Palavra por palavra

fevereiro 2019 / Palavra por palavra / O feijão e o sonho

Texto publicado na edição #226

O feijão e o sonho

Qual é o papel da literatura neste momento?

> Por RAIMUNDO CARRERO

Começo a coluna deste mês com o título do romance de Orígenes Lessa — O feijão e o sonho — para refletir sobre o momento histórico brasileiro e, em consequência, sobre a situação mundial, a partir de uma declaração de Sartre no começo dos anos 1960. Mais do que uma declaração, uma palavra de ordem. Qual o papel da literatura neste momento? A questão é extremamente grave. Vejamos: a proposta sartreana parece exagerada, causou muito debate na época, mas vamos a ela, sem mais tardar.

No artigo Sartre contra Sartre Ou a missão transcendente do romance, Ernesto Sabato lembra: “Em abril de 1960 Sartre renegou a sua obra de ficção, chegando a dizer em uma reportagem que um romance como ‘A náusea não tem nenhum sentido quando em alguma parte do mundo há uma criança morrendo de fome’.”

Sabato continua: “E, embora tenha admitido que continue pensando que os homens são animais angustiados, defendeu a ideia de que seus males metafísicos devem ser relegados a um segundo plano. Como um luxo ou uma traição”. Mais adiante, Sabato concorda com a preocupação de Sartre, mas pondera que esquecer a obra psicológica, por exemplo, seria invalidar todo o caminho da arte.

Em Pernambuco, o escritor Hermilo Borba Filho tomou uma posição firme imediatamente e declarou que a obra literária não faz nenhum sentido enquanto um só homem estiver sendo injustiçado em qualquer parte do mundo, o mais longínquo possível. Concordava, enfim, que a obra literária não só deve estar ao lado da dor humana, mas deve denunciar todas as formas de injustiça usando, para isso, a obra literária, em sua totalidade.

A partir daí, a obra de Hermilo sofreu uma modificação radical, sobretudo no romance Agá, que faz uma revisão da história da tortura no Brasil, por isso mesmo com forte conteúdo, sem esquecer a forma. Nesta obra, por exemplo, lança o primeiro texto literário do Brasil, com a técnica dos quadrinhos, em colaboração com o artista plástico José Cláudio. Lançado pela Civilização Brasileira, o romance causou grande espanto, sobretudo porque o personagem mudava radicalmente de personalidade, a cada capítulo, embora sempre escrito na primeira pessoa. Um romance escandaloso, em todos os sentidos.

O livro causou grande polêmica nacional com alguns críticos acusando Hermilo de esconder o conteúdo importante. Com o recurso excessivo da técnica. Mesmo assim foi exaltado e aplaudido. Em seguida, o autor se filiaria à escola que seria chamada de “realismo mágico”, criada por Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa com a participação de outros prosadores da América Latina, entre eles o uruguaio Juan Carlos Onetti.

Mesmo assim, concordava com Ariano Suassuna, para quem o folheto de cordel continha, ele próprio, os elementos de um realismo mágico, bem vivos na cultura nordestina. Por este caminho seria possível construir uma obra político-social com bases em nossas raízes.

Nasce daí o Movimento Armorial, sobretudo em relação ao próprio folheto, visto como elemento não só enriquecedor, mas agregador, por reunir a prosa, a poesia e as artes plásticas — no caso da capa.

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