritor gaúcho João Gilberto Noll

O escritor gaúcho João Gilberto Noll

João Gilberto Noll nasceu em Porto Alegre (RS), em 1946. Publicou treze livros, entre os quais O cego e a dançarina, A fúria do corpo, Bandoleiros e Solidão continental. Recebeu inúmeros prêmios, incluindo o Prêmio Jabuti em cinco ocasiões. Seu romance Harmada está incluído na lista dos 100 livros essenciais brasileiros em qualquer gênero e em todas as épocas da revista Bravo!. Sua obra já foi adaptada para o cinema e o teatro, e traduzida para o espanhol, italiano e inglês.

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
O meu gosto pela experiência artística apareceu na infância, quando cantava Ave Maria de Schubert em casamentos e recitava poemas em eventos do colégio. Com a timidez da adolescência fui me aproximando da escrita, uma atividade mais solitária.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Escrever de manhã. E de uma forma compulsiva, sem deliberar muito acerca do destino dos personagens.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Poemas. De Drummond a Jorge de Lima, passando por Quintana.

• Se pudesse recomendar um livro à presidente Dilma, qual seria?
Não perderia meu tempo, embora seja a favor de que ela cumpra o mandato até o fim.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Quietude. Para que eu possa tatear em paz o imaginário, que é algo escuro, convulsivo.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Estar com uma roupa confortável, deitado no meu sofá.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Quando sinto que cheguei àquilo que eu mesmo não tinha condições de esperar.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Justamente essa certa autonomia na fluência ficcional.

A literatura é uma atividade de incertezas.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
O medo de tocar naquilo que é calado no meio social.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Não faço vida literária. Tenho alguns amigos escritores, o que é outra coisa.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Miguel Del Castillo, autor de Restinga, livro pleno de mistérios.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Laços de família. Descartável, essas séries de livros tipo 50 tons de cinza.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A redundância de descrições.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Todos os assuntos da matéria humana me tocam fundo.

• Qual o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Uma maçaneta.

• Quando a inspiração não vem…
Não insisto. Faço outra coisa para readquirir uma certa distração.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
John Fante, por imaginá-lo muito divertido.

• O que é um bom leitor?
Aquele que se esvazia um pouco antes da leitura (principalmente de poesia e ficção), para não recebê-la numa postura rigidamente pré-formulada.

• O que te dá medo?
O de perder o ímpeto para a escrita.

• O que te faz feliz?
Fazer 70 anos em abril próximo com a consciência diária de ser um escritor.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
A literatura é uma atividade de incertezas.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Que eu tenha uma atenção do outro lado de mim.

• A literatura tem alguma obrigação?Não tem, salvo a de transformar o leitor. O leitor tem de sair mais humanizado da leitura de um romance.

• Qual o limite da ficção?
Não há limite para uma especulação imaginária que deve levantar o tapete e mostrar o que foi esquecido pelo ramerrão do cotidiano.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse leve-me a seu líder, a quem você o levaria?
Ao Espaço Sideral.

• O que você espera da eternidade?
Nada.

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