Ensaios e Resenhas

julho 2011 / Ensaios e Resenhas / O fogo em vida

Texto publicado na edição #136

O fogo em vida

  Ana Paula Maia escreveu boa parte de Carvão animal com uma reprodução em gesso da própria arcada dentária lhe […]

> Por LUIZ ANDRIOLI

Carvão animal, de Ana Paula Maia, trabalha com a questão da identidade do ser humano em situações extremas. Foto: Matheus Dias

 

Ana Paula Maia escreveu boa parte de Carvão animal com uma reprodução em gesso da própria arcada dentária lhe observando. Ela fez o molde em um consultório especializado e recomendou para os profissionais que guardassem uma cópia da peça. A escritora lembra que em uma última instância, é a partir dos dentes que o corpo pode ser reconhecido no caso de uma tragédia. A ideia abre o mais novo romance da escritora carioca.

Carvão animal trabalha com a questão da identidade do ser humano em situações extremas. Assim como a autora, que trouxe para o seu gabinete de trabalho algo do crânio de Hamlet traduzido em gesso. “No fim o que resta são os dentes”, alerta o narrador, logo no começo do romance que encerra a trilogia trabalhada por Ana Paula. “Aqueles que não possuem dentes se tornam menos que miseráveis. Tornam-se apenas cinzas e pedaços de carvão. Nada mais”, conclui o raciocínio, para então nos jogar em Abalurdes, a cidade onde se passa esta história de extremos: frio e calor.

Li Carvão animal em um dia de muito frio na cinza Curitiba. Estava imerso dentro de um pesado cobertor, sentado em uma aconchegante cadeira de balanço. Aos meus pés, um aquecedor. Numa brincadeira de criança irresponsável, aproximava e afastava meu corpo da resistência quente, sentindo até o limite o calor do aparelho. Nas pausas, me levantava para tomar água ou atender ao telefone. Nestes momentos, era o frio que invadia meu corpo. O comportamento de leitor de domingo me remeteu ao ambiente criado por Ana Paula Maia em seu romance. Os personagens vivem em seus extremos. A cidade de Abalurdes é fria, cinza e pesada. Em contrapartida, reúne minas e crematórios, ambientes insólitos, quentes e abafados.

O pacto de colocar seus personagens em situações limite cria possibilidades fortes. E os deixa de alguma forma dignos, donos de uma lógica própria que permite lidar com uma naturalidade diante dos extremos que convencem dentro da trama. A autora trabalha a partir de um estofo de pesquisa, mas não se prende a detalhes técnicos sobre a cremação de corpos ou de combate a incêndios. E esta liberdade com a própria investigação funciona.

Aliás, falando sobre o fogo em vida, um dos personagens mais interessantes é o bombeiro Ernesto Wesley. Em um mundo de culto aos vencedores, ele é apresentado como alguém que tem “fracassos maiores do que sucessos”, o que nos deixa ombro a ombro com este herói portador de uma doença rara: é insensível ao fogo. Não sente as dores do perigo, por isso “é o melhor no que faz, mas pouca gente sabe disso”. Este conhecimento de suas qualidades absolutamente importantes para salvar outras vidas (e colocar em risco a própria), mantém o personagem em um tom de introspecção, uma aceitação implícita e silenciosa de sua sina. Ele segue combatendo seus incêndios e varrendo as próprias cinzas, enquanto resgata o que a vida não se encarregou de consumir.

Já sobre os trabalhadores da mina de carvão de Abalurdes, Carvão animal traz um trecho bastante significativo: “Para atingir níveis profundos dentro da escuridão é preciso ter coragem de ir aonde ninguém quer ir”. O bombeiro que não sente suas dores do fogo embarca nesta idéia, encara as chamas e os chamados que podem colocar fim a sua própria dor. Os mineiros também passam dias sem ver a luz do sol cavando embaixo da terra em nome de uma sobrevida. De alguma forma, falamos também metaforicamente sobre a arte da escrita, este impulso de coragem que não deve ser controlado pelas dores que muitas vezes nos impedem de escavar mais fundo ou de entrar em cômodos tomados por labaredas. A literatura escava, invade… E, talvez, em alguma instância, salve.

Este desejo de ir aonde ninguém vai é o que mais me chama a atenção na escrita de Ana Paula Maia, escritora da nova geração que procura exercitar a alteridade trabalhando preferencialmente com vozes masculinas. É inegável que a empreitada de Carvão animal tem seu sucesso. Fico apenas com a impressão de que em alguns momentos a viagem poderia ser ainda mais profunda. Talvez não seja a proposta de Ana Paula Maia, que trabalha com uma linguagem mais rápida e direta. De qualquer forma, sinto que o seu poder de escavação tem fôlego para imersões rumo a lugares (leia-se sentimentos) ainda menos visitados.

LEIA PARTICIPAÇÃO DE ANA PAULA MAIA NO PAIOL LITERÁRIO.

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Ernesto Wesley cria a minhoca vermelha da Califórnia. Essa minhoca prefere o esterco animal e é excelente na produção de húmus, que nada mais é do que a bosta da minhoca que resulta numa substância parecida com pó de café. O húmus, ele vende para alguns pequenos agricultores, jardineiros, paisagistas e qualquer um que deseje deixar a horta nos fundos de casa com um solo fértil. (Carvão animal)

Ana_Paula_Maia_Carvao_animal_136

Ana Paula Maia
Record
158 págs.