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novembro 2016 / Fora de sequência / O frêmito pelos melhores autores de todos os tempos da semana passada

Texto publicado na edição #199

O frêmito pelos melhores autores de todos os tempos da semana passada

Minha ignorância dos finlandeses jovens que escrevem obras-primas é enorme

> Por FERNANDO MONTEIRO

Entre os meus hábitos mais antiquados, está o de reler os clássicos e até os clássicos que não são assim tão “clássicos”, mas foram publicados há muito tempo (bote tempo nisso) e que eu tento esconder quando encontro um amigo literato — se é que ainda existem literatos — porque portá-los, tê-los em mãos, estar com clássicos e menos clássicos significa que não estou atualizado com os melhores autores de todos os tempos da semana passada, surgidos ontem à noite, publicados hoje de manhã e há meia hora consagrados por todos os frequentadores viciados nas livrarias Cultura, autores esses que brilham em capas geralmente pop, no meio das obras de direita atualmente expostas com destaque nas livrarias da família Herz.

Esse parágrafo de abertura, tão longo, é antiquado também.

Porém o meu traço mais démodé é usar o adjetivo démodé (aliás, é usar adjetivos — em qualquer língua) e ler e reler velhos livros que muitos nem leram porque se tornaram os geeks da literatura, estão tecnologicamente lendo, no Kindle, o último barcelonês (ou americano mesmo) recém-editado e premiado e falado e coisa e tal.

Minha ignorância dos finlandeses jovens que escrevem obras-primas é enorme.

Desconheço o descendente direto de paquistaneses de Goa que escreveu um romance extraordinário sobre um jovem que sai de casa para contar em quantos restaurantes do mundo é possível encontrar moscas que não precisam ser tangidas pela mão porque são moscas que desenvolveram uma neurose que as impede de pousar em comida seja normal ou kosher — sim, porque muitos dos novos mais “novos” são irmãos raciais de Bellow, Singer, Malamud e o Roth sobre o qual estoy a escrever para o Suplemento Cultural Pernambuco —, de maneira que me tornei de algum modo valioso, afinal, para qualquer editor que acaso precise de resenhista de escritores clássicos ou antigos ou simplesmente velhos, muito velhos como, por exemplo, Joseph Conrad, Thomas Hardy, Herman Melville (sem falar do meu verdadeiro vício em T. E. Lawrence que as pessoas liquidam — quando liquidam — simplesmente com o longo filme Lawrence da Arábia e fim de papo).

Meudeus, eu tenho tanta vergonha de ser assim! Eu poderia liquidar também Conrad como, há muito tempo (minhas citações todas são velhas e eu ignoro os críticos neo-genéticos que incorporaram o estruturalismo pós-Degarde de visão litero-hermenêutica à chamada Nova Crítica), há muito tempo, dizia eu, olhem só, eu ainda escrevo “dizia eu”, há muito tempo, repito (como um maluco perseguido por um homem são com uma navalha), o esquecido J. B. Priestley escrevia, a respeito do autor de O coração da trevas, no seu já não lido Literature and western:

A nova crítica do após-guerra, excitada a respeito de Joyce, Proust, Kafka, esqueceu-se de Conrad, embora haja indícios, agora, quando o Simbolismo em ficção está sendo tão elogiado (e tem sido retardadamente descoberto nele), de que receberá ainda a atenção e o reconhecimento que bem merece. Seja como for, reconheçamos que o autor de Lord Jim é um daqueles escritores cuja importância achamos difícil estimar, exatamente porque em alguma época de nossas vidas somos completamente fascinados por eles, e, depois, porque já recebemos tanto deles, que perdemos, mais tarde, um pouco do primeiro encantamento.

O elogio também soa como um clichê preguiçoso e só em parte poderia ser endossado pelo mais novo filho de Villa-Matas (que é o novo escritor up-to-date). E Vila-Matas não se escreve com dois eles, Monteiro, você está mencionando o espanhol ultrapassado somente porque não circula entre as girândolas recém-arrumadas.

Não, não circulo mesmo (nem tomo o cappucino), nem sei quem são os mexicanos da fronteira que conquistaram o prêmio Google de Literatura e, assim, substituíram os Matas, os mitos, os mortos todos das letras finadas como Shakespeare, escrevendo no “inglês de ouro” da era elisabetana que ainda ressoa no polonês Józef Teodor Konrad Nalecz Korzaniowski, (nascido em 3 de dezembro de 1857, em Berdiachev, na Ucrânia Polonesa), os dados não mais importam pra leitores que também pensam que Nabokov é tão somente o…

Sou antiquadamente fascinado por escritores que vieram a escrever em idiomas estrangeiros para eles, como o fez Józef Teodor — no francês dos livros da casa cracoviana de um tio (irmão do seu pai exilado no norte da Rússia) e no inglês do capitão da marinha mercante que reuniu toda a obra do Bardo e levou para bordo dos seus navios perdidos nos mares do Sul.

Quem é antiquado guarda informações desse tipo e relê mesmo as obras menores do anglo-polonês (Almayer’s Folly, An Outcast of the Islands, The Nigger of the Narcissus – A Tale of the Sea), com o sabor de passado remoto que significa estar lendo Conrad a tornear aquelas frases com a sua hesitação calculada, como se não pretendesse dizer o que está dizendo (modernidade que se perdeu na nova literatura com uma nova hesitação que, na verdade, não hesita).

Joseph Conrad é um dos escritores mais queridos dos desatualizados (como eu), nas suas três obras-primas (Lord Jim, o já citado Heart of darkness e Nostromo) equivocadamente tomadas até como leitura juvenil, em edições condensadas que fizeram também do rochedo selvagem que é Moby Dick, do já citado Melville (o autor mais próximo do pessimista de Victory — ou o contrário?). Eis aí um paralelo que faltou ser feito, talvez por Edmund Wilson ou Carl Van Doren, críticos antigos, sebentos, cheirando a mofo nesta idade crepuscular da literatura pós-moderna que não fizeram mais do que — nas suas melhores performances — tentar trabalhar nos veios da mina ainda aberta de um Nostromo ou seguindo ainda no curso da perseguição feroz da baleia branca da alma, essa palavra tão velha “que já pode morrer”.

Vou me esforçar ao máximo (prometo!) por escrever sobre figuras de Bolaños para cá, neste jornal tão antenado, todos os meses, na maior parte das colunas e dos textos de colaboradores partidos do âmago da Cultura para nos ensinar sobre a mais extrema atualidade. Etc. (ainda uso “etc.” — e até na capa do Aspades).

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