Ensaios e Resenhas

abril 2013 / Ensaios e Resenhas / O fim da lei seca da literatura brasileira

Texto publicado na edição #156

O fim da lei seca da literatura brasileira

“Região” apresenta a literatura refinada e inteligente de Zulmira Ribeiro Tavares

> Por JULIÁN ANA

Perto da debochada e irônica prosa de Zulmira (foto), a crítica é um cadáver cinza e gelado no freezer da falta de humor.

Perto da debochada e irônica prosa de Zulmira (foto), a crítica é um cadáver cinza e gelado no freezer da falta de humor.

 

As chuvas em Las Heras têm castigado a criação. Noe, que me olhava de esguelha desde que voltei do hospital, trouxe os leitões menores ameaçados de afogamento aqui para dentro da cozinha. A lama vindoura agradará os adultos que, por enquanto, refestelam-se no banho de chuvarada. Mandei que Noe — que eu chamaria Plácido depois do livro de Zulmira Ribeiro Tavares que acabei de ler — fique de férias por um mês, bem longe de mim, antes que eu o condene à morte por afogamento, como fez o pai de Kafka. Eneida — para quem eu leria o conto Bruxismo do livro de Zulmira —, que nunca viajou a passeio, foi para o Brasil a uma dessas feiras de livros de que tenho pavor. Vários escritores juntos é o conclave do meu suicídio.

Enquanto isso, penso no que fazer com os dois, se os demito, se pago seus direitos ou se os deixo na rua da amargura. Não é costume respeitar os direitos trabalhistas por aqui — neste caso a Argentina parece o Brasil. Melhor é esperar o outro reclamar e fazer um acordo. Ou dar um belo pé naquele lugar. Confesso que me sinto mal com esse tipo de procedimento, é a culpa cristã com que fui educado por minha querida mãezinha, uma senhora que amava a justiça. Eu sou apenas um crítico e, portanto, imoral. Mas que seria uma boa vingança do senhor contra o escravo, sem dúvida que seria. Luizita, que aproveita a energia da juventude para voltar a Porto Alegre de ônibus, saiu daqui ontem pela manhã a perguntar-me “por que a vingança contra os pobres funcionários?”. Contei-lhe que querem me matar e tomar-me os porcos, a pocilga e tudo o que tenho. Olhou-me com desdém dizendo-me que exagero. Não sabe nada da vida, a menina. Sugeriria a ela o poema Humanidade(s) do livro que acabei de ler. Mas deixei por isso mesmo, afinal que a luta de classes está sempre ganha pelo lado de quem tiver o poder. Eu, no caso. E perdoem-me por isso.

Os rosados não param quietos, comem como pessoas famintas. Tudo me leva a crer que são porcos apenas enquanto são pessoas em forma de porcos. Pessoas porcinas são pessoas físicas como qualquer uma. Tanto que me olham nos olhos e, porcinamente, conversamos. Cheguei a ler para eles alguns dos contos de Zulmira Tavares, sobretudo o conto Região, pois que é análogo à pocilga. E verifiquei na prática o sentido das pérolas aos porcos.

Verdade, mas é fato também que porcos são subjetivados, até mais do que o são os cães. Eu provaria isso se tivesse tempo de me dedicar à curiosíssima ciência da sociozoologia, que, para mim, só fica atrás de algo mais místico como a literatura. Sociozoologia mística, pensando bem, eis o que é a literatura. Sou um leitor dos antigos, não posso negar, é deles que me vem esta tese. Ovídio, e antes Píndaro… Assim me fica a dúvida, se o que teriam feito para serem transformadas em porcos é coisa grave. Da Odisséia temos as artimanhas da feiticeira Circe metamorfoseando os visitantes. Eu, de minha parte, se soubesse como a metamorfose pode acontecer, seria provavelmente o único que não pediria para ser liberto do sortilégio. Literatura é, afinal, essa bruxaria. Isso me leva a pensar se, na outra encarnação, não fui um porco?! E me paira dúvida ainda mais cruel: se o que fiz para me tornar humano fora ou não coisa grave…

Santa Zulmira, perdoa meus pecados de crítico
Há algo em comum entre a mítica Circe e dona Zulmira Ribeiro Tavares, a quem rendo as mais sublimes homenagens, neste momento em que concluo a leitura de seu Região. O livro é composto de outros publicados ao longo de uma vida de escritora e alguns textos inéditos. Ela escreveu Região e eu direi que se tornou minha religião (trocadilho de um pobre homem que só conta doravante com seu chiste diante de uma musa intangível).

Depois dessa leitura que me fez esquecer, como a melhor cachaça brasileira, tudo de ruim que eu possa ter lido nos últimos tempos (tudo de ruim que me aconteceu…), posso declarar-me o mais fiel devoto desta deusa da literatura debochadamente “regional”. Penso em publicar uma oração em sua homenagem. Uma oração que abençoe escritores despretensiosos, bons de idéia e de texto. Aqueles que sabem que a letra é espírito! Santa Zulmira dos Jardins, perdoa meus pecados de crítico!!!

O único perigo da leitura é vício religioso que se alcança com as melhores cachaças. Ante o feitiço de seu texto tornamo-nos quem somos: animais docilizados como estou agora. Sou um porco nadando na enchente, e se flutuo, sou peixe, capitulado ante o sublime, livre de meu ressentimento de crítico.

Capitulei de minha rabugice regada no fel autopoiético com que me estabeleci como crítico dessa arte torturada nas mãos de maus escritores que é a literatura. Seria muito mais fácil escrever sobre as porcarias atuais. Julgar como pater potestas: a ruindade do escritor é a liberdade do crítico. Contudo, me vi amando um livro como um herói romântico ama uma mulher. Sou o pobre Severino em A Vênus das peles, de Sacher-Masoch, o pobre coitado sem chance de ver conquistada a sádica que daria sentido à sua miserável vida. E o digo com todo o respeito, pois eu morreria de tristeza se dona Zulmira se ofendesse comigo, com minhas brincadeiras de velho pós-ressentido. Mas tenho que dar crédito à musa que curou minha literatose. Auto-sugestão, ela diria, comparando-me ao seu personagem, o Tio Paulista.

Eu aceitaria tudo, até a ridicularização. Por isso, não resisto em dizer que dedicaria a ela singelos poemas de amor se eu fosse poeta, flores se fosse galante, bombons de chocolate se fosse confeiteiro. Ela jogaria tudo na minha cara, pois, se a sofisticação de seu texto é prova de seu gosto, não lhe devem encantar estas toscas paparicações de chavequeiro. Só o que eu teria a oferecer no estado de embriaguez em que me encontro.

Por fim, eu faria serenata sem perceber o balde de água fria lançado sobre minha testa de idéias e sentimentos efervescentes. Estou preparado!

É que me tornei um caipira sentimental depois desse livro sudestino. E me alegro em poder dizer alguma coisa na contramão das frias e mórbidas análises anatômicas que vi escritas sobre os livros de Zulmira Ribeiro Tavares, minha musa. Perto da debochada e irônica prosa de Zulmira, a crítica é um cadáver cinza e gelado no freezer da falta de humor. Que vergonha! Por isso, este pobre Julián Ana que escreve esperando a maldade dos leitores aguçados (vou sofrer pouco, como podem perceber apenas alguns dos que me lêem) prefere a crítica como obra de arte ao constrangimento de uma pobre explicação sobre a arte soberana de alguém como Zulmira Ribeiro Tavares.

Região é, pois, região ficcional, conto, poesia (e até um ensaio esquisitíssimo, com todo o respeito), mas é, para mim, muito mais a plantação da cana dos meus sonhos e o alambique inteiro da melhor cachaça paulistana. Literatura sudestina finalmente universal. Região é, pois, o lugarzinho perigosamente viciante e do qual só os muito atentos, de paladar muito refinado, poderão aproveitar. Literatura de alambique, ficção-pinga, conto-cachaça. Obedecendo aos critérios alquímicos das destilações perfeitas e de amadurecimento no tempo certo, a prosa de Zulmira é recomendável para quem não tem medo dos prazeres destilados da literatura.

Santa Zulmira, deusa da ironia
Os títulos dos livros de Região são o recipiente perfeito, copo e garrafa, para o conteúdo textual, no qual se contém o elemento embriagante. Termos de comparação, por exemplo, é um conjunto de sete contos, pacientemente envelhecidos em barril de carvalho. Cada um é a dose da mais perfeita bebida apreciada pelos pinguços mais sofisticados. Começamos a ler A curiosa metamorfose pop do sr. Plácido e a alegria se faz como se um martelinho finíssimo nos viesse ao paladar. O sr. Plácido é o homem banal no estado do improvável, ou o homem provável em estado de charge, tira de humor em estado de literatura. Zulmira, deusa, é também a rainha da ironia que só alcança aquele que desconfia do que tem diante de si. Afinal, um homem que compra um penico e passa em um enterro antes de ir à bienal de artes serve para nos mostrar alguma coisa acerca da vida: a lógica é absurda. E o absurdo é surpreendente quando capturado em sua pura objetividade lógica. Algo que pertence à natural especulação de Zulmira demonstrada em um conto como Aula prática de filosofia, em que ela usa meu conterrâneo Mario Bunge para contrapor a um Senhor Governador e seu problema intestinal em estado grotesco.

É literatura para ser feliz com graça e, melhor ainda, maldade… Outro exemplo, em A coisa em si, começa-se a leitura rindo diante da frase mais do que perfeita: “A inteligência estava ali diante dele como um grande animal em repouso”. É o caminho para abstrairmos do professor de filosofia que, não conseguindo achar “a coisa em si” kantiana, confunde-a com mulheres meretrizes, prostitutas, putas.

Mas não é que Zulmira prefira brincar com personagens da alta cultura, que ela mostra ridículos em si mesmos, como em O senso comum e o bichinho roedor (ainda em Termos de comparação), no qual ela nos faz rir de um publicitário e sua estranha vertigem. Em Cai fora (em O japonês de olhos redondos), ela conta a vida, a morte e o sonho de Juraci, um jogador de futebol, e Jandira, a mulher de seu desejo, mostrando-nos que o nonsense é o elemento mais que natural com que ela complica a vida das classes sociais, justamente para trazer à cena o ponto de vergonha partilhado por todos e cada um no parque do Ibirapuera.

Por fim, é preciso concluir sobre a nobilíssima questão da cachaça, para que não fique em aberto, como se eu escrevesse minha resenha bêbado: O japonês dos olhos redondos foi envelhecido em bálsamo, O mandril o foi em barris de cedro e O Tio Paulista, em barris de amendoim. Região, o belo conto que dá nome ao livro, foi armazenado pelo diabo. E dona Zulmira, é mais que evidente, foi simplesmente feita por Deus.

Assim, sabendo do sabor irônico e do aroma debochado de seus contos, o impacto intelectual e moral no desavisado, a confusão emocional do leitor arrumadinho que nunca bebeu uma caipirinha, poderão ser bem tratados sem que cheguemos ao coma alcoólico.

Aquele que ler Região passará a entender o significado do verbo composto ler-beber. Beber é ler, ler é beber, e faça o quatro… Aquele que provar desse cálice passará a ler-beber por amor à literatura sem nenhuma segunda intenção que não a de comungar com o espírito de Macunaíma, o Dionísio brasileiro. Zulmira Ribeiro Tavares é o fim da lei seca da literatura brasileira.

TRADUÇÃO: José Carlos Zamora

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Zulmira Ribeiro Tavares

Nasceu em São Paulo (SP), em 1930. Contista, romancista e poeta, é autora de Termos de comparação (1974, prêmio de revelação da Associação Paulista dos Críticos de Arte), mescla de ensaísmo, poesia e ficção. A partir da década de 1980, passa a produzir de forma mais regular, despertando a atenção da crítica para livros como O japonês de olhos redondos (1982); O nome do bispo (1985), agraciado com o prêmio Mercedes-Benz de Literatura; O mandril (1988); Jóias de família (1990); Café pequeno (1995); e Cortejo em abril (1998).

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Zulmira Ribeiro Tavares
Companhia das Letras
360 págs.