Dom Casmurro

janeiro 2018 / Dom Casmurro / O incêndio

Texto publicado na edição #213

O incêndio

Trecho do romance inédito O incêndio

> Por Alexandre Staut

Ilustração: FP Rodrigues

Ilustração: FP Rodrigues

Rodoviária. Cinco e meia da manhã. Um rapaz enrola a porta de aço do café. Aproximo-me e o cumprimento. O cheiro de sabonete herbal se mistura ao aroma da bebida coada. Peço um copo. Ele estende um americano, diz que já está adoçado.

Encosto no balcão e vejo meu companheiro de viagem se aproximar. Ele atravessa a rua. Parece estar à vontade. Tem cabelos molhados, escovados para trás. Tem um envelope pardo debaixo do braço. Olho para a parte debaixo do meu próprio corpo e, como se participasse de um teatro, estou novamente vestido de Pessoa, sem me lembrar ao certo em que momento da manhã acontecera a transformação. Os sapatos lustrados, o terno bem cortado de cor escura, a bengala de madeira maciça, e nos olhos, óculos arredondados.

O dia chega no mesmo instante que ele pisa na rodoviária, um dia prateado, e assim vai se aproximando um ou outro gato pingado. Posso avistar o ônibus em que em seguida entraremos. O motorista faz baliza. Leio mentalmente o nome da cidade para onde vamos, Campinas.

Ele tenta se justificar. Diz que optou por não ter carro, a poluição dos tempos modernos, coisa e tal. Dou a entender que não precisa explicar absolutamente nada. Depois, me olha nos olhos e diz que nunca havia percebido que eu usava óculos. “Desde sempre”, respondo.

Ele fala da antiga linha férrea da cidade. Nós, os saudosistas…

Deixo o copo no balcão e recebo o envelope. Apalpo-o e tento descobrir qual livro é.

“Presente”, ele diz, sorrindo.

Aos poucos, forma-se uma fila na frente da porta do ônibus. Ele me passa o bilhete. Subimos no transporte. Sentamos lado a lado. Ele é um desconhecido, a não ser pela troca de impressões sobre certos livros.

Não sei se deito a poltrona, se abro o envelope. E neste meio tempo, ele fala mais uma vez sobre a sauna. Viu-me entre as brumas, incógnito, numa casa de banhos, na cidade grande.

Diz que quer me descontrair com os comentários indiscretos e depois ri.

Vejo duas ou três figuras mais ou menos conhecidas procurarem suas poltronas. Cumprimento-as balançando a cabeça.

“Essas duas mulheres são casadas entre si há muito tempo, não?”, ele me pergunta, com um cutucão de cotovelo, ao vê-las se instalar ao fundo do veículo.

Depois, entre uma frase e outra, fala sobre o livro, assim que o retiro do envelope. “Giovanni”, soletra, com sotaque italiano. Ao perceber que não conheço o título, ensaia me dar aula sobre o autor, ou coisa parecida. “James Baldwin… americano do Harlem… Foi o primeiro preto americano a dizer aos americanos o que pretos sentiam.”

“Este livro fala de um romance em Paris”, ele conta. “David, espera a esposa, Hella, numa estação de trem, e acaba encontrando Giovanni, garçom que trabalha num bar. Este o arrasta para o seu quarto e a tragédia é anunciada.”

Ele fala e eu folheio o livro. Sinto o seu hálito de café com cigarro.

O ônibus deixa a cidade e alguns raios de sol incidem nas nossas poltronas. E então lembro de um conto de Camus, O exílio e o reino, se não me engano. Um par amoroso viaja de ônibus pelo norte da África. Um deles observa uma mosca e o inseto guia a história, ou seja, a partir da besta voadora, o autor visita o mundo íntimo dos personagens.

Eu olho à altura do meu nariz, como se procurasse um inseto. É verão. Não seria difícil encontrar um. Mas fico sem a deixa da mosca. Numa tentativa vã de engatar uma conversa ou um pensamento, acabo apenas concordando com ele, após seus pontos finais.

Ele continua a falar do livro e do autor. Eu respondo: “Novo século, 232 páginas”.

Tento olhar para trás, discretamente, e avistar as duas mulheres nas poltronas do fundo do ônibus.

Flávio me desconcerta. Quando percebe a minha manobra para ver as poltronas finais do veículo, diz: “Ora, que timidez é esta? Por favor, você lê Genet, homem”.

“E existe script para a vida?”, penso em responder, apenas penso.

Ele fala outra vez do Baldwin, o Harlem… E meu pensamento viaja. Pouco antes de Olinto morrer, a secretaria o chamou para um encontro com os garotos. O tema era o Brasil de ontem. A figura esquálida, mas a voz firme. Disse que muitos pretos escravizados no Brasil retornaram para a África após a abolição. “E não foram poucos os que voltaram”, contou para a meninada que ouvia em silêncio.

Dentro do ônibus o silêncio é grande.

Seria fácil ouvir uma mosca. Posso escutar os pneus rolando sobre o asfalto, que já devia estar quente. A manhã estava pelo meio.

Tive pavor de que a conversa tivesse acabado. Comecei a ler os primeiros parágrafos de Giovanni, mas as letras estavam embaçadas e as páginas tremiam em minhas mãos. Não conseguia me concentrar na leitura.

Olhei para fora da janela e percebi que as placas de trânsito eram novas e de cores diversas das anteriores. “Você nunca viaja nas férias”, frases assim, de conhecidos e colegas, vinham me visitar dentro do ônibus, que cheirava a spray floral e urina.

Meu companheiro de viagem pareceu estar embalado num sono agradável. Tive vontade de colocar as costas da mão na altura do seu nariz e sentir a temperatura do ar que saía das narinas. Aí me lembrei de uma das excursões da escola. Eu sentava ao lado da Marilu, que me perguntava o que eu pretendia ver no Liceu de Artes e Ofícios. Ela pegou a minha mão, levando-a próxima ao seu peito. Pediu para senti-los crescer saudáveis. Abaixou o tom da voz e disse que não os queria. “Preferia ter o tórax igual ao seu, liso”, falou. Depois comentou que tinha uma namorada, e aí abriu um sorriso de canto a canto da boca.

Ao perceber que o meu vizinho de poltrona dormia mais profundamente, revisitei a frase que tinha falado sobre mim, eu lendo Genet.

Pensei no tempo de menino, quando o homem ao meu lado, Flávio, me observava ao longe, as apostilas, a Ciência. O meu silêncio. Não era capricho. Não sei, tampouco, se foi por educação. Tentei espichar a vista e alcançar a hora no relógio de pulso do meu companheiro de viagem.

O retorno da viagem ao Liceu de Artes e Ofícios… Guilherme ainda não existia. Eu voltava da excursão ao lado do Eusébio. Era um aluno quieto. Trocamos dois ou três comentários sobre as estátuas, mas sem muitos detalhes. Eu tinha os detalhes no pensamento. O tamanho do pênis de Davi. Não me conformava. A estátua magistral e o pintinho de anjo. O ideal de beleza que não cabia na vida real, prática. Com o rabo dos olhos, procurava Marilu, que vinha sentada com uma menina, a garota que ela dizia ser sua namorada. Como pude me esquecer de Marilu?

Ainda à procura de uma mosca imaginária, percebi que o casal de moças, ao fundo, começava uma conversa animada. Uma delas caminha pelo corredor. Foi até o motorista e fez uma pergunta. Na volta, me cumprimentou. Devia ter a minha idade. Procurei debaixo das suas rugas as expressões de algum conhecido.

Não era Marilu, mas Karina. Nunca mais a vira. Os passos, os calcanhares grossos. Certa vez, o professor de educação física disse que ela tinha joelho firme, pesado. Todos caíram na risada. “Para futebol ou balé?”, retrucou um dos rapazes. Ela baixou o rosto e foi para o canto da quadra. Dentro do ônibus em movimento, pude ver a expressão delicada da infância, quando passou por mim, equilibrando-se pelo corredor. Quis cumprimentar a ex-colega, pensar em reavivar a sua memória, caso não se lembrasse de mim. Mas não seria ali. De repente, quando chegássemos ao nosso destino.

Passaram pela memória duas ou três cenas do conto do Camus. Olhei para o lado e vi Flávio acordar. Ele espreguiçou, bocejou. Disse que demorou uma vida para aprender a sair do lugar em que moramos, mesmo que fosse para passar uma tarde na estação termal da cidade vizinha.

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