Ensaios e Resenhas

novembro 2013 / Ensaios e Resenhas / O filho tardio de Alencar

Texto publicado na edição #163

O filho tardio de Alencar

No ensaio que dedica a Alcides Maia em Prosa dos pagos — 1941-1959, Augusto Meyer afirma, logo no primeiro parágrafo, […]

> Por RODRIGO GURGEL

Ilustração: Bruno Schier

No ensaio que dedica a Alcides Maia em Prosa dos pagos 1941-1959, Augusto Meyer afirma, logo no primeiro parágrafo, que “há um imperativo de saudade e uma deleitação de fundo nostálgico na leitura” da obra desse escritor, salientando, poucas linhas depois, “a monotonia que transparece de suas páginas”, característica analisada não como algo negativo, mas como “um atestado de fidelidade” à “constância”, ao apego do escritor às suas raízes. Para dar vida a tal afeição, Maia, ainda segundo Augusto Meyer, buscava “surpreender os vestígios de um estilo de vida já em recuo para o passado, evanescente e apenas sobrevivendo em crise”.

As observações de Meyer resumem, de maneira fidedigna, a temática dos contos reunidos em Alma bárbara, publicado em 1922, mas não abrangem a forma escolhida por Alcides Maia para exteriorizar a invariabilidade que, diferente do crítico otimista, considero exemplo de mesmice. Assim, se as histórias estão circunscritas à idealização do gaucho ou à narração de causos cujo limite geográfico e cultural é a vida pampiana, a linguagem utilizada mostra-se refém de soluções monocórdias e retóricas.

Filas de adjetivos
Água parada, que abre o volume, já anuncia o saudosismo do autor e seu apego aos adjetivos. A narrativa idílica, que não chega a criar um conto, fixa-se no tema bucólico e aí permanece, definindo certa idealizada lagoa como “profunda, singular, diferente de todas”, com águas também “profundas”, novamente “diferentes” e, por fim, “atraentes”. Vencidos poucos parágrafos, a água torna-se “calada, solitária, arrastadora”, mais uma vez “atraente” e, a seguir, “indiferente”. Sob o domínio de tal adjetivação, o discurso pernóstico, de nítida influência alencariana, é conseqüência inevitável: “Lá embaixo, bem no fundo, estremeceria ainda, na algidez dos seus desejos torpentes, alguma iara sonolenta, das que outrora seduziam os guerreiros com seus olhos cerúleos e as suas verdes madeixas?”, pergunta-se o narrador. Não faltam — elementos indispensáveis nesse tipo de texto — os lugares-comuns, na forma de “beijos de brisas perfumadas pelas flores da encosta”.

O problema se agrava no relato seguinte, Fábula de hoje, no qual temos a história do gato Mephisto e sua fugaz amizade por um passarinho. Enumerar as qualificações do felino pode ser um exercício divertido para quem deseja conhecer este modelo de anti-literatura, em que o enfileiramento de adjetivos pretende definir tudo. O gato chega a ter “formosura moral”, logo destruída pela fome, que o obriga a, num desfecho previsível, devorar seu amigo.

Em Monarcas, descobrimos Neco Alves, o campeiro que não consegue fazer jus plenamente à herança de coragem dos antepassados. Além da cascata de adjetivos, o narrador passa mais da metade da história construindo um gaúcho idealizado, símbolo de bondade e inocência, em perfeita harmonia com a natureza, mas que, dado o excesso de qualidades, acaba se tornando ridículo. No último terço da narrativa, quando pensamos que surgirá alguma trama, o escritor opta pela solução mais fácil, frouxa de tão resumida.

Idealização e melodrama
Chica-Balaio (historieta de dragões) nos oferece, novamente, a linguagem empolada: em certo trecho, a mendiga continua a bater na cobra que acaba de matar, mas o autor prefere dizer que “a mulher continuava a contundir a serpe, atingindo-lhe o dorso crispado e a cauda açoitante”. Além disso, há um erro de composição que torna a cena inverossímil: num momento, Chica-Balaio está longe, concentrada em “ajuntar gravetos”; no seguinte, consegue, graças à sua visão telescópica, perceber a cobra pronta a atacar o menino e, o principal, correr na incrível velocidade que lhe permite impedir o ataque.

Depois de ultrapassarmos China-Flor, crônica ultra-romântica, plena de soluções melodramáticas, chegamos a Alvos, história do vaqueano Silvério Torres, obcecado por atirar. O gaúcho sofre a transformação cara a Alcides Maia, sempre movido por irrefreável ânsia de idealização, e é descrito como um esteta, “amante do ser em movimento”, capaz de, acreditem, entre madressilvas, margaridas e outras florinhas, acertar numa borboleta “mimosa, trêfega, pequenina”. Na verdade, Torres não passa de um sádico que, em busca de alvos humanos, favorecerá a traição da mulher. Dez parágrafos antes do fim, já sabemos qual será o desfecho.

Lenda guerreira é história sentimentalista, com “arrebóis longínquos do poente — mancha de frágua entre o azul cerúleo e o verde-montanha dos campos” e um beija-flor que morre e cai no colo da mãezinha sofredora, anunciando-lhe a morte do filho na Guerra do Paraguai. Nem Alfredo Le Pera e Horacio Pettorossi conseguiram, na letra do famoso tango Silencio, ser tão melodramáticos.

Linguajar e esquematismo
Às vezes, Alcides Maia dá a impressão de tatear em busca do estilo ideal. No conto História gaúcha, narrativa de ódio e vingança que transcorre em torno de certa adaga satânica, o escritor tenta reproduzir o linguajar dos Pampas:

A rapariga consentiu, dei-le umas boquinhas (ah! tempo!) e, à meia-noite, atei o ca’alo na frente e empurrei na porta um manotaço. Um aviso… Inda o bruto não tinha saltado do catre e já eu penetrava no rancho. Derrubei a relho aquel’tebas! Quando o companheiro acudiu, já eu fazia relampear a adaga do bugre, minha herança de fado, que outro bem nunca tive, mas esse me apertencia. Lascou-me fogo e errou (havia de ser!) e ali mesmo lo acuchilhei, como rês, no sangradouro… E nem alimpei o ferro: de vereda, fui-me ao primeiro, que se boqueava no chão, e le taquei um tiro no ouvido, mas bem dentro, bem no fundo… Não se abichorne, moço, que a vida é assim… Vocemecê queria, ’tá ouvindo. E dê-me no mais do seu místico, que o meu isqueiro se quebrou e este pito está manheirando…

O principal limite de experiências desse tipo, sem dúvida curiosas, é óbvio: a linguagem torna-se o principal personagem — e ao assumir o protagonismo, desbanca ou enfraquece o enredo.

Na seqüência, a brevidade de Ritornelo romântico não permite nem mesmo que a trama se concretize — tudo se resume a esquematismo, nada mais. Problema, aliás, semelhante ao de Supérstite, conjunto de cenas rápidas que se dividem entre a coragem e a morte.

Lacunas e romantismo
Entre bandidos (do diário de um amigo) é a tentativa mais esforçada do autor para se aproximar do conto clássico. O resultado, pífio, deve-se principalmente ao entrecho repleto de lacunas. Dois amigos escutam a história de um terceiro, Heitor Mendes, proprietário da Estância dos Álamos, que relembra um inimigo “de nascença”. Este é o primeiro problema: não há justificativa para o ódio comum — o primeiro olhar já foi de “ódio profundo, inelutável, definitivo”. À força desses adjetivos, o autor acredita ter materializado o sentimento para os leitores e segue, decidido, adiante. Após alguns encontros, Heitor afirma que Padilha, o adversário, “sustenta com a polícia uma luta desigual e épica”, sem descrever, entretanto, o embate, certo de que apenas o fato de mencioná-lo constitui literatura. Mais tarde, reencontrará o inimigo, agora com a amante — por coincidência, ex-namorada de Heitor. Enciumado, este decide montar uma cilada para Padilha e capturar a jovem. Quando a ação está prestes a ocorrer, o narrador inventa esta desculpa:

Tentei reproduzir o diálogo em homenagem a vocês, e porque, além de revelar o meu desvario, me dispensa de insistir sobre o que, em seguida, aconteceu. Felizmente, não houve morte de homem… Arrebatada por mim, pessoalmente, a rapariga esteve aqui, em segredo, três semanas, três séculos do inferno… Não se rendeu: fugiu…

O autor nos rouba, assim, a melhor parte da narrativa — e, no parágrafo seguinte, a jovem encontra-se na estância. Incapaz de submetê-la, pois permanece apaixonada por Padilha, Heitor a liberta. Os inimigos se reencontram — mas apenas para que Padilha, melancólico, relate a Heitor a morte e o enterro da sua paixão. Novíssima histórica romântica, portanto.

No Conto… realista, é curioso perceber como o narrador chega a abandonar a história, perdendo-se em explicações pseudo-antropológicas sobre a religiosidade e as superstições gaúchas. No fim, o elemento que prometia desvendar a solidão e a estranha personalidade do velho curandeiro — uma trança negra, de cabelo crespo — permanece inexplícito.

Bom humor e Iracema
A melhor narrativa do livro, Duas tragédias…, apresenta-se na forma de um diálogo repleto de bom humor, no qual o linguajar gaúcho não pretende se impor de maneira absoluta, mas apenas ser o veículo das histórias contadas por Zeno, mentiroso e extrovertido campeiro. O personagem pueril, interrompido, aqui e ali, pelo patrão gozador, é mal aproveitado e o conjunto se resume a dois causos sem nenhuma inter-relação.

Em Caturrita, o narrador se perde, logo no início, numa cansativa digressão, romântica e pseudo-filosófica. Estamos, então, de volta ao estilo pegajoso:

Malvina era de todos, espontânea e cantante, qual uma fonte à sombra, nascente mansa de água múrmura, que desaltera e fica para trás, esquecida, na verdura macia, aromática, hospitaleira dos capões…

Quanto ao corpo dessa “femeazita”, como a denomina o narrador, era

ágil e rijo, trigueiro e penugento, elástico e serpentino, cheirando a araçá maduro, a trevo pisado, a flechilha e a espinilho, a todas as flores. A todas as gemas silvestres reunidas na mesma adorável carnadura de mulher.

Sem dúvida, trata-se da reencarnação sulista de Iracema, que se sacrifica por “um amor imprevisto, repelido, arrastador, aniquilador…”.

Estilo bombástico
Considero Ceguinho de estrada, que fecha o volume, a narrativa mais dramática, exatamente por reunir os defeitos de Maia. É surpreendente que Augusto Meyer tenha considerado essa história “verdadeira obra-prima, em que a expressão da piedade se apresenta nua, direta, simples na sua humilde franqueza, como se o autor, despido de todos os preconceitos, deixasse falar pela sua voz a força de um destino”. O pobre cego é destruído, parágrafo a parágrafo, pela linguagem que, afetada, pretende criar um ser mirífico:

Não tivera mestre, não passava de um mísero ceguinho, e, contudo, sentia ser o seu espírito um centro convergente e consciente de vibrações. Falava-lhe à alma encarcerada a alma errante, envolvente, arrastadora, dominadora das cousas, e eis porque entrevia, percebia, completava os aspectos. […]

Os outros eram instinto; ele, espírito e coração. Sofria por isso, por ser assim, por ânsia de amar o desconhecido, que lhe povoava de longínquos esplendores, fugazes, mas contínuos, a treva insondável do seu destino. […]

Ele amava a brisa, os sibilos do vento, o perfume das flores invisíveis, o tatalar dos pássaros, as folhas cobertas de orvalho, a tépida carícia das alvoradas […].

Os derramamentos do autor enaltecem de maneira cansativa o protagonista — semelhante ao que ocorrera em Monarcas e Alvos — apenas para, no final, condená-lo “às mágoas cruciantes do seu viver, de todo, para sempre, desamparado, perdido…”. Mal contada e sentimentalóide, a narrativa é ótimo exemplo do estilo bombástico de Alcides Maia.

Dois gauchos
A esgotante tarefa de ler Alma bárbara serviu para me lembrar do argentino Ricardo Güiraldes (1886-1927) e seu Don Segundo Sombra, publicado em 1926 — a melhor contraposição à linguagem e aos gaúchos de Alcides Maia.

Romance de formação, em que o jovem Fabio Cáceres se relaciona com o vaqueiro que dá nome ao livro, aprendendo com ele os valores, a ética da gauchería, Don Segundo Sombra é exemplo de sutileza, de lirismo comedido, síntese do imaginário da llanura pampeana. Esse mestre altivo, que leva Fabio às portas da maturidade, percorre, cruzando os Pampas, o trajeto inverso dos personagens de Maia: torna-se, página a página, uma figura mítica — até o momento da despedida, em que Cáceres afirma: “Aquello que se alejaba era más una idea que un hombre”.

Trata-se de romance superior: nada de efusões incontroláveis; a adjetivação, sóbria; as frases, buriladas, muitas vezes lacônicas, reproduzem a personalidade do gaucho altivo, de heroísmo ático. Güiraldes produziu um clássico que, em inúmeros trechos, nos transporta a certo universo épico, enquanto Maia, romântico decadente, é apenas o filho tardio de Alencar.

NOTA
Desde a edição 122 do Rascunho (junho de 2010), o crítico Rodrigo Gurgel escreve a respeito dos principais prosadores da literatura brasileira. Na próxima edição, Jackson de Figueiredo e Literatura reacionária.

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Foi na Palma, numas carreiras, logo depois de Ponche Verde, que nos pechemos. Lá andavam os dois acolherados, onde um ia, o outro ia e, por que não sei, mas não se largavam nem à mão de Deus Padre. Se um falava, o outro coçava as armas; se um se mexia, o outro também, os dois atavam por um só e, segundo voz do mundo, na mesma china se rascavam...

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Alcides Castilhos Maia nasceu em São Gabriel (RS), em 15 de outubro de 1878, e faleceu no Rio de Janeiro, em 2 de outubro de 1944. Estudou Direito, mas entregou-se desde cedo ao jornalismo e à literatura. Com 19 anos publicou Pelo futuro, ensaio positivista. Sua obra jornalística foi reunida em Através da imprensa. Foi diretor do Museu e Arquivo Histórico Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, e bibliotecário do Pedagogium no Rio de Janeiro. Foi também deputado federal. Deixou o romance Ruínas vivas (1910), as coletâneas de contos Tapera (1911) e Alma bárbara (1922), além de ensaios, crônicas e livros sobre folclore gaúcho. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1913.