Ensaios e Resenhas

maio 2014 / Ensaios e Resenhas / O falso verdadeiro

Texto publicado na edição #169

O falso verdadeiro

Os fenômenos excêntricos da obra de H. G. Wells produzem formas de vivência que desconhecemos

> Por NELSON SHUCHMACHER ENDEBO

H. G. Wells por Vitor Vanes

H. G. Wells por Vitor Vanes

Certa vez perguntava Paul Valéry, após afirmar que “o falso sustém o verdadeiro”: “o que seria de nós sem a ajuda do que inexiste?”. A problemática que essa questão invoca é tão antiga quanto o próprio pensamento. Há, no plano das ações humanas, um algo de impossível que é misteriosamente a imagem necessária das nossas realizações concretas. Não há política que se desprenda definitivamente de seu veio utópico. A literatura presta um vigoroso e matizado testemunho disso, e o caso do britânico H. G. Wells, pioneiro escritor de utopias científicas, é exemplar nesse sentido. A coletânea O país dos cegos e outras histórias, reunindo a segunda versão do conto-título e outras 17 narrativas curtas cobrindo o período de 1894 a 1939, dá uma amostra farta dos gêneros pelos quais Wells passeou em sua longa carreira, desde a ficção científica que o fez famoso, até a aventura, o conto policial e a fábula.

Na segunda metade do reinado da Rainha Vitória (1837-1901) o debate sobre as contradições sociais do Império Britânico — à época o mais poderoso e abastado do mundo — foi fortemente pontuado pelos termos gerais do imperialismo e socialismo, que figuravam como possíveis reações ao predomínio, durante boa parte do século 19, da fé inabalável no bem-estar social e espiritual como consequência do progresso técnico e científico. Esse característico otimismo é exemplificado sobretudo no trabalho histórico de Thomas Macaulay e na poesia de Alfred Tennyson. Londres é a primeira cidade do mundo a ter mais de um milhão de habitantes, enquanto a empresa colonial se estende por todo o globo. É a Grã-Bretanha da restauração católica de Oxford, um movimento radical a seu modo; do utilitarista John Stuart Mill e do reformismo visionário e filantrópico de John Ruskin. É a nação dos dândis desinteressados, dos estetas decadentes, de Swinburne e Oscar Wilde; a nação pós-Malthusiana de Marx, Engels, Darwin e de Herbert Spencer, cujas ideias afetaram, para o bem e para o mal, todos os debates relevantes da época. É o tempo também do jornalismo, do sensacionalismo dos folhetins, e da literatura como ganha-pão da pequena burguesia, como a de Wells. Um dos mais fecundos períodos da literatura inglesa. Wells foi socialista como William Morris e Bernard Shaw, crente de que a degeneração da sociedade britânica fosse resultado do desequilíbrio econômico, mas a tendência de sua arte não é a panfletagem, como é por vezes a de Shaw, tampouco é o idealismo, como na Inglaterra pastoral de Morris; ela é revolucionária na medida em que o entusiasmo pela divulgação científica, tão típico do período, é direcionado para acionar o potencial reformador da ordem social que a técnica conserva e desvela. Wells fora aluno do biólogo darwinista Thomas Huxley, e funda suas visões renovadoras nas ciências e nas miopias científicas mais proeminentes do fin-de-siècle vitoriano, a geologia comparada, a antropologia, a zoologia, a física teórica e a etnologia. Nesse sentido, embora os enredos de Wells sejam fantásticos, ele é um realista confortavelmente situado na tradição romanesca inglesa, como bem aponta o editor e tradutor Braulio Tavares no prefácio.

Modernismo literário
O encouraçado terrestre descreve os avanços na tecnologia bélica, especulando não só a mudança permanente que os tanques de guerra trariam à estrutura dos combates, como também a disputa assídua de nações tecnocratas para dominá-la; O estranho caso dos olhos de Davidson propõe a visão à distância, sugerindo que o tecido espaço-tempo possa ser dobrado, como um papel; o conhecidíssimo A estrela, protótipo dos disaster movies hollywoodianos, imagina o cataclismo humano ocasionado pela passagem de um cometa, e termina com uma reflexão sobre a Terra devastada segundo a visão dos marcianos, que ignoram as dimensões “reais” da catástrofe, antecipando assim, timidamente, o perspectivismo que marca o modernismo literário. Esse não é entretanto um perspectivismo nietzschiano. Wells é um moralista de tintura cristã, como Dickens, um democrata “natural” para os padrões vitorianos. Estrutura o principal conto da antologia, um de seus prediletos, O país dos cegos, curiosamente nos moldes da narrativa do Evangelho, abrindo mão entretanto de seu conteúdo teológico específico. O conto narra a chegada de Nunez, um alpinista perdido nos Andes, a uma comunidade politicamente harmoniosa de cegos em um território geograficamente isolado por uma série de desastres naturais. Da antropologia, Wells tira explicações para a organização social do grupo, sua religião, seus ritos e crenças; da etnologia, a razão para os conflitos culturais entre Nunez, que enxerga, e os demais. Os mitos dos cegos são desmistificados pela visão compreensiva do narrador, francamente sentenciosa e, dirão hoje, preconceituosa. Nunez está certo desde o início, mas é hostilizado e rejeitado pelos cegos como um lunático; eles, por sua vez, não possuem sequer o vocabulário para verbalizarem o ato de ver. Mas Nunez se adapta, aprende as doutrinas cosmológicas dos locais, se apaixona por uma mulher cega e esquece do mundo exterior, até o dia em que uma catástrofe finalmente abre passagem para fora. Nunez tenta avisar a todos sobre o desastre iminente, mas é rechaçado novamente como um herege, um radical, um louco. Aquele que vê a verdade, o salvador, é escorraçado por uma comunidade de tolos. Mas a estória não é um mero conto moral, e uma leitura dela como anedota rebaixando os cegos me parece equivocada. Ela é uma contribuição notável para a imaginação do futuro, considerando uma habilidade dir-se-ia inata, a visão, como técnica, como artifício, deslocando o sentido natural da percepção visual e valorizando, portanto, o espaço vital dos cegos em um plano de dignidade equipolente. Nisso também Wells adumbra o modernismo.

Outras narrativas valem menção e admiração: A marca do polegar, à maneira de Conan Doyle, é um divertido conto policial que introduz as impressões digitais como prova de um crime, algo que fascinava Sherlock Holmes; A história do falecido sr. Elvesham é uma tragédia metafísica que mantém o interesse do leitor até o final surpreendente, em uma das melhores narrativas curtas de Wells; Pollock e o homem do Porroh, uma sátira certeira das pesquisas etnológicas nas colônias africanas e da obsessão do dito mundo civilizado pela sanidade mental; O império das formigas brinca com a ideia de que o fenômeno da inteligência possa emergir entre as formigas sul-americanas, uma bem-humorada crítica da mentalidade imperialista por parte do autor, que se deleita, ao inverter os vetores do colonialismo, com os próprios excessos da sátira diante da invasão europeia das formigas, para a qual ninguém está preparado. Otto Maria Carpeaux notou com acuidade o grande humorista em Wells, herdeiro de Charles Dickens. Com efeito, o monóculo doutor Lidgett, em A história de Plattner, ou a esposa chantagista e interesseira do amável e desengonçado sr. Cave, em O ovo de Cristal, poderiam facilmente ser confundidos com criações dickensianas. Esse último conto, em sua estrutura narrativa, na maneira em que estabelece os fatos e introduz a cena e, principalmente, como apresenta o personagem principal “trazendo na barba alguns farelos com manteiga de seu desjejum”, existe inteiramente no vastíssimo espaço imaginativo aberto por Dickens, que carece da psicologia moral de um Joseph Conrad ou o senso agudo de declínio de um Thomas Hardy, mas que constitui, a seu modo, um abundante e convincente universo romanesco, no qual as mazelas e as delícias do mundo podem ser devidamente representadas com a sua própria gravitas, e não como simples recurso retórico de suporte a um argumento. Tavares, no prefácio, comenta que O ovo de Cristal daria um romance, e é uma pena que Wells não o tenha desenvolvido, pois ele me parece ser o único conto da antologia que apresenta personagens imediatamente cativantes, que excedem o papel de veículo imediato para a expressão de uma ideia motriz. E a ideia, claro, maravilhosa: o artefato referido no título se comunica misteriosamente com um outro mundo. O conto termina, como de costume, sem descobrirmos o que é aquilo, mas não sem que antes tenhamos uma crítica das teorias ópticas da virada do século 20. Jorge Luis Borges reconheceu a influência desse conto em duas histórias n’O Aleph.

O editor e tradutor Braulio Tavares, cujo trabalho com o autor já rendeu edições nacionais dos célebres romances A máquina do tempo e A ilha do dr. Moreau, fez um ótimo trabalho de seleção. A tradução é no geral fluida e correta, altamente legível, embora algumas soluções não transmitam suficientemente o sabor da prosa de Wells. Por exemplo, em O império das formigas, Wells escreve: “Holroyd was learning Spanish industriously, but he was still in the present tense and substantive stage of speech, and the only other person who had any words of English was a negro stoker, who had them all wrong”. Tavares traduz corretamente; a perda é estilística: “Holroyd estudava o espanhol com toda aplicação, mas ainda estava naquele estágio feito apenas de substantivos e verbos no presente, e a única outra pessoa que sabia algumas palavras em inglês era um negro que trabalhava na fornalha e não conseguia pronunciá-las direito”.

É comum nos contos de Wells o narrador confessar que não sabe bem o que está ocorrendo, ou que obteve as informações do relato indiretamente. O que é verdadeiro? A veia utópica do autor não permite que o fenômeno em tratamento seja circunscrito pelo discurso científico disponível. Mas Wells talvez seja um otimista como seus contemporâneos, esperando que um dia façamos a descrição exata do que há. Há contudo um outros viés, igualmente contemporâneo, que talvez seja mais visível hoje: os fenômenos excêntricos de Wells produzem formas de vivência que ainda não conhecemos, como os animais das insondáveis profundezas em Os invasores do mar. E não há na gramática dos homens formas correspondentes às suas ações. Essa falta produz a literatura, que a busca. E assim o falso sustém o verdadeiro.

 

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Herbert George Wells

Nasceu em 1866, em Bromley, Kent, e morreu em Londres, em 1946. Filho de um pequeno comerciante, teve de trabalhar desde cedo para ganhar a vida. Estudou com o cientista e humanista T. H. Huxley. Deu aulas de biologia antes de se tornar jornalista e escritor profissional. Autor de mais de uma centena de livros, entre romances, ensaios e contos. No fim do século 19, publicou obras pioneiras da ficção científica: A máquina do tempo, A ilha do dr. Moureau, O homem invisível e A guerra dos mundos.

Falou das belezas da visão, da contemplação das montanhas, do céu e da aurora, e eles o escutavam com uma divertida incredulidade que aos poucos foi se tornando condenatória. Disseram-lhe que na verdade não existia montanha alguma, e que aquela área rochosa onde as lhamas pastavam era sem dúvida o fim do mundo; (...)

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H. G. Wells
Trad.: Braulio Tavares
Alfaguara
342 págs.