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julho 2011 / Quase-diário / O fim da URSS, há 20 anos

Texto publicado na edição #136

O fim da URSS, há 20 anos

20. 08.1991 Moscou. A televisão estatal russa exibe esta noite E o vento levou, enquanto em volta do Parlamento milhares […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

Gorbatchov

20. 08.1991
Moscou. A televisão estatal russa exibe esta noite E o vento levou, enquanto em volta do Parlamento milhares de russos resistem em barricadas às tropas da Junta que derrubou Gorbatchov há duas madrugadas.

Estaria o vento levando a “perestroika” e a “glasnost”?

Vim com Marina caminhando da embaixada do Brasil (Rua Rerzena, 54) até aqui (na Av. Gorki), nosso hotel ao lado do Kremlin. Chovia. Nós dois com um minúsculo guarda-chuva comprado numa loja soviética, obedecendo agora ao “toque de recolher”. A situação é grave: esta noite pode ocorrer um violento choque entre os que resistem em torno de Yeltsin. Uma coluna de tanques avançava no final da tarde contra os rebeldes nas barricadas.

Estivemos hoje no local das barricadas espalhadas por toda parte. Uma multidão de 150 mil pessoas no pátio, no gramado, diante da sacada da “Casa Branca”. Pessoas apinhadas nas estátuas e nos tanques que aderiram. Caixas de leite e pão empilhadas para quem quiser. Pego uma caixa, saio bebendo, pois são duas horas da tarde e não sei se comerei tão cedo. Um zepelim sobre o Parlamento ostenta a bandeira russa do tempo dos czares — tricolor: branca, azul, vermelha (em faixas). Passam enfermeiras para emergência. Várias ambulâncias. Pelotões de civis em fila obedecendo a comandos de civis. São ex-reservistas. Converso com um deles. Falam de esperança, democracia. Diz: “Acho que não devemos ficar esperando que os americanos façam alguma coisa por nós. Temos que resolver nossos problemas”.

Agora passa uma longa fila carregando aquela bandeira tricolor de 50 metros para dentro do Parlamento, vão colocá-la no parapeito da sacada. Olho a multidão: não há uma só bandeira com a foice e martelo. Foi-se o tempo. Na sacada discursos de políticos e artistas. Ouvimos a fala do violoncelista Rostropovitch, que veio de Londres juntar-se aos revoltosos. Fala Yeltsin. Emoção generalizada.

O rádio de um carro junto às barricadas reúne curiosos que ouvem notícia de um líder socialista alemão que vai pegar o avião e vir ao encontro de seus amigos. Corre a notícia de que Yeltsin deu 24 horas para os golpistas apresentarem Gorbatchov a uma junta médica da Cruz Vermelha e devolver-lhe o poder. Numa barricada um cartaz manda o Partido Comunista à merda.

No gramado sinto pisar uma coisa: é uma lata de caviar vazia.

De repente, notícia de que uma coluna de tanques está vindo em nossa direção e que as mulheres devem evacuar a praça. Um tipo meio desesperado, com uma barra de ferro grita para as mulheres se retirarem, e berra: “Isto aqui não é teatro”.

Cansados, depois de esperar uns quarenta minutos pelos tanques, fomos para a embaixada. Lá vejo a CNN — realidade e imagem. Confronto. Na TV é mais assustador. Quando estávamos no meio da multidão, se chegassem os tanques, acharia normal. Vendo pela TV temo pelos que estão lá.

O chefe do bureau do The New York Times, em Moscou, diz que vai correr sangue, que os militares no poder são da linha dura. O último discurso de Yeltsin é uma conclamação para que as tropas não massacrem o povo: “Irmãos, filhos da grande Rússia, não venham derramar sangue!”.

Já no hotel, onde cheguei há pouco, a TV oficial tenta mostrar que está tudo em ordem. Nada sobre a resistência de Yeltsin. Começam a passar E o vento levou.

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