Ensaios e Resenhas

novembro 2016 / Ensaios e Resenhas / O grande sedutor

Texto publicado na edição #199

O grande sedutor

Inéditos no Brasil, os contos do norte-americano Gordon Lish são o recorte certeiro da realidade

> Por Jonatan Silva

Gordon Lish, autor de Coleção de ficções 1

Gordon Lish, autor de Coleção de ficções 1

O escritor norte-americano Gordon Lish é uma figura singular no meio literário. Lembrado — e muitas vezes venerado — pelos nomes que editou ou publicou em sua revista, a Genesis west — que tem no currículo boa parte da geração beat, como Neal Cassady, Jack Keroauc e Allen Ginsberg — e por sua parceria com Raymond Carver, um grande amigo seu, Lish é um brilhante contador de histórias.

Escrever sobre comer fezes, acreditar que Dean Moriarty realmente existiu e colocar em xeque o talento de Philip Roth, Paul Auster e David Foster Wallace, para citar só três exemplos, é coisa de alguém que, no mínimo, tem culhão. No final das contas, tudo isso só aumenta a mitologia que o cerca.

O autor de 82 anos, que desembarca agora no Brasil com o primeiro volume de seus contos Coleção de ficções 1, é uma grande incógnita. Em uma entrevista para a revista Paris Review, em 2005, declarou: “eu não sou escritor. Nunca me imaginei como escritor”. Menos avesso que J. D. Salinger ou Thomas Pynchon, Lish sempre se mostrou reticente a assumir o papel de protagonista, de fazedor de sua própria obra e enveredou pelos caminhos do ghostwriting.

Preâmbulo, texto que abre a coletânea, já dá a pista do que esperar: não é bem um prefácio, mas também não é exatamente um conto. É um texto em estado puro, vagando entre o limite tênue do desabafo, da explicação e, claro da literatura — uma literatura de sobrevivência e autoconsciência.

A recusa, que é bem diferente da renúncia, parece ser a melhor definição de sua prosa. Se Kafka devasta a burocracia em seus livros, Lish, como bom herdeiro do escrivão de Melville, prefere criar situações para serem colocadas de lado por seus personagens. Tudo que sei e Como escrever um poema são antíteses do que propõem: no primeiro conto o narrador esconde o jogo, manipula o leitor; no outro, dispara: “Talvez eu não goste de poetas — ou de pessoas”. Não é preciso explicar muito.

Lish não é um homem de receitas, não existe nada pronto em seus contos, é como se o leitor e autor levitassem até encontrar o zênite e, lá do alto, fossem arremessados. Se Gordon Lish fosse um deus, seria por certo um demiurgo, capaz de arrasar toda a humanidade em busca de um pouco de diversão.

Citado sempre como um autor controverso, Gordon Lish nunca se esquivou de levar sua literatura até as últimas consequências. Para Jerome — com amor e beijos é, ao mesmo tempo, uma paródia de Para Esmé — com amor e sordidez, de Salinger, e uma homenagem ao autor de Apanhador no campo centeio.

O conto, que receberia em 1984 o prêmio O. Henry Award, narra a tentativa frustrada do pai de se (re)aproximar do filho ermitão e é a sede de Lish pelo sublime e pelo etéreo, qualidade que diria jamais ter chegado perto. Ironicamente, cada linha carrega uma busca por sua própria individualidade e alheamento ao que o cerca.

Citado sempre como um escritor controverso, Gordon Lish nunca se esquivou de levar sua literatura até as últimas consequências.

Coração e mente
Gordon Lish não se deixa levar pelas emoções. Os textos são escritos com o coração e revisados e editados com a mente, o que explica o retorno do autor aos relatos que fazem parte da coletânea. Pouco a pouco as “novas versões” se tornam mais acessíveis, palatáveis e diretas — Lish corta e recorta, extrai o que pesa, coloca de lado a gordura dos primeiros trabalhos e cria uma opção definitiva completa e bem aparada com suas mãos de tesouras.

Por isso, não espanta a mira certeira de Sou largo, Imaginação e Três, além de, obviamente, mostrar que o escritor é também um bom editor de si mesmo — talvez a melhor opção possível. “Se fosse capaz de criar coisas como [Don] DeLillo e [Comarc] McCarthy não creio que insistiria em corrigir tanto”, confessou ao El País por ocasião do lançamento do livro Epigraphy.

Sua destreza com a linguagem é cirúrgica, capaz de transformar situações simples, como no conto Medo: quatro exemplos, em um labirinto godardiano.

A revista The Believer definiu Lish como o Andy Kaufman literário, o que faz todo o sentido. Tateando um tom minimalista, o autor de Dear Mr. Capote coloca em um mesmo livro vidas em paralelo, histórias que se cruzam e que jamais vão se cruzar.

Em tudo o que já escreveu, de cartas a romances, Lish deixa claro, com todas as letras, que é um escritor/editor típico, aquele que não sabe fazer outra coisa a não ser manusear palavras e precisa delas para manter-se vivo e alimentado.

Laços de família
Enquanto há quem o “culpe” pelo estilo de Carver, acusando Lish de ter formatado os célebres Fique quieta, por favor, Iniciantes e Do que estamos falando quando falamos de amor a seu bel-prazer, tem quem o defenda argumentando que não fazia mais que o seu (sujo) trabalho de editor. Anos mais tarde, Tess Gallagher, viúva de Raymond, também seria apontada como profanadora dos textos do marido. (Mas aí já é polêmica para outro texto.)

Seu filho, Atticus Lish, que terá seu primeiro livro editado em solo tupiniquim em breve pela Rádio Londres, não parece tão confiante da influência do pai sobre si. Questões familiares, por sinal, não são querelas tão fáceis de dissolver no universo do contista. Peste entre tias e Para Rupert — sem promessas são desenhos de relações pouco lisonjeiras.

Coleção de ficções 1, pontapé de uma série de quatro livros, revela um homem em fúria, mas com um único desejo em mente: a sedução. Para Lish, a escrita deve obrigatoriamente seduzir leitor, levá-lo pela mão até a cama. E, no caso, a sedução do e pelo texto só cabe porque “tudo ao nosso redor ou dentro de nós é narrativa” e “a narrativa é o limite de si mesma”.

A literatura de Lish é um mergulho mar adentro, uma impressionante experiência de confronto entre o poder da representação da realidade. Quase cego de um olho, o autor de Extravaganza ainda enxerga melhor e com mais profundidade que muitos de nós — e consegue, com extrema proeza, dissecar tudo a uma distância segura.

 

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Coleção de ficções 1Gordon Lish
Trad.: Ismar Tirelli Neto
Numa Editora
152 págs.

 

 

O AUTOR
Gordon Lish

Nasceu em Hewlett, Nova York, em 1934. Trabalhou como editor de ficção para a revista Esquire e na prestigiada editora Alfred A. Knopf. Lish é autor dos romances Dear Mr. Capote (1983) e Peru (1986), além dos livros de contos What I know so far (1984) e Self-imitation of myself (1997). Escreveu também gramáticas da língua inglesa e organizou o livro de entrevistas Why work (1966).

 

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