Ensaios e Resenhas

outubro 2011 / Ensaios e Resenhas / O fascínio pelo invisível

Texto publicado na edição #130

O fascínio pelo invisível

A fama de um escritor não precisa combinar com a imagem que um leitor tem dele. As obras ficam famosas […]

> Por LUIZ GUILHERME BARBOSA

Augusto Frederico Schmidt por Ramon Muniz

A fama de um escritor não precisa combinar com a imagem que um leitor tem dele. As obras ficam famosas porque elas encontram condições que possibilitam sua leitura, e estas condições são sustentadas por uma rede de instituições (editoras, jornais e revistas, universidades, prêmios etc.). O livro chega ao leitor como um monumento, exposto em praça pública. Só que é preciso levá-lo para casa, para onde for, e transformar-se em um leitor do livro, soberano e anônimo.

Às vezes o leitor se ressente do lugar “injusto” que uma obra ocupa na história da literatura e procura então trocar leituras para modificar as percepções. Há uma cegueira das instituições (a justiça é cega) que não vê que, para o leitor, justo é ter à mão o livro querido, trocá-lo em palavras com leitores amigos, guardá-lo à prateleira para leituras futuras. Ler é um modo de fazer justiça a si mesmo.

Há na poesia brasileira diversos poetas que habitam o limbo, entre o esquecimento de instituições e o de leitores. Um deles é Augusto Frederico Schmidt, carioca cuja obra poética atravessa o século 20, de 1928 a 1964, com força e originalidade constantes, e acaba de ser antologizada pelo professor Ivan Marques para a coleção Melhores poemas, dirigida por Edla Van Steen, na editora Global.

Desde que surgiu, em 1928, com o Canto do brasileiro, Schmidt reagiu ao poema modernista da década de 1920, marcado pela procura do Brasil arcaico e local, pelo humor dos poemas-piada, pelo choque de imagens, desejando, enfim, inserir na forma do poema o caos organizado das cidades brasileiras que cresciam então. Pode parecer contraditório, mas a reação de Schmidt era progressiva, abrindo caminho para um outro modernismo.

Esta deriva múltipla do projeto modernista foi regra num movimento que deixou, como um dos seus legados fundamentais, o direito permanente à pesquisa estética, como afirmaria Mário de Andrade em conferência de 1942. Apesar disso, houve a tendência, praticamente inaugurada por Schmidt, de uma poesia modernista marcada pelo legado do simbolismo, que, de maneira geral, assumia a coloquialidade da linguagem poética sem abrir mão do tom sério e das paisagens imaginárias e fantásticas à procura de uma experiência que transformasse ou escapasse da angústia cotidiana. São até hoje pouco lidos Emílio Moura, Dante Milano, Henriqueta Lisboa. E Schmidt.

Ele que, no Canto do brasileiro, como num manifesto, projetava sua obra assim: “Não quero mais o Brasil/ Não quero mais geografia/ Nem pitoresco.// Quero é perder-me no mundo/ Para fugir do mundo”. Não havia propriamente um cosmopolitismo em seus versos, porque a recusa em tematizar as coisas brasileiras andava lado a lado com a recusa em tematizar as coisas, o tempo presente, qualquer espaço geográfico ou qualquer tempo que pudessem ser localizados concretamente. Há, em Schmidt, um fascínio pelo que há de invisível no mundo, como se sua poesia lutasse para preservar uma espiritualidade em extinção. Tanto assim que o poema Vazio avalia o tempo presente — o poema é de 1930 — como o que sobrou de um mundo sem poesia.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.

Note que as máquinas modernas comparecem no poema como restos sem poesia e a arte parece impotente para intervir neste mundo. A tensão entre uma poesia ausente das coisas atuais e a necessidade de poesia representa, por um lado, um ressentimento da vida moderna e, por outro, uma procura da poesia, que é necessária, “fora” do mundo, ou, melhor dizendo, do mundano.

Neste poema, a simetria das duas estrofes (que repetem os dois versos iniciais e o começo do terceiro verso, a enumeração de elementos do quarto verso e a complementação da lista dos restos em mais dois versos, totalizando seis) é perturbada somente pelo último verso do poema, que, por causa disso, parece um verso excessivo, de exceção, o mais longo do poema e o único que apresenta uma rima ao final, com o verso anterior. A necessidade de poesia num mundo sem poesia é, como o verso que a invoca, uma maneira de exceder o próprio tempo, desejar mais que a norma, diferir e escapar à simetria.

O poema, que parece simples e natural, é construído e angustiado. O vocabulário coloquial, a construção simples das frases (à exceção do verso “No céu os anúncios luminosos”, com uma inversão pouco coloquial), os versos brancos dão a este poema — e à obra de Schmidt — uma naturalidade que contrasta com a angústia esperada como reação ao tempo antipoético. Mesmo a repetição de versos e frases, que num poema tão famoso quanto o José, de Carlos Drummond de Andrade, aumenta tanto a angústia do leitor, no poema Vazio assume a placidez de um aristocrata que não se afetasse pelas circunstâncias — ainda que tão graves.

Contradições
Estas contradições enriquecem a obra do poeta. A simplicidade da linguagem do poema, por exemplo, herdada do primeiro
modernismo, em lugar de afrontar o preciosismo de uma poesia que se desejava forte por uma linguagem nobre e se aproximar da fala do povo, faz da obra de Schmidt o testemunho do homem comum em estado de poesia — em tempos difíceis. Por reconhecer a dificuldade histórica de poesia e se ver como homem comum de fala comum, o poeta carioca aproxima-se dos primeiros modernistas; no entanto, distancia-se por não abrir mão de enxergar poesia nos lugares comuns da lírica, e fazer do poeta o revelador do invisível.

Em Mensagem aos poetas novos, lemos logo de cara: “A poesia é simples/ Vejam como a lua úmida/ Surge das nuvens/ Livre e indiferente”. Mais à frente: “Agora sei que é simples a poesia/ E que é a própria vida”. A beleza da imagem lunar está em sua sobriedade combinar com a simplicidade com que o poema a vê. Novamente, a linguagem simples e aparentemente tão natural guarda a inesperada combinação noturna da vogal “u”: “a lua úmida surge das nuvens”. Parece até que Schmidt desejava ser tão natural que era melhor não perceber sua técnica apurada, apenas senti-la, vagamente, porque assim ela continuaria parecendo natural. Como a relação da poesia com a vida: que não fosse construída, que não fosse difícil, mas simples e misturada. Que parecesse natural.

A poesia de Augusto Frederico Schmidt é única no modernismo. Ela, que desejou universalizar nosso poema moderno, hoje é fortemente lida em sua singularidade, em seu jeito muito próprio de responder com poemas a vida do homem da cidade. Diversos leitores, sempre a olhando com alguma estranheza e alguma suspeita quanto à sua naturalidade, procuraram escrever suas leituras de Schmidt. Estas leituras aparecem em fragmentos na antologia recém-publicada, o que, aliás, é um mérito da coleção Melhores poemas.

Drummond, por exemplo, menciona o “desdém de agradar”, e Manuel Bandeira, numa leitura sensível e original, lembra no poeta um timbre próprio de velhos profetas, porque em sua obra persistem “harmônicos elegíacos”. A história dessas leituras está muito bem contada na introdução de Ivan Marques ao volume, Música do vento. A edição traz ainda uma nota biográfica do organizador, uma pequena biografia e uma bibliografia sobre o poeta, além de considerações críticas de Drummond, Bandeira, Antonio Candido, Mário de Andrade e Gilberto Mendonça Teles.

Este modelo de edição, que perdura há tantos anos, é muito generoso com o leitor. Infelizmente, falta à coleção uma revisão mais apurada do texto, o que persiste neste volume dedicado a Schmidt: “aluluia”, em vez de “aleluia”, “da mundo”, em lugar de “do mundo”, são dois dos problemas pontuais que de modo algum afetam o mérito da obra. Afinal, é de extrema importância para os leitores brasileiros uma coleção que disponibiliza a obra de poetas de todos os períodos literários, inclusive os contemporâneos, pautando-se claramente pela multiplicidade de estilos e pela independência em relação ao cânone.

Trata-se, aliás, de um modo de suprir uma deficiência do mercado editorial, que não disponibiliza sistematicamente as obras de nossos autores clássicos, e elas acabam ficando à mercê da divulgação decorrente das efemérides (os famosos centenários) e dos festivais literários, que, como se sabe, envolvem interesses não muito literários.

Afinal, não é gratuito que a obra de Schmidt reapareça justo nesta coleção. Num dos mais belos poemas do livro, Inventário, lemos uma lista extensa de imagens que guardam, para o poeta, a poesia: o berço vazio, paisagens nunca visitadas, casas imaginadas desertas, velhos barcos de pesca no mar. Há sempre uma invisibilidade, um esquecimento nessas imagens. A um momento, diante de uma mulher, o poeta vê ressuscitar “o mistério de tua inexistência”. Todo esse arquivamento de sensações esquecidas — que paradoxo! — vai na contramão de um tempo, ainda contemporâneo, em que ser é ser visto. A poesia é assim: uma força política, a seu modo. Rever uma história de ausências, como a se costurar:

Dentro de mim adormecido
Retomei o fio
De uma vida sepultada

Como a se costurar com o fio invisível da poesia. Fio, mas invisível. Mundo, mas sem poesia. A lembrar o poema Vazio e a admirável frase de Mário de Andrade dedicada a Schmidt, no reconhecimento de toda a contradição e a grandeza do poeta: “A poesia vence, neste grande poeta que a matou”.

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AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT

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Nasceu em 1906, no Rio de Janeiro (RJ), onde faleceu em 1965. Poeta modernista sem integrar nenhum movimento, sua obra influenciou a geração de poetas surgida na década de 1940. Foi editor e empresário, chegando a integrar o governo de Juscelino Kubitschek.

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Augusto Frederico Schmidt
Global
252 págs.