Tudo é narrativa

fevereiro 2017 / Tudo é narrativa / O leitor iminente

Texto publicado na edição #202

O leitor iminente

A obrigatoriedade de fazer algo no mínimo instigante era aflitiva

> Por Tércia Montenegro

Ilustração: Carolina Vigna

Ilustração: Carolina Vigna

De tanto pensar na ideia de que tudo é narrativa, resolvi aplicar a proposta a um laboratório de escrita. Afinal, um objeto, frase ou rosto pode ser o elemento disparador de uma história (dizia Tchekhov que uma coisa — qualquer coisa — gera um texto, desde que desperte concentração suficiente e associações interessantes).

O experimento intitulado Retratos Literários Assim nasce uma personagem aconteceu durante as atividades de ocupação do curso de Letras na Universidade Federal do Ceará, no ano passado. A greve dos estudantes, nascida em protesto contra a PEC 55, propôs inúmeras alternativas de aprendizado, mostrando que a reflexão é algo que pode — e deve — extravasar os limites formais acadêmicos. Meses após essa mobilização, que afinal trouxe um saldo de crescimento humano, apesar de o governo ter aprovado famigeradas medidas de sacrifício da saúde e educação brasileiras, ainda temos muito a ponderar.

Foi no dia 24 de novembro que se realizou a proposta. Em parceria com a amiga e também escritora Fernanda Meireles, sugeri: nós duas ficaríamos disponíveis para criar biografias, enredos, situações imaginárias a partir da fisionomia das pessoas que quisessem posar.

No início, claro, tive motivações “didáticas”. Era bastante tentadora essa tendência, já que a ação ocorreria no ambiente onde exerço o magistério há oito anos. Então, sabendo que vários alunos têm talento ficcional, queria demonstrar que não existe falta de inspiração para quem observa: seria uma pequena lição através do exemplo. Mas na prática o aprendizado acabou se tornando muito relevante para mim mesma — inclusive com reflexões que ultrapassaram o tema artístico.

O primeiro ensinamento foi sobre a necessidade de tempo e silêncio — para criar, ou apenas para estar acessível. Numa atividade tão econômica (exige somente cadeiras, papel e caneta), a presença humana se alargou, algo que muitas vezes não acontece, quando a tecnologia vem impor disfarces ou distrações.

O segundo aspecto foi sobre o processo recíproco. A ação prometia transformar uma pessoa em figura literária, mas não se pode esquecer que a contemplação era mútua e simultânea. Eu, escrevendo, estava diante do sujeito que posava tanto quanto ele estava diante de mim. E, além disso, o meu texto seria lido um segundo após eu finalizá-lo. Ou seja, haveria a mudança de lugar: logo seria eu a oferecida à investigação alheia — e de maneira bem mais profunda, talvez: a leitura ultrapassa o jogo do olhar; é uma mirada íntima que o outro lança, acompanhando um processo mental.

Funcionava como aquela performance da Marina Abramović, The artist ist present — embora em circunstâncias agravadas. Ainda que Marina tenha passado centenas de horas disponível para o seu público, num museu, o que ela dava era isso, a sua presença (o que é bastante, sim, mas a artista não precisava se preocupar com um produto extra, um resultado que o público levasse, como um souvenir).

Sem gaveta
Quando me dei conta do grau de consequência que a ação envolvia, quase paralisei de medo. Porém uma voluntária já sentava à minha frente, posando para o tal retrato escrito. Eu tinha de sufocar a angústia por perceber — naquele minuto — que perderia o conforto da “fase de gaveta”, o prazo em que ponho o texto de lado, esqueço-o até que o distanciamento me torne disposta a avaliá-lo. Na situação do laboratório, o método se invalidava. Não podia dizer à pessoa: “Pronto. Daqui a alguns dias, você lerá seu retrato literário — se ele estiver bom”. A obrigatoriedade de fazer algo no mínimo instigante era aflitiva. E a certeza de um leitor iminente exacerbava o quadro.

Apesar da ansiedade, a experiência foi maravilhosa. Imaginem: durante duas horas, duas escritoras produzem, juntas, trinta textos inspirados em pessoas que se deixam contemplar. Lógico que o ambiente era próximo do perfeito, com gente que — por ser da área de Letras — compreendeu o plano e esteve profundamente envolvida com o exercício. Não sei como seria a mesma atividade realizada, digamos, numa esquina do centro de Fortaleza. Uma nova edição do projeto pode trazer vivências inesperadas. Mas por enquanto, o ensinamento crucial (e que jamais imaginei que viria com tanta força) foi o político. Tendo, de forma física e imediata, o meu futuro leitor ali, esperando pelo texto, ponderei sobre responsabilidade como nunca havia feito. As minhas palavras atingiriam alguém. Alguém que eu estava vendo. Não se tratava de um ente virtual, desconhecido ou improvável. Era uma pessoa tão próxima que, se eu estendesse a mão, poderia tocar.

Quando um político rouba o dinheiro público, quando age em benefício próprio, prejudicando o interesse coletivo, consegue dimensionar o impacto que seu gesto causa, realmente? Pode enxergar a repercussão — em pobreza, carência, uma avalanche de consequências ruins — sobre indivíduos concretos? Seria vital mostrar isso aos culpados, levá-los para conhecer as pessoas, ficar perto delas. Não falo nos retóricos passeios de épocas eleitorais: o que importa não é o desfile do candidato. Importa saber a história do outro, do sujeito anônimo que tem o seu destino não imaginado, mas efetivamente escrito pelas decisões de um gestor distante, mergulhado em egoísmo.

2016 consagrou-se como o ano da Surrealpolitik pelo mundo — e o Brasil ajudou muito a endossar este termo. O que tivemos diante de nós, em escândalos estourando a cada dia, era, e continua sendo, gravíssimo. Embora alguns episódios pareçam inacreditáveis, se estamos iludidos precisamos nos convencer de uma vez: tudo está existindo. Infelizmente, não é ficção, nem tem fase de gaveta. Explode — e continua explodindo.

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