Fora de sequência

janeiro 2012 / Fora de sequência / O homem que via além do amanhã

Texto publicado na edição #115

O homem que via além do amanhã

“Talvez a infância não contenha dias mais plenamente vividos do que aqueles que passaram sem acontecer nada, exceto as horas […]

> Por FERNANDO MONTEIRO

O escritor Júlio Verne

“Talvez a infância não contenha dias mais plenamente vividos do que aqueles que passaram sem acontecer nada, exceto as horas perdidas com algum livro preferido.”

A frase é de Marcel Proust que, em Sodoma e Gomorra, também evoca ― a respeito de um dos personagens ― o “tom atento e febril de um menino que lê uma novela de Júlio Verne”.

O autor do monumental A la recherche du temps perdu foi leitor de Verne, ao tempo em que os romances do criador da ficção científica surgiam, nas populares edições de Hetzel, é o que facilmente se deduz dessas e de outras menções de Proust. A própria “busca de um tempo perdido” (psicológico e mnemônico, no caso de Marcel) remete para as buscas ― todas as buscas ― e, acima de tudo, para aquelas do tipo iniciático, que é a nova chave de interpretação das novelas “para a juventude” deixadas pelo gênio modesto que foi “Júlio” Verne.

Antes, entretanto, reparemos no sintomático nome do escritor familiarmente “traduzido”, entre nós, de tal modo que resulta pedante e até inútil chamá-lo de Jules, como seria mais correto. Tornou-se “Júlio”, em Portugal e no Brasil, tal a intimidade com os leitores que se formaram lendo o escritor nascido em Nantes, onde seu pai ― Pierre Verne ― era um advogado com o perfil característico da burguesia francesa, e a mãe, Sophie Alote, a filha mimada de uma rica família de armadores.

O jovem casal foi viver na mansão dos Alote, na nobre rua de Kervegar, e foi lá que, em 9 de fevereiro de 1828, nasceu Jules, aquele que será sempre “Júlio” Verne ― no território luso-brasileiro da lembrança de quantos tiveram o privilégio de viver, na infância, as “horas perdidas” da perfeita evasão oferecida pelos livros do tio que, por assim dizer, “inventou” o futuro porque o via, naturalmente, nas dobras da sua prodigiosa imaginação, logo cedo alimentada pelas leituras de Swift, Defoe e Chateaubriand. E quando se assinala o centenário da sua morte (em Amiens, no dia 24 de março de 1905), um novo olhar para este admirável mundo novo em que penetramos nos leva a concordar com Marcel Lecomte, quando até o insuspeito intelectual francês afirma, em O tema do Grande Norte: “Havia mediunidade ou, pelo menos, vidência em Júlio Verne”…

As viagens extraordinárias
Foi aos 30 anos que Verne escreveu a sua primeira obra mais extensa: Cinco semanas em um balão, concluída em 1861. Ela traz todas as características “vernianas” típicas que fariam a sua fortuna ― e a de Hetzel ―, embora isso parecesse quase impossível quando ele saiu à cata de um editor, recém-casado (contra a vontade do pai) com uma viúva, mãe de duas filhas do casamento anterior.

Diante das novas responsabilidades para com uma família completa para sustentar, Júlio não desanimou em face das primeiras rejeições do livro (“geográfico demais”, para alguns editores) e só conseguiria uma chance de defender a obra, quando fez contato com Pierre-Jules Hetzel, através de Nadar, tipo curioso e aventureiro, amigo do editor que se dispôs a receber o autor daquela mistura de livro de aventuras com livro de viagens que, publicado, teve êxito imediato. Hetzel se tornou editor e amigo de Verne e só viria a recusar uma única das suas obras, nos termos peremptórios da carta mais tarde encontrada nos arquivos do escritor:

Meu caro Verne, eu daria não sei o que para não ter que escrever-lhe hoje. Você empreendeu uma tarefa impossível e tanto quanto os que tentaram o mesmo anteriormente não conseguiu realizá-la bem. (…) Está a cem pés de Cinco semanas em um balão. Se você reler o livro, concordará comigo. Não há uma só questão em relação ao futuro sério que esteja resolvida. (…) Eu veria como um desastre para seu nome a publicação do seu trabalho etc.

Já falaremos desse colossal erro de avaliação ― de resto, aceito pacificamente pelo autor de A volta ao mundo em oitenta dias ―, pois, antes, cabe uma palavra sobre a “reabilitação” desse autor considerado menor ou, no máximo, um bom divulgador do mundo das curiosidades científicas da sua época e também dos delírios de feira imaginosos da Paris fin-de-siècle. A palavra está com o filósofo Michel Serres:

Júlio Verne foi um mestre da mitologia moderna. As Viagens extraordinárias são a nossa Odisséia, em todos os sentidos, da Telemaquia à descida aos infernos, buscando o Minotauro, ou qualquer outro prodígio, pelo fio de Ariadne da Ciência que é tema, no final de contas, dessas Viagens que funcionam também como um Curso de Filosofia Positiva (de Hegel) ao alcance de todos, pois ambas portam a mesma cartografia do saber, a mesma ideologia do conhecer.

Para Serres, Viagem ao centro da Terra teria um fundo oculto de viagem “iniciática”, no sentido do périplo de Ulisses ― e também de Dante ― no qual

o circuito espaço-temporal e o ponto sublime, o ciclo enciclopédico e a experiência do sábio, suportam uma marcha de uma ordem bem diferente do modelo da antiguidade, na medida em que Júlio Verne é, na minha opinião, o único escritor francês que soube recolher e ocultar sob a “pele” de um exotismo pitoresco e de uma sabedoria ao gosto da época, a quase totalidade da tradição européia em matéria de mitos, esoterismo, ritos de iniciação, religiosos e de misticismo.

O que se busca ali? O Centro ― como em todas as viagens iniciáticas. Verne cuida, o tempo todo, de parecer que trata de uma busca totalmente física, na aparência de um romance limitado pelo gênero etc. Mas, um exame mais acurado revela o jogo atrás desse jogo: a narrativa começa no gelo e termina no fogo, conduzindo o fio frágil dessa aventura de descida a um “centro” físico porque Júlio Verne é um homem do seu tempo, tem fé na ciência e crê nela, supostamente, muito mais do que nos pontos cardeais dos mistérios órficos, eleusinos e osiríacos (e há outros).

Ora, Viagem ao centro da Terra ― um dos volumes das Viagens extraordinárias de Júlio Verne (o título geral) ―, embora se detendo, na superfície, sob a pele das coisas, é, na verdade, provavelmente uma reminiscência das antigas viagens iniciáticas (como a de Ulisses), pois nela se embutem o périplo “espaço-temporal, o ciclo enciclopédico e a experiência do sábio” como suportes de uma jornada de ordem mais profunda, e na qual aparecem a Dama das gestas (Eterno Feminino oriundo da figura da Grande-Mãe etc.), representada pela linda Grauben que Axel ― o jovem Cavaleiro de Verne ― encontra no começo e no fim da narrativa, prêmio a ser conferido ao herói como recompensa pela coragem e audácia empregadas na viagem (que ele temia, no início: mais um item na antiga iniciação dos cavaleiros errantes).

As Viagens contam com quatro títulos de enorme sucesso (ainda hoje, e mesmo entre os jovens do universo hightech). São eles: o encantador 20.000 léguas submarinas ― cuja versão cinematográfica virou um clássico da Disney ―, o já citado Viagem ao centro da Terra, o delicioso Os filhos do Capitão Grant, e o mais conhecido de todos os livros de Verne, A volta ao mundo em oitenta dias.

A idéia do périplo mundial surgiu quando o escritor leu, em 1872, um anúncio da agência de viagens Cook a respeito de poder dar-se a volta ao planeta, em navio e por trem, os meios seguros de transporte de um século 19 cheio de charme nos romances do francês que chegou a imaginar algo como o Concorde ― exatamente como o fim das viagens como processo de transformação dos viajantes.

Na cabeça de Verne, a viagem era um sair de si mesmo ao encontro do Outro, com tempo para amadurecer, da França para o Japão, ou deste para a Noruega, passando pelas Ilhas Marquesas, pelo Mar de Coral ou pelas Maldivas (recentemente arrasadas pelo tsunami ― o que teria interessado o curioso Júlio), pelo Mar de Omã e pelo Estreito de Gibraltar até Portugal e, mais além, no meio da névoa misteriosa da baía de Vigo…

A antiviagem ― menos para o autor de Miguel Strogoff do que para nós, seus leitores de um século depois ― é justamente o que hoje fazemos: tomamos um superjato despressurizado e gelado, nas alturas, para sobrevoar todas as diferenças e diversidades das culturas, entre dois cochilos, na cabine irreal do invento mais-pesado-do-que-o-ar de Santos-Dumont (que admirava Verne que admirava Leonardo da Vinci que admirava Homero)…

Paris no século 20
Esse é título do romance que Hetzel se recusou a publicar, em 1864, através da carta da qual lemos, já, um fragmento.

Dentre as muitas “obras de antecipação” de Júlio Verne, Paris no século 20 foi a única que permaneceu inédita até 1995, quando os 90 anos da morte do mais popular autor da França fizeram a editora Hachette lançar a obra desconhecida, com prefácio do conde italiano Piero Gondolo Della Riva, leitor apaixonado e estudioso da obra do escritor máximo da sua juventude.

O conde mantém, em Turim, um museu particular dedicado a Júlio Verne, com centenas de primeiras edições das suas obras, milhares de traduções em todas as línguas vivas etc., além de móveis e objetos que pertenceram ao escritor. O museu também dispõe de cerca de 32 mil documentos (originais, cartas, cartazes das peças e dos filmes baseados na obra de JV), selecionados ao longo de mais de 40 anos, por Della Riva, que é quem nos conta sobre a descoberta da inédita visão de Paris no século que já se tornou passado:

Em 1986, Jean, o bisneto de Verne, mudou-se de Toulon para outra cidade do Sul da França. Antes de trocar de casa, decidiu abrir um cofre fechado, herdado do seu avô, Michel (o filho com quem o escritor nunca se entendeu bem). Jean pensava que o cofre estivesse vazio, mas quando o abriram com dinamite, descobriram ali o manuscrito de Paris no século 20. Era um texto tipicamente de Verne, escrito só numa metade da página…

Cada metade dessas páginas do inédito revelou um Júlio Verne mais do que nunca sombrio na sua visão da sociedade francesa do, então, “futuro” remoto. A marca do autor ― as antecipações no tempo ― está presente, aqui e ali, na imaginação de um transporte urbano rapídíssimo, movido a gás, ou na descrição de um mundo feérico, iluminado eletricamente, com grandes navios fabricados em super-estaleiros e o uso de alumínio em larga escala etc., porém esse não é o traço dominante do livro sem aventuras que foi rejeitado por Hetzel, categoricamente.

O que domina a visão de Paris no século recém-encerrado é o filtro de um pessimismo total, inclusive no que diz respeito aos avanços da ciência. Na obra que Verne aceitou não publicar, tais “avanços” ― em 1960 (ano em que transcorre a narrativa) ― serviram apenas para desnaturar e “mecanizar” a vida dos europeus e dos franceses em especial. Verne vê o amanhã como o eclodir de uma época insuportavelmente “pragmática”, e como que sobre a influência do “Grande Norte” que controla seus cidadãos tal e qual como em 1984, o romance de George Orwell, também profético. Na obra de Verne, a educação tornou-se um negócio, meramente, e há uma certa “Sociedade Geral de Crédito Instrucional”, que cuida da preparação dos jovens para a vida não só prática, mas destituída de quaisquer dos prazeres do espírito: “No Conselho de Administração, nenhum nome de sábio ou professor que possa intranqüilizar o empreendimento comercial da educação etc.”.

Para Piero Della Riva, o livro reflete um pessimismo que, na verdade, já estava nos primeiros contos de JV, assim como na psicologia de personagens como Nemo e outros amargos desiludidos que não faltam na fase madura do mestre da literatura de imaginação. O conde italiano fascinado pelo velho “Júlio” finaliza com um sorriso de adesão à melancolia final de Jules, vivendo problemas familiares (foi ferido por um sobrinho que tentou matá-lo) e angústias insuspeitadas: “Paris no século 20 pode ser considerado também como uma enciclopédia do pensamento de Verne, isto é, uma visão trágica das relações entre os seres humanos, marcadas pela solidão a dois e na multidão”.

A Academia vesga ― como as todas as academias
Por mais incrível que pareça, um ficcionista como Verne ― admirado, amado, em vida, no mundo inteiro ― sofria pelo fato de não ter adentrado a poeira dos salões da Academia Francesa. Pedante, vesga (para não fugir da regra), esta nunca o aceitou, com a magnanimidade entusiasmada com que a nossa ABL, por exemplo, recebeu a subliteratura de um Paulo Coelho. O grande Júlio Verne não entrou na de lá, e morreu ressentido pelo fato de não envergar o fardão mofado, a espada bizarra e o chapéu de plumas sobre a sua cabeça coroada nos anais da literatura, no mínimo como o criador da science-fiction.

Ouçamos, por fim, as suas próprias palavras a respeito do assunto menor (que o gênio, sem vaidades, não percebia como tal), em entrevista de 1893, ao jornalista Robert Sherard:

Ao ouvir minhas queixas de que não reconheciam meu lugar na literatura francesa, Alexandre Dumas costumava me dizer: “Você deveria ter sido um escritor americano ou inglês. Então, seus livros, traduzidos para o francês, teriam lhe trazido uma enorme popularidade na França, e seria considerado por seus compatriotas como um dos maiores mestres da ficção”. Mas sendo as coisas como são, não sou considerado na literatura francesa. Há 15 anos, Dumas propôs meu nome para a Academia Francesa, mas isso nunca deu em nada. Quando recebo cartas da América endereçadas a “Monsieur Jules Verne, da Academia Francesa”, eu sorrio… A grande mágoa da minha vida é não ser levado em conta na literatura francesa.

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