Entrevistas

fevereiro 2013 / Entrevistas / O fio da existência

Texto publicado na edição #154

O fio da existência

  Como afirma a própria Suzana Montoro, as histórias dos imigrantes húngaros que formaram uma comunidade no interior do Brasil […]

> Por YASMIN TAKETANI

Suzana Montoro, autora de "Os hungareses". Fotos: Juliana Mozart

Suzana Montoro, autora de “Os hungareses”. Fotos: Juliana Mozart

 

Como afirma a própria Suzana Montoro, as histórias dos imigrantes húngaros que formaram uma comunidade no interior do Brasil por si só já são fascinantes e abrem inúmeras possibilidades narrativas. Mas coube à escritora e psicóloga paulistana, nascida em 1957, dar voz a essas histórias reais e a transformá-las em literatura. O resultado é o romance Os hungareses (Ofício das Palavras), vencedor da última edição do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria estreante, ao qual Suzana soube conferir a singeleza e a intensidade que descobriu na vida de seus personagens.

O livro inicia com Rozália, imigrante húngara já no fim da vida, rememorando seu passado. Fica a cargo de sua filha, no entanto, o papel de narrar sua história (e o romance), desde a aldeia na Hungria à viagem ao Brasil e ao sítio dos hungareses. Essa narrativa é permeada por vários outros personagens; em comum, todos possuem uma “necessidade íntima de um lugar no mundo”, e, distantes de sua terra natal, acabam encontrando esse lugar principalmente na memória. Outra característica marcante neles, determinante de seu presente e discutida no livro, é a forte ligação com o passado, “um único e interminável fio se desenrolando num universo atemporal”, “como se a vida fosse um padrão a se repetir incontestáveis vezes, sempre com o mesmo cenário ambulante com variado matiz”.

Suzana entrevistou imigrantes da comunidade húngara e seus descendentes e viajou à aldeia natal da protagonista para a escrita do romance, o que lhe conferiu riqueza de detalhes nas histórias, descrições e personagens. Essa pesquisa, no entanto, fica invisível, esquecemos da autora e do processo que antecedeu a escrita de Os hungareses: para Suzana, interessaram “muito mais o jeito de cada um e a maneira de se conduzir na vida”, e seu poder de observação e sensibilidade possibilitaram que a história fosse contada de forma tão natural pelos olhos de personagens de uma outra cultura.

Estreante no romance, mas não na literatura, Suzana Montoro é também autora do livro de contos Exilados e dos infanto-juvenis Nem eu nem outro e O menino das chuvas, entre outros. Nesta entrevista, realizada via e-mail, a escritora comenta o processo de escrita de Os hungareses e temas que marcam o romance, como identidade, memória e falta.

• A partir do momento em que se interessou pela história dos imigrantes húngaros, o que a motivou a transformá-la em literatura? Como foi conciliar as histórias reais com a história ficcional que queria narrar?
As histórias eram muito interessantes. Não só pelo fato de serem pessoas que deixaram tudo para trás e se inseriram numa nova cultura — o que por si só já é tema fascinante e que se desdobra em inúmeras possibilidades narrativas —, mas também por serem relatos cheios de vida, por assim dizer, com experiências e emoções muito intensas. Eu escutava as histórias e ficava fascinada com a riqueza de detalhes, eram todos muito idosos e o passado deles era seu tesouro. Acho que foi pelo inusitado dos relatos que eu pensei em escrever o romance. Se bem que quando se escuta uma história de vida de um lugar distanciado, sem se envolver emocionalmente, sempre é possível fazer disso literatura. A partir do momento em que decidi escrever o romance, passei a entrevistar formalmente os remanescentes vivos e descendentes da comunidade húngara e a colher material. Eu fazia a entrevista, passava um bom tempo com eles e, ao voltar para casa, colocava tudo no papel, relatos e impressões. Eu sabia que contaria a história de cada um, mas o mais importante seria o personagem, e foi isso que ficou vivo no romance. Os personagens foram desenhados a partir das entrevistas, alguns são reais, outros inventados, e as histórias foram sendo contadas por eles, realidade e ficção se misturando.

• Em que medida as histórias reais e os dados factuais fruto da pesquisa, das entrevistas com moradores do sítio e seus descendentes e da viagem à Hungria foram necessários para dar corpo a Os hungareses?
As histórias reais foram o ponto de partida, mas desde o momento em que decidi escrever um romance, sabia que seria importante absorver não só o máximo de histórias, mas muito mais o jeito de cada um e a maneira de se conduzir na vida. Durante as entrevistas eu observava muito o gestual, o olhar, o modo de ser da pessoa. Estive também no sítio, onde se passa parte da história, para olhar o entorno e tentar enxergar com os olhos deles. Depois fui à Hungria. O objetivo da viagem era conhecer a aldeia natal da protagonista, mas também respirar a cultura húngara, escutar o idioma, andar pelas ruas, observar o modo de ser húngaro, enfim, me encharcar de impressões e de vivências locais. Escutei muita música húngara, li muita literatura húngara, até estudei um pouco do idioma. Não é necessário ter vivido o que se vai relatar, mas, para escrever um livro sobre húngaros, não sendo húngara, eu deveria estar muito familiarizada com a cor local. Acho que foi a soma de tudo que deu corpo ao livro e me permitiu falar de maneira fluente sobre uma cultura que não a minha.

• Escolher a filha de Rozália — que não presenciou parte da história e portanto a transmite, assim como a senhora, a partir do que lhe foi contado — como narradora está ligado à proximidade com o seu próprio ponto de vista?
Escolher o narrador de um romance é a primeira coisa a ser feita. Quem vai contar a história é o determinante do tom do livro. Quando comecei a escrever o romance, ele estava em primeira pessoa, era a protagonista quem narrava. Mas isso me trouxe um problema e uma dificuldade, um dos motivos para eu ter parado o livro numa determinada altura. Travei porque a narradora não poderia contar no mesmo tom coisas não vividas por ela. A primeira pessoa estava me limitando, mas isso eu só percebi através de um amigo, que leu o material escrito até então e sugeriu a mudança para a terceira pessoa. A escolha da filha da protagonista se deu de maneira natural, era ela quem tinha me apresentado a história e me contado várias passagens. Muito do que escutei, foi através da voz dela. Aproveitei o fato de ela ter sido atriz e usei isso como um artifício da narrativa. E ainda pude aproveitar um pouco do material já escrito em primeira pessoa, colocando-o em alguns trechos. A intenção não era criar um estranhamento entre as narradoras, mas sim uma polifonia, as duas vozes dentro da mesma tonalidade.

• A narradora possui um vínculo direto e pessoal com a história, e é essa a sensação que o texto passa. É possível falar de um processo de apropriação da história, de sua parte, para chegar à narrativa que encontramos em Os hungareses?
Acho que não é possível escrever um livro se a história não estiver “queimando” dentro do escritor. Pelo menos, é assim que acontece comigo. Tenho que estar inundada do tema para poder escrever sobre ele. Pode ser isso o que você chama de apropriação da história. Tudo o que me foi relatado ficou guardado em algum lugar dentro de mim, foi se depurando, se misturando às minhas vivências e impressões. Daí a narrativa tão “vivencial” do livro. 

• Apesar das dificuldades, perdas e injustiças vivenciadas pelos personagens, não há rancor, tampouco parece ser o objetivo da filha de Rozália “destrinchar” o passado de sua mãe, expor e cutucar feridas, questionar escolhas e atitudes. Contar a história é o único objetivo da narradora — e, por conseqüência, o seu?
Contar uma história é sempre o objetivo de um romance. Não o único, mas o principal. Acho que Os hungareses conta uma história através de fatos e muito através de sensações e de impressões. Não há cobrança de atitudes, revanchismos, nada disso, mas aparece nas entrelinhas e na linguagem usada um dos traços mais marcantes das pessoas entrevistadas, a aceitação da vida e do que é para ser vivido de forma tão singela e intensa, que isso acabou sendo, naturalmente, um dos fios condutores de toda a narração. 

• A senhora sentiu alguma obrigação para com os relatos que lhe foram feitos — preservá-los, por exemplo? Eles próprios podem ser considerados ficção?
Embora com uma grande dose de inventividade, os relatos foram de certa maneira preservados. Não textualmente, mas sim fragmentos, impressões, uma simples frase, um fato, um episódio isolado ou mesmo um mero jeito de olhar. A minha preocupação foi preservar o modo de ser dos entrevistados, a maneira de se relacionarem uns com os outros, de manejarem os acontecimentos e conduzirem a própria vida. Depois de pronto o livro, alguns leitores que conviveram no sítio disseram que tudo era inventado, que as coisas não se passaram conforme o descrito, enquanto que outros disseram que está tudo lá, do jeitinho que eles viveram. A realidade é subjetiva e é o olhar de cada um que vai determinar a veracidade dos relatos. Se pensarmos bem, o que diferencia a vida vivida da ficção? O inusitado? O surpreendente? Na verdade, um relato ficcional, a Literatura — assim como a Filosofia, a Arte em geral e também a História —, tenta organizar o caos, ajuda a compreender a realidade e dar um sentido à vida.

• A senhora afirma que a escrita de Os hungareses foi interrompida várias vezes ao longo dos anos. O que faltava para ir até o fim? Em que momento isso aconteceu?
Algumas vezes iniciei e parei devido a acontecimentos vários que me desviaram da escrita ou que solicitaram minha atenção e meu tempo. Mas talvez tenha me faltado disciplina suficiente para contornar as dificuldades e seguir adiante. Não sei, não dá para saber. Tenho outra profissão (sou psicoterapeuta), que é de onde vem o meu sustento, e a literatura acaba tendo menos espaço no meu dia-a-dia. Escrevo nas horas vagas, por assim dizer. Mas chegou o momento em que decidi de uma vez por todas terminar o romance. Porque um projeto inacabado é como uma conta no vermelho, impede novos vôos, novos livros. E também porque eu tinha prometido aos húngaros que escreveria um livro sobre a vida deles e todos já estavam mortos. Eu estava devendo. De novo, a conta no vermelho. Inscrevi o projeto no edital do Proac, o programa de apoio à cultura, do Governo do Estado de São Paulo, ele foi selecionado, e aí eu tinha um prazo para a entrega do livro. O que me salvou.

• Os contos de Exilados giram ao redor de pessoas que estão de certa forma exiladas de suas próprias vidas. Em Os hungareses, temos imigrantes marcados por uma sensação de “estrangeirismo” desde a Hungria, onde mudanças políticas transformavam suas vidas de um dia para o outro. A falta é um tema que lhe interessa?
Sim, de fato. Mas isso eu não percebo enquanto estou escrevendo. Só depois, distanciada no tempo. Acho que todo escritor tem um tema subjacente, que pode ser lido em todos os seus escritos. Como psicoterapeuta, passo boa parte do dia às voltas com relatos de pessoas que falam de suas faltas. Acho que cada um de nós tem a própria escuridão, e talvez meus escritos remetam a esse vazio existencial que, de certa forma, nos preenche. Falar sobre isso é uma forma de aclarar um pouco a vida. Talvez.

• Como foi a passagem do conto para o romance? Em algum momento lhe ocorreu transformar as várias — e ótimas — histórias dos tantos personagens de Os hungareses em contos?
Sempre escrevi histórias curtas, contos ou novelas infantis e juvenis. A idéia de escrever um romance surgiu em virtude da multiplicidade de histórias que eu tinha. Seriam ótimos contos, mas tinham um substrato comum, a migração, e tudo o que decorre daí. São todos personagens à deriva em busca do pertencimento, cada qual com suas peculiaridades. Poderia ter escrito um livro com a estrutura de histórias aparentemente independentes em que os personagens se cruzam, como Cenas da vida na aldeia, de Amós Oz, ou a mesma estrutura de Vidas secas, de Graciliano Ramos. Mas o gênero romance foi escolhido porque eu quis retratar a história de uma personagem com seus prolongamentos no tempo e no espaço e, ao redor dela, as vivências e tramas dos demais personagens.

 

“Cada um tem a própria escuridão, e talvez meus escritos remetam a esse vazio existencial que, de certa forma, nos preenche. Falar sobre isso é uma forma de aclarar um pouco a vida.”

“Cada um tem a própria escuridão, e talvez meus escritos remetam a esse vazio existencial que, de certa forma, nos preenche. Falar sobre isso é uma forma de aclarar um pouco a vida.”

 


• Se pensarmos nas comunidades de imigrantes sendo formadas hoje, por vezes elas são tão isoladas ou fechadas em si quanto o sítio dos hungareses. A partir de sua convivência com os húngaros, como é o processo de integração em um novo país e uma nova cultura?
A questão do estrangeirismo é bem complexa. Ser estrangeiro é sempre um processo doloroso e fascinante, ao mesmo tempo. A atração pelo novo e a nostalgia pelo que foi deixado. Um estado de ser livre que pressupõe um isolamento e um sentimento de solidão. Não se trata da mesma coisa, mas tive experiência análoga quando morei fora do Brasil. O mais atraente era a sensação de efemeridade, tudo era vivido de maneira intensa porque transitório. Mas no caso do imigrante, a perda das raízes pode ser avassaladora. Sobretudo quando o motivo da partida é alheio.

• “Acho que sou feita de memória e o passado é o meu presente”, diz Rozália, que encontra na memória e no passado sua identidade e suas raízes. Esta é uma idéia que percorre todo o livro, começando pela epígrafe. Até que ponto passado e memória nos definem? É possível viver o presente quando se está tão entretido nas lembranças quanto a personagem?
Acho que esse é um tema muito amplo e paradoxal. Sob um ponto de vista, tempo é um contínuo que atravessa nossa vida e nos organiza. O passado define nosso presente. O que somos hoje é fruto de nossas escolhas e de nossas experiências. Mas não é algo estanque. Aprendo com o meu passado e posso redefinir caminhos se usar o discernimento e a reflexão. Escrevi uma novela juvenil, Nem eu nem outro, que fala dessa relação, memória e identidade. Mas o enfoque do romance é o olhar de uma pessoa no fim da vida revendo seu passado e reconstruindo assim sua história. Quando conheci a protagonista do livro, ela estava bem velhinha, numa altura da vida em que muito pouco lhe restava além das lembranças. Ela gostava de passear pelo jardim e contar suas histórias. É isso que o livro retrata.

• Mesmo se tratando de ficção, a variedade e a multiplicidade de histórias e personagens do livro levam a imaginar uma aptidão, vontade e desejo por parte dos húngaros e seus descendentes em narrar suas histórias. Como se desenrolaram as entrevistas? De onde surge esse interesse, hábito ou necessidade de passar adiante suas histórias?
As entrevistas aconteciam sempre na casa do entrevistado, eu me sentava diante dele e pedia que me contasse sobre a sua vida. Sou boa ouvinte. Eu dava corda, a pessoa ia falando e vez ou outra eu conduzia a direção do relato. Pessoas idosas, em geral, têm pouca atividade, os dias são longos e rotineiros. Ter alguém que as escute é estimulante. Ainda mais em se tratando de imigrantes, em que o passado está ainda mais distante por uma questão geográfica. São pessoas que só podem estar de volta à terra natal através das lembranças. Contar a própria história é uma forma de organizar e compreender sua trajetória. Se isso fica registrado em livro, é como se um pouco da pessoa permanecesse além da sua existência.

• É o interesse, o hábito ou a necessidade que guia sua escrita?
Uma vez eu disse a um amigo que iria parar de escrever e ele me perguntou: e vai viver do quê? Não no sentido da subsistência, claro. Escrever é a maneira de expressão que encontrei para sentir-me viva. 

• Oito anos separam a publicação de Exilados e Os hungareses, entre os quais a senhora publicou livros infantis e juvenis. Como é seu processo de escrita?
A profissão de psicóloga ocupa a maior parte do meu tempo. Mas não impossibilita o trabalho da escritora, muito pelo contrário, ajuda bastante, já que me obriga a um olhar atento e observador. Quando tenho a idéia para uma novela, ou romance, faço bastante pesquisa, leio a respeito do tema, vou juntando material e depois começo a escrever. Produzo mais de manhã, mas mesmo durante o tempo em que não estou escrevendo, o livro e os personagens ficam na minha cabeça, fermentando. Quando vou escrever um conto, não faço nada disso. Em geral, tenho uma frase na cabeça, sento, começo por ela, e é como se abrisse uma porta, o conto está lá, não pronto, mas a idéia, sim. Fico dias escrevendo e reescrevendo a idéia, às vezes termino, outras não, como se não tivesse encontrado um final para ela. Em geral, escrevo muito devagar.

• O fascínio pelas histórias dos moradores do sítio dos hungareses e de seus descendentes lhe motivou a escrever o romance. O que é uma boa história?
Uma boa história é aquela que nos faz vibrar internamente. Como uma boa música, um belo quadro, uma paisagem, o que for.

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