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janeiro 2013 / Rodapé / O Jeca Tatu de Lobato

Texto publicado na edição #101

O Jeca Tatu de Lobato

É fato que, embora ainda um tanto limitadas quanto à abordagem de obras importantes de autores contemporâneos, as pesquisas universitárias […]

> Por RINALDO DE FERNANDES

É fato que, embora ainda um tanto limitadas quanto à abordagem de obras importantes de autores contemporâneos, as pesquisas universitárias – algumas, de valor imensurável – têm contribuído bastante para a literatura brasileira. Por exemplo, a dissertação de mestrado de Mário Luís Simões Filho, Tensões no Modernismo brasileiro: tradição e contradição em Monteiro Lobato, defendida há alguns meses na UFPB, é um relato (ou inventário) interessante da trajetória de recepção de um personagem polêmico – o Jeca Tatu. E é sobretudo como descrição detalhada dessa trajetória, mostrando a multiplicidade de respostas ao tipo configurado por Monteiro Lobato na segunda década do século 20, que reside o valor do trabalho. Simões Filho acompanha atentamente a recepção ao personagem, registrando os vários pontos de vista, os dos autores que discordam e os dos que se afinam com as idéias lobatianas acerca do nosso homem rústico. Assim, num primeiro momento, nos é apresentado um quadro de situações, comportamentos ou práticas derivadas das idéias de ciência e modernidade que se inserem na sociedade brasileira dos fins do século 19 e início do 20. É este o contexto que forma Lobato; é desta “base teórica-ideológica”, como indica o mestrando, que o escritor irá subtrair as suas visões de progresso e de civilização ocidental. Na composição da primeira imagem do Jeca Tatu, a que consta de Velha praga e Urupês (textos que integram o livro Urupês, de 1918), Lobato, otimista com o progresso, com a modernidade, faz um retrato negativo do caipira, considerando-o indolente, preguiçoso, predador, avesso à civilização. Esta imagem depreciativa decorreria de uma suposta “vingança do fazendeiro fracassado contra o caboclo que lhe põe fogo na mata”, conforme leitura de Sérgio Milliet (citado pelo mestrando). Fazendeiro herdeiro de terras, neto do Visconde de Tremembé, em boa medida inepto ao trabalho de administrador rural. Aqui, portanto, se configuraria o “olhar senhorial e estigmatizante” de Lobato. E será esta primeira imagem ou versão do Jeca a que irá se impor, que irá penetrar com força no imaginário brasileiro. Uma imagem caricatural, certamente. Em 1924, com a narrativa do Jeca Tatuzinho(um “receituário” ou “reclame”, segundo o pesquisador, utilizado como “suplemento dos produtos medicinais do Laboratório Fontoura”), Monteiro Lobato irá propor uma nova imagem do homem interiorano, do caipira. Agora, amparado nos conceitos da ciência fisiológica, Lobato preocupa-se com a saúde pública, justificando a indolência do Jeca pela desnutrição, pela doença ou verminose que o ataca. O Jeca, tratado com afeto, agora é vítima e não mais fator de degeneração social. É como diz Marisa Lajolo, também citada no trabalho: “O velho Jeca (agora no diminutivo, o que em nossa prática lingüística supõe certa afetividade, entre nomeador e nomeado) é apresentado como vítima com a qual se solidariza o Lobato de agora: opilado pela verminose, fraco, anêmico, os males deste Jeca dos anos vinte não começam na preguiça nem na falta de disposição para o trabalho: a desnutrição e a precariedade de seu estado de saúde é que desembocam na pouca produtividade do camponês itinerante”. Haveria, aqui, um paternalismo do escritor em relação ao seu personagem. Finalmente, em 1947, “fortemente influenciado pelo ideal comunista”, Monteiro Lobato comporia a sua terceira imagem ou versão do caipira, com o personagem Zé Brasil. Agora o escritor está “politicamente engajado na campanha de Luiz Carlos Prestes”, a quem são tecidos elogios: “Não é assim, Zé. Apareceu um homem que pensa em você, que por causa de você já foi condenado pela lei desses ricos que mandam em tudo – e passou nove anos no cárcere. – Quem é esse homem? – Luiz Carlos Prestes… […] Se todos os que sofrem essa injustiça de falta de terras próprias num país tão grande como este, se reunirem em redor de Prestes, a situação acabará mudando completamente”. Zé Brasil, como lembra Marisa Lajolo, é “representado com toda sua carga de alienação”; com um “interlocutor anônimo, discute a precariedade de sua situação”, e esta “situação precária é firmemente atribuída ao latifúndio e ao sistema econômico que rege o estatuto agrário brasileiro”. Temos, assim, um Lobato ideologicamente diverso, múltiplo, contraditório, que no decorrer das décadas vai se auto-revisando. Daí Lajolo concluir: “de 1914 a 1947, Monteiro Lobato parece ter percorrido quase todas as posições ideológicas disponíveis para um intelectual de seu tempo”.

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