Inquérito

abril 2018 / Inquérito / O ilusionista

Texto publicado na edição #216

O ilusionista

26 perguntas a Raphael Montes

> Por RASCUNHO

Raphael Montes, autor de Jantar secreto.

Raphael Montes, autor de Jantar secreto.

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro (RJ). Considerado um dos principais autores da literatura policial brasileira, publicou os romances Suicidas, Dias perfeitos, O vilarejo e Jantar secreto. Seus livros estão traduzidos em mais de 20 países e com os direitos de adaptação vendidos para o cinema. Atualmente, assina uma coluna semanal no jornal O Globo, apresenta na TV Brasil o programa sobre literatura Trilha de Letras, e escreve roteiros para cinema e para tevê.

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Aos doze anos, quando minha tia-avó Iacy, a quem dedico meu primeiro romance, me deu Um estudo em vermelho e A volta de Sherlock Holmes, do Arthur Conan Doyle, para ler em uma colônia de férias. Logo que comecei a ler, quis escrever. Na escrita, percebi que conseguia unir três coisas que eu amava: vestir personagens, trabalhar com a palavra e fazer mágicas. Escrever tem muito a ver com ilusionismo.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Escrevo ao lado de um enorme copo d’água para não ter que me levantar com frequência. Sou obcecado por formatação (Times 12, espaçamento 1,5, com o texto justificado). Em alguns momentos, gosto de escutar jazz ou tango instrumental. Em geral, prefiro o silêncio.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Leio cerca de cinco ou seis livros ao mesmo tempo, de ficção e não-ficção. Sempre algum tem a ver com a pesquisa do que estou escrevendo, outro é uma leitura mais “leve” para descansar a cabeça, outro é um clássico. Leio ao acordar, antes de tomar café da manhã ou pegar o celular. É um ritual delicioso.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Michel Temer, qual seria?
Crime e castigo. Não é possível que Temer consiga deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz, sem culpa.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Silêncio e muitas horas livres pela frente. De preferência, sem internet ou celular por perto.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Deitar numa rede e ler um livro que te faça esquecer do mundo.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Todo o dia em que avanço no processo de escrita do livro — seja no número de páginas, na compreensão das personagens ou no vislumbre do que tenho que escrever adiante.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Sou obcecado por método e organização. Para mim, um livro é como um projeto arquitetônico. Assim, meu maior prazer vem antes da escrita, na concepção da história. É quando os personagens começam a ganhar volume e fico tentando encontrar suas histórias. Depois, amo preparar o esqueleto da trama, marcar os pontos de virada, as curvas dramáticas, buscar o melhor ponto de vista, etc. Escrever é a parte mais dolorosa.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
As redes sociais, que consomem muito tempo; e o mundo lá fora, que está cheio de coisas legais e gente interessante.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
O esnobismo, as picuinhas e a hierarquia entre a dita “alta literatura” e a literatura popular, de gênero.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Ronaldo Wrobel, autor de Traduzindo Hannah e O romance inacabado de Sofia Stern. Seus livros são deliciosos de ler e bem escritos. É espantoso que ele não seja um sucesso de público e de crítica.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Se um viajante numa noite de inverno, do Italo Calvino, é um livro imprescindível. Livros de colorir, desenhar e pintar são descartáveis, sequer são livros, apenas encadernados.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
O ego do escritor, seu desejo de aparecer mais do que a própria história que tem para contar ou de se colocar como superior ao leitor. Na literatura, a conversa é de igual para igual, como uma boa conversa.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Acredito que a literatura seja o espaço onde tudo é possível, não há tema ou visão proibidos — ou, pelo menos, não deveria haver.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Não escrevo o tempo todo, mas penso e planejo o tempo todo. Por isso, já tive ideias para livros em momentos bastante inconvenientes, como durante uma missa de domingo ou numa festa animada. Nessas horas, gravo um áudio para mim mesmo ou escrevo a ideia no bloco de notas do celular para não perder. Às vezes, não lembro o que era no dia seguinte.

• Quando a inspiração não vem…
Transpiro e sigo escrevendo.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Patrícia Highsmith, apesar de sua fama de ser uma pessoa intragável. Bem, ninguém é perfeito.

• O que é um bom leitor?
Aquele que mergulha de cabeça na sua história, vira a noite lendo. E, no dia seguinte, indica aos amigos porque quer ter com quem conversar.

• O que te dá medo?
A morte. Sou um hedonista, apaixonado pelas coisas boas da vida. E tem muitas histórias que quero contar. Nesse sentido, a finitude me assusta.

• O que te faz feliz?
Minha família, meus amigos, meus cachorros, ir à praia, tocar saxofone, jogar vôlei, ler bons livros e ver bons filmes ou séries. Escrever só me faz feliz às vezes.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
A dúvida se estou escrevendo algo realmente interessante e pertinente; a certeza de que vou continuar tentando, sempre.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Encontrar o equilíbrio entre uma boa história, estilo e linguagem interessantes, além de trazer outras camadas além da trama pura. Não gosto de livros que apenas divertem com uma boa história, sem propor reflexões ou incômodos ao leitor. Não gosto de livros que são apenas masturbações linguísticas para o escritor mostrar sua erudição. Contar uma boa história é o mínimo que um escritor deve fazer. Alguns, nem isso fazem.

• A literatura tem alguma obrigação?
Não ser didática, nem panfletária ou moralista.

• Qual o limite da ficção?
A tevê e o cinema têm limites por questões de orçamento, de público-alvo e tudo mais. A literatura, não. Já escrevi sobre suicídio, machismo, homofobia e canibalismo. São temas pesados, mas lamentavelmente humanos. A questão toda está na abordagem desses temas.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Eu entraria na nave dele e diria “antes, leve-me ao seu”.

• O que você espera da eternidade?
Outro dia, entrei num sebo e encontrei um livro de 1940, escrito por um autor desconhecido que faleceu em 1929. De certa forma, esse escritor continua vivo todo dia que alguém em algum lugar do mundo lê sua obra. Para qualquer escritor, a eternidade é algo por aí.

 

 

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Jantar secreto
Raphael Montes
Companhia das Letras
368 págs.

 

 

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