Ensaios e Resenhas

abril 2013 / Ensaios e Resenhas / O gigante irresoluto

Texto publicado na edição #157

O gigante irresoluto

Lançamentos atestam a maestria de Ivan Turguêniev, que se absteve de questões políticas em prol de uma grande obra literária

> Por MARCELO LAIER

Ivan Turguêniev por Robson Vilalba

Ivan Turguêniev por Robson Vilalba

O tempo pode voar como um pássaro, mas pode também se arrastar como um verme. O aforismo ilustra à perfeição a recepção crítica da obra de Ivan Serguêievitch Turguêniev (1818-1883), dividindo-a em duas partes: dos primeiros contos publicados em periódicos na década de 1840 até o lançamento de Pais e filhos (1862), ela foi recebida com crescente admiração e louvor pela intelligentsia de seu país natal; porém, impressionável ao extremo, o autor assustou-se com o maelstrom deflagrado por sua obra máxima(os jovens radicais dos “anos 1860” chegavam a queimar em público seu retrato)e refugiou-se definitivamente na França, voltando raras vezes à Rússia, publicou contos esparsos e somente mais dois romances, Fumaça(1867) e Terra virgem(1876), passando a ser avaliado como um ultrapassado e frívolo esteta ocidentalizante.

Inversamente, por motivos óbvios, na Europa culta e burguesa sua reputação não diminuiu ao longo de sua vida; era um dos pilares dos jantares dos irmãos Goncourt, admirado por, entre outros, de Henry James a Flaubert, de Carlyle a Zola. Era amável e ponderado, falava todas as línguas indo-européias. Foi o primeiro escritor russo a fazer sucesso no Ocidente. Em certo sentido, foi um demiurgo de seu país aos olhos do Ocidente, já que os europeus tinham grande dificuldade em entender aquele país vasto, feudal e semi-primitivo.

Para os reféns da última flor do Lácio, até pouco tempo atrás sua obra se resumia a Pais e filhos, a novela Ássia e uma edição da década de 1980 de seu magnífico primeiro romance Rúdin. No entanto, nos últimos meses parece estar em curso uma temporada Turguêniev. Ao final do ano passado foi lançada uma nova edição de Rúdin e finalmente agora teremos Memórias de um caçador(Editora 34, tradução de Irineu Franco Perpétuo, no prelo), seu livro de contos publicado em 1852, que imediatamente o estabeleceu como um mestre da prosa russa.

Caçador de histórias
Em Memórias de um caçador, as bases do econômico e rigorosamente organizado universo ficcional de Turguêniev são estabelecidas, e seriam seguidas à risca nos seus romances: o ponto de partida de sua escrita é a vívida construção de personagens a partir de experiências autobiográficas ou pessoas reais que o escritor conheceu, descrições idílicas e enlevadas da natureza e exposição das idéias através de agudos diálogos perpassados por aforismos (como o que abre este texto), naquele método que por acaso é a base do pensamento ocidental, o socrático.

Muito mais do que caçar tetrazes, codornizes e galinholas, observar embevecido toutinegras e rubirruivos ou uma poética alvorada rebrilhando sobre bétulas e tílias, o narrador é um caçador de histórias, ecoando aquele famoso verso de Pope: “Todo homem é minha caça”; interessa-se pelas vidas de mujiques como Stiópuchka, que não sabia de manhã o que iria comer à noite (Água framboesa); do severo guarda florestal Biriuk; da paralítica serva Lukéria num conto que faria uma pedra chorar (Relíquia viva); do ancião Ovciánikov, pequeno proprietário rural que recorda a velha ordem dos tempos de Catarina, a Grande (O Odnodvóriets Ovciánikov); ou dos meninos que contam ao fogo crendices camponesas, histórias sobrenaturais da mitologia eslava, povoadas por náiades (russalkas) e outras criaturas do além que habitam florestas e rios (O Prado de Biejin).

É de se espantar que o livro tenha sido aprovado pela censura do tsar Nicolau I. Como nos informa o tradutor Irineu Franco Perpétuo no posfácio, o autor submeteu o livro ao censor moscovita, menos rígido que os de São Petersburgo. Ao autorizar a publicação do livro, o censor depois perderia o emprego… Turguêniev seria condenado a um mês de prisão domiciliar em Spásskoie logo depois por um texto sobre Gógol, no qual o chamava de “grande”, uma compensação ao fato de Memórias ter sido publicado. Ao final da vida, Turguêniev ainda se orgulhava de supostamente ter influenciado com este livro o tsar Alexandre II a decretar a libertação dos servos em 1861, o episódio mais importante da história russa do século 19.

Homens supérfluos
A partir do Memórias, sua carreira cresce vertiginosamente com a publicação de quatro romances: Rúdin (1856), Ninho de fidalgos (1859), Na véspera (1860) e Pais e filhos (1862). Nestes, sobretudo em Rúdin e Pais e filhos, Turguêniev retrata, ora com amargo sarcasmo, ora com grandiosa compaixão, a existência do “homem supérfluo”, que ele mesmo já havia nomeado no conto Diário de um homem supérfluo (1852) e esboçado em outro conto incluído nas Memórias, Hamlet do Distrito de Schrigý. Assim define Isaiah Berlin, em The russian thinkers, este tipo onipresente na literatura russa do século 19, estes Hamlets andarilhos invariavelmente condenados à indolência e à aniquilação:

Às vezes cômico, às vezes trágico, freqüentemente confuso, errante e ineficaz, ele é incapaz de qualquer falsidade, ao menos de falsidades irremediáveis, ou de algo em qualquer grau sórdido ou traiçoeiro; às vezes frágil e autocomiserativo, como os heróis de Tchekhov — às vezes forte e voluntarioso como Bazárov em Pais e filhos — ele nunca perde a dignidade interior e personalidade moral indestrutível em contraposição aos filisteus ordinários que formam a vasta maioria da sociedade, que parecem ao mesmo tempo patéticos e repulsivos.

No entanto, parece haver um emprego abusivo desta categoria heterogênea do “homem supérfluo” entre os críticos. Irving Howe, por exemplo, no ensaio Turguêniev: A política da hesitação, fixa a genealogia iniciando com o personagem Chátski, da comédia A desgraça de ter espírito (1840), de Griboiedov, e terminando com o menchevique e antípoda de Lênin, Julius Mártov. O próprio Isaiah Berlin define como o protótipo deste (anti)herói ninguém menos do que o fundador da crítica literária de cunho social e moral, considerado a consciência da nação: o vulcânico e mítico Vissárion Grigórievitch Bielínski (1811-1848).

Na verdade, tem-se a impressão de que todo e qualquer representante da pequena classe intelectualizada, seja ficcional ou real, seja de origem nobre (Herzen, Turguêniev, Bakunin) ou filho de pobres aldeões (Rúdin, Bazárov, Bielínski) da Rússia tsarista entre as décadas de 1840 e 1860 pode ser considerado um “homem supérfluo”. Não há espaço para eles na opressiva ordem social dominante, alicerçada na tríade formada por autocracia, Igreja Ortodoxa e o modo de vida nacional, conforme descrito na famosa carta de Bielínski a Gógol. Os jovens radicais dos anos 1840, aquela década notável, haviam depositado todos os seus sonhos nos românticos alemães e nas idéias liberais representadas pelo frágil casamento entre proletariado e burguesia para mudar a Rússia das neves eternas; após o turbulento ano de 1848, ficaram órfãos.

Tanto Rúdin, dotado da “música da eloqüência”, quanto o rude niilista estudante de medicina Bazárov, que nega todas as instituições e autoridades, e para quem só existe aquilo que pode ser comprovado pelas ciências naturais, entram naquele mundo semi-feudal das mansões senhoriais desempenhando o papel de intelectual de estimação. A mansão senhorial de que Rúdin ilusoriamente “toma posse”, comandada por Dária Mikháilovna, é um mundo deliberadamente medíocre, feito para Rúdin brilhar. Já em Pais e filhos, os torneios verbais entre Bazárov e Pável Kirsánov, o aristocrático dândi que borrifava água de colônia no bigode, são travados num nível de igualdade intelectual, naquela imemorial incompreensão entre gerações.

O amor raramente é consumado na ficção de Turguêniev, quando não deliberadamente sabotado. O pusilânime Rúdin e o niilista Bazárov acabam por se apaixonar por ricas latifundiárias, respectivamente, Natália Aleksêievna Lassúnskaia e Ana Serguêievna Odíntsova (uma verdadeira “Dalila da casa de campo”), para tão somente serem humilhados, pois em sua alienação não percebem que aquele mundo é fechado para eles, regido por dotes e casamentos entre iguais.

O credo de Turguêniev
Uma questão inescapável é se Turguêniev estaria no mesmo nível de seus contemporâneos Dostoiévski (três anos mais jovem) e Tolstói (dez anos mais jovem). Suas relações foram permeadas por escassos elogios mútuos e numerosas cartas belicosas; Dostoiévski, por exemplo, satirizou-o na figura do vaidoso escritor Karmázinov em Os demônios. Diferentemente de Tolstói e Dostoiéski, Turguêniev nunca foi um pregador. No impressionante ensaio Turguêniev e a gota vivificante, Edmund Wilson resolveu esta questão: “É impossível não sentir que Turguêniev, o ateu, era muito mais bem-sucedido na prática das virtudes cristãs do que o homem santo de Iásnaia Poliana ou o criador de Aliocha Karamázov”. Pode-se acrescentar que a ficção de Turguêniev nunca ousou vôos psicológicos nos profundos recessos da alma, ainda que em alguns momentos ela tenha ido tão longe quanto seus contemporâneos, especialmente nas páginas finais de Pais e filhos.

Toda a obra de Turguêniev parece ter sido escrita como se fosse vigiada pelo espectro do amigo Vissárion Bielínski, e em muitos momentos seu espírito titubeante, avesso a extremos políticos, pode ter pensado em desistir. Sua recusa em se posicionar politicamente, que irritava tanto o editor radical Dobrolíubov quanto o reacionário Kátkov, era reflexo de sua própria personalidade. Mas o espectro de Bielínski não o deixaria em paz ao longo da vida. Todas as questões em literatura eram para o mercurial crítico ao final sempre morais, ainda mais num país como a Rússia do século 19, brutalizado, analfabeto e miserável. Turguêniev o homenageou de todas as formas, no personagem Pokórski em Rúdin, na dedicatória de Pais e filhos, ao fazer de Bazárov um pobre filho de um médico do exército assim como Bielínski, e por fim, em seu desejo de ser enterrado ao seu lado em São Petersburgo.

Na batalha travada, cuja arena era o campo literário, Turguêniev foi atacado pelos extremos do espectro político. Mas posições políticas podem ser circunscritas por um determinado período histórico. Na verdade, o credo que Turguêniev realmente jamais se afastou foi aquele que W. H. Auden estabeleceria tempos depois: “A única obrigação do poeta com a sociedade é escrever bem”.

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Ivan Turguêniev

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Ivan Serguêievitch Turguêniev (1818-1883) nasceu em Spásskoie, na província de Oriol, filho da tirânica e cruel Varvara Petrovna Lutovinova, herdeira de várias propriedades rurais, e do coronel da cavalaria russa Serguei Nikoláievitch Turguêniev. Freqüentou a Universidade de Moscou, partindo depois para estudos na Alemanha. Viveu grande parte da sua vida entre Baden e Paris. Faleceu em sua propriedade de Bougival, nos arredores de Paris, mas atendendo a seu desejo foi enterrado em São Petersburgo.

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Ivan Turguêniev
Trad.: Fátima Bianchi
Editora 34
208 págs.

Pais e filhos
Ivan Turguêniev
Trad.: Rubens Figueiredo
Cosac Naify
368 págs.