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abril 2018 / Entrevistas / O expurgo

Texto publicado na edição #216

O expurgo

Entrevista com João Silvério Trevisan, autor do autobiográfico "Pai, pai", no qual encara de frente todos os fantasmas que o rondam desde sempre

> Por RODRIGO CASARIN

João Silvério Trevisan, autor de Pai, pai.

João Silvério Trevisan, autor de Pai, pai.

“Um acerto de contas com a figura do meu pai e, por extensão, com meus demônios interiores ligados à sua imagem.” É dessa forma que João Silvério Trevisan apresenta Pai, pai, o seu novo livro. Em outro momento, ele escreve: “Parafraseando o samba-canção de Lupicínio Rodrigues, eu poderia dizer, sem receio: ‘A violência é a herança maior que meu pai me deixou’. Iniciei aí o processo de fazer as pazes comigo mesmo — e nunca iria terminar, é claro”. Esses dois trechos são essenciais para compreendermos a obra.

Ainda que se utilizando dos artifícios do romance, Pai, pai é um relato autobiográfico, é o expurgo de Trevisan com relação a José, seu progenitor. Um homem alcoólatra, muitas vezes violento — que agredia os filhos e chegava a atacar a mulher com uma pá de tirar pão do forno — e irracional, que levou a família à ruína, à miséria, mas que não suportava passarinhos presos em gaiolas, chorava na hora da Ave-Maria e sabia o quanto a filha gostava de moranguinhos.

Foi cruel e brutal a infância de Trevisan. Quando não estava sendo agredido de tudo que é forma pelo pai, alguém incapaz de lhe demonstrar qualquer tipo de carinho ou afeto, sofria nas mãos de tios e conhecidos. Desde cedo com atração por pessoas do mesmo sexo, era alvo fácil dos machões que habitavam o interior de São Paulo — e ainda estão por todos os cantos do país — nos anos 1940 e 1950. Maricas, maricas, costumava ouvir com frequência.

Ao menos a mãe de Trevisan parecia ser uma santa. Se suportava as surras que levava de José, também servia de alicerce para o filho, junto com sua linhagem. “Comparava a família do meu pai com a da minha mãe e não tinha dúvidas: apesar de moralistas e religiosas em demasia, minhas tia e tios maternos entendiam perfeitamente a linguagem do afeto. Fazer carinho era para eles algo natural. Não lembro de um único gesto afetuoso que meu pai me tenha feito, nem sequer de afeto difuso”, registra o autor.

Não pense, no entanto, que Trevisan se limita a registrar sua infância em Pai, pai. Apesar desse momento da vida ter uma importância evidentemente fundamental, a obra reconstrói a trajetória emocional do autor, o processo de “ser homem, sim, mas não igual aqueles que conhecia, não igual ao ‘cachaceiro’ José”, numa espécie de livro de constante formação e transformação que resulta em algo que “é, com certeza, um livro de perdões”.

Nesse processo, também possuem papéis fundamentais a religião — ele foi viver em seminário para escapar do pai na juventude, mas acabou encontrando um outro tipo de repressão e violência — e a arte, esta libertadora. “A arte me permitiu ter alguma esperança — ou fé”, confessa, depois de já ter mostrado que “saber que meninos do cinema também apanhavam me elevava até seu patamar. Nesse universo de bandido e mocinho, eu de certo modo podia me sentir mais próximo do mocinho”.

Numa época em que abundam autoficções enfadonhas em nossa literatura, um relato assumidamente autobiográfico como este de Trevisan mostra como muitas vezes a “Literatura do Eu” não só faz sentido, mas é de grande relevância para nossa arte. Se a relação problemática com o pai imediatamente — e de maneira fácil, óbvia — remete a Kafka, outros dois autores me vieram à mente ao ler Pai, pai: Silviano Santiago (por conta de seu Mil rosas roubadas, livro que defino como um ensaio biográfico de extrema sensibilidade, uma de declaração de amor) e James Rhodes, autor da brutal autobiografia Instrumental, na qual revela uma infância também repleta de cenas chocantes e mostra como isso se refletiu ao longo de sua vida.

A força e a franqueza de Trevisan na obra também alcançam o meio literário — um “cercadinho provinciano da esquerda brasileira” — e essa própria esquerda. “Considero o Brasil um país enrustido por natureza, a começar pelo campo da política nacional. […] Não tenho receio em dizer: nos países onde morei ou que conheci, não encontrei intelectuais mais provincianos do que no Brasil.” E olha que teve contato com gente tacanha por aí, viu. Num momento que caracteriza essa mazela intelectual, o autor recorda de quando um namorado, professor de ciências políticas da Universidade Nacional Autônoma do México, o colocou contra a parede e disse: ou eu ou o escritor reacionário. Na cabeça-dura do cidadão, alguém de esquerda não poderia ler o genial Jorge Luis Borges.

Hoje com 73 anos, a estreia de Trevisan na literatura aconteceu em 1976, com Testamento de Jônatas deixado a David. Depois disso vieram mais de uma dezena de livros como Em nome do desejo, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, Devassos no paraíso, Ana em Veneza, Pedaços de mim e Rei do cheiro. Abordando com frequência questões relacionadas ao homossexualismo, chegou a ser taxado de “escritor LGBT”, algo que considera redutor e que rejeita veementemente. Também sente que sua literatura é injustiçada, que poderia ter um reconhecimento muito maior do que tem hoje em dia. Ainda na arte, Trevisan também atua como ensaísta, dramaturgo e roteirista.

Sobre Pai, pai e sobre sua trajetória literária e artística que Trevisan e eu conversamos no seu apartamento em São Paulo, no final da manhã daquela quinta-feira [8 de março] quando todos da literatura ainda estavam incrédulos com a precoce morte de Victor Heringer.

• Pai, pai é apresentado como romance autobiográfico. Ele foi trabalhado dentro do espectro da ficção ou é mesmo uma autobiografia?
Quem colocou isso daí foi o pessoal da catalogação, mas é uma autobiografia mesmo. No entanto, há um sentido ficcional na autobiografia muito intenso. Qualquer história que é recontada tem um nível muito grande de invenção, de fantasia. O imaginário preenche um monte de lacunas, altera fatos sem que você se dê conta. Você acha que é aquilo mesmo que está na sua cabeça, mas não tem absoluta certeza. Na minha cabeça, meu tio fazia uma salada de almeirão deliciosa, servia numa bacia com vinagre, cebola e óleo, não era nem azeite, e a gente se juntava em volta e comia aquilo com pão. Na minha cabeça meu tio fazia aquilo frequentemente, mas provavelmente foi uma única vez. Essa dimensão a gente não controla. Mas, fazendo essa ressalva, é sim um livro autobiográfico, e eu quis rasgar a minha alma. Quis rasgar e exibir o caos da minha alma.

• Por que era o momento de rasgá-la? Como você sentiu isso?
Acho que existe um movimento dentro da gente, que é ainda mais intenso a quem trabalha com criação, que exige que você abra cada vez mais as portas. Quando dou minhas oficinas, digo: vocês estão aqui para aprender a se expressar, sua vida interior é a matéria-prima da sua literatura, inclusive ficcional. Eu não quero que fique uma literatura confessional, mas o confessionalismo pode ser matéria-prima para que você tenha uma construção ficcional. Para isso é necessário trabalhar com tudo o que você tem dentro de si, inclusive os demônios — acho que principalmente os demônios, porque são os mais complicados de lidar enquanto criador. Então, por que escancarar a alma? Eu não tinha nenhuma outra opção. Tem escritor que eu leio e percebo que ele nunca trabalhou os seus demônios, que não tem controle sobre eles. Aí se torna uma literatura muito contestável, oscila entre grandes bobagens e grandes voos. Você não tem como trabalhar de forma criativa se está sendo levado por forças maiores que você.

• Falta justamente a autoria nesse caso?
Falta autoria, mas não significa que você precisa realmente entender tudo aquilo que está dentro de você. É preciso ter uma generosidade e se abrir para os seus demônios, a autoria pode ser metáfora para essa generosidade. No meu caso, era uma generosidade para comigo mesmo escancarar a alma. Eu não posso me envergonhar daquilo que eu sou. Me envergonho, mas não deveria. Então, é um exercício interior, espiritual, psíquico, importantíssimo: trabalhar com aquilo que te dói mais, te marca mais, te é mais negativo. Tudo isso te coloca numa máquina de moer carne e dessa máquina sai um pouco do meu eu melhorado, supostamente. A revelação do teu eu nunca chega ao fim, como a casca da cebola, que sempre tem outra camada por baixo. Outro dia estava lendo o resumo de um desses livros que estão na moda, de filósofos efêmeros, analisando a importância de guardar o seu segredo. O ponto de partida dessa merda já é um equívoco: não existe segredo dentro da alma. Quando você abre um segredo, existem outros dez dentro dele. E se você abre esses dez, encontra outros tantos. O processo de Pai, pai foi isso. Tinha 70 anos quando comecei a escrever. Era um exercício que não digo final, mas extremo. Minha obra na verdade sempre foi escancarada, por isso que é considerada problemática por muita gente. Por isso que muita gente não compreende o que estou fazendo até hoje. Para mim, cada livro é um tipo de abordagem, gosto de me considerar um escritor sem estilo. A cada livro gosto de reinventar minha literatura. Me parece que você se escancarar é a melhor maneira de encontrar a matéria-prima dentro de você. No Pai, pai, o que fiz foi trabalhar literariamente a expressão, o que está longe de significar floreio. É a verdade literária: só o trabalho da língua pode alcançar a expressão adequada para aquilo que eu quero.

É sim um livro autobiográfico, e eu quis rasgar a minha alma. Quis rasgar e exibir o caos da minha alma.

• E como você saiu desse processo interno que enfrentou com o Pai, pai?
Muito mudado. Foram dez anos de análise num livro, no mínimo.

• Dá mesmo essa impressão quando chegamos ao final da história.
Mas essa é toda a questão do livro. Eu não menti quando disse, no começo da narrativa, que tudo o que meu pai me deu foi um espermatozoide. Também não menti com a mágoa implícita nessa afirmação. Aí você chega ao final e, enquanto leitor, pode perceber que aconteceu alguma coisa no decorrer da história. Então, o livro é um processo de desdobramento interior meu.

• Pai, pai é um livro extremamente violento, em diversos aspectos. Uma das cenas que talvez simbolizem quão violento ele é, aliás, é a de um afago: quando você está no bar do seu pai, é tocado, assediado, por um cliente, e gosta disso porque está recebendo algum tipo de carinho, um contato físico que não é uma agressão tal qual você conhecia. Como foi reviver isso tudo?
Em geral, foi mais difícil chegar até a questão do que repassá-la pro papel. Por exemplo: várias circunstâncias que estão no livro não me pareciam interessantes. E não me pareciam interessantes porque eu não tinha dado conta da importância daquilo para mim mesmo. Há passagens que estavam completamente esquecidas, outras tinham uma importância secundária, mas quando comecei a pensar nelas, vi que os circuitos iam se complementando. Antes, tudo isso não existia enquanto matéria-prima para o meu livro. Agora, tudo se conecta numa trajetória pessoal.

• Tem algum exemplo disso?
O momento em que meu pai cai na rua. Eu era um adolescente e meu pai, bêbado, cai na rua, passa vergonha e ponto. Depois que caiu a ficha que ali foi a primeira vez que falei pra ele: foda-se. Ali eu começo a me separar do meu pai, a me separar da opressão paterna. Se houve um momento em que proclamei a libertação da minha mãe, quando tirei sangue de um colega numa briga por conta do [ator] John Ford (santo John Ford!), nesse caso foi com o meu pai, que era muito mais complicado, até por conta da religião, da piração católica, da questão do perdão. Esse momento é bem emblemático do resgate que você vai fazendo da sua expressão para si mesmo. Primeiro é preciso fazer isso para depois colocar essa expressão para fora.

• Ao longo do livro você também fala bastante sobre a questão do exílio, o exílio em diversas formas. Ainda tem muito o sentimento de viver exilado?
Permanentemente, em todos os sentidos.

• Há sempre uma sensação de não pertencimento, no seu caso?
Sempre. Na literatura brasileira, por exemplo. Na minha vida sexual, que provavelmente foi o momento mais crítico do exílio. Do ponto de vista político-partidário, porque frequentemente não tenho interlocutores. Me considero um cara de esquerda, mas não poupo a esquerda, não tenho motivos para mentir para mim mesmo. E o que vejo aqui, com raríssimas exceções, é uma mentira institucionalizada sobre o que está acontecendo neste país. Chegou um momento em que ou eu mantinha o afeto pelos meus amigos ou discutia política: então, vá à merda a discussão porque ela vai acabar com a minha amizade. Eu já fui agredido e eu compro briga, sou muito brigão quando tenho que me confrontar com alguma situação. Não estou me escondendo, mas estou me poupando para manter essa relação de afeto que o Brasil perdeu. O Pai, pai tem um sentido completamente contemporâneo nesse ponto, que é o sentido do perdão, algo que perdemos.

• Em Pai, pai você também fala brevemente sobre uma viagem que fez pela América Latina até chegar aos Estados Unidos. Poderia falar um pouco de como foi essa viagem?
Foi uma coisa absolutamente deslumbrante — e eu nem sabia do Che Guevara, pelo amor de Deus, fui saber que ele fez essa viagem com o filme do Walter Salles [Diários de motocicleta]. Foi uma coisa mágica. Tudo o que eu fiz naquele momento era mesmo o que eu tinha que ter feito. Cara, como fui sortudo. Fiz essas escolhas como resultado de uma situação em que eu não tinha muitas escolhas: meu filme estava proibido, minha carreira no cinema tinha acabado, eu estava em depressão… Mas acho que encontrei a saída certa. Acho que a vida me conduziu. Quando chego ao alto do monte no Peru, em Cusco, e me dou conta de que tinha ido pra lá pra me matar, aquilo é muito emblemático, simboliza a magia que envolvia aquela viagem. Entrar num mercado popular de La Paz e comer a comida mais barata junto com os índios, porque era a única coisa que eu podia comprar com o dinheiro que tinha, ou chegar no Chile e colher azeitonas com os comunistas, porque o país estava rachado, metade dos agricultores estava em greve… Essas vivências eram epifanias constantes. Eram constantes alumbramentos, iluminações. Eu estava fazendo 30 anos, era um momento muito propício para que essas grandes descobertas encontrassem um eco dentro de mim. Quando se é adolescente, muitas vezes esses momentos batem e voltam, mas ali não, eu já absorvia tudo.

• Ao longo da narrativa tanto a arte quanto a religião possuem uma importância decisiva. Qual é o espaço que essas duas frentes ocupam na sua vida?
Sou muito religioso, mesmo sendo agnóstico, porque eu acredito no sagrado. Talvez o sagrado, a poesia e a sexualidade sejam parceiros intrincados: dividem o mesmo espaço amoroso no interior da gente, me parece. Então, para mim, o elemento poético é sempre muito fronteiriço à religiosidade, ao sagrado. Veja, eu não suporto religiões institucionalizadas, que me parecem sempre muito perigosas ou muito ruins, porque elas têm uma camisa de força. Eu prefiro a poesia. Toda a produção poética é uma produção iluminada. E toda iluminação tem a ver com a descoberta do sagrado.

• Como você escreveu o Pai, pai, em algum momento pode escrever um Mãe, mãe?
Não sei, dificilmente. Tenho uma trilogia já em processo como continuação do Pai, pai. Quando acertei com a Alfaguara, já acertei a Trilogia da dor. Então há outros dois projetos já bem adiantados: um é a morte relativamente precoce de um irmão, que morreu de câncer linfático quando ele tinha 80% de chances de se salvar, se chamará Meu irmão, eu mesmo. O outro é o mais difícil te todos. Tenho que resgatar o final de uma história de amor que quase me levou à loucura ou à morte. É sobre como termina e o que sobra de um amor. Não é um tema novo, mas é sempre muito difícil. Nunca uma história de amor que chega ao fim é parecida com outra, é sempre inovadora a dor que se sente. Fiquei sozinho durante quase 25 anos por causa dessa história de amor mal resolvida, fiz muita análise para tentar compreender aquele momento. Chama-se Antropofágico amor.

• “Envelhecer implica o movimento que me leva de volta à infância”, você escreve. Quando passou a notar isso?
Não saberia te dizer, mas é muito agradável olhar para a infância com os olhos da velhice — e não é saudosismo, porque você vê uma história. Há um determinado momento do envelhecer em que você começa a perceber sua vida com a tessitura de um mito. Qualquer pessoa que na velhice se dê conta de como se deu o desdobramento da sua história vai notar isso. Claro que estou me referindo a mito no sentido do sagrado, no sentido do herói do Joseph Campbell, aquele que tem uma trajetória: aquele que passa por todas as crises e renasce com o crescimento de sua consciência.

• Em Pai, pai você dialoga em diversos momentos com outros trabalhos seus. Você faz algum balanço da própria obra?
Não, o tempo que perderia fazendo isso eu escrevo um novo livro, uma nova peça. Já até ajudei a crítica um pouquinho, mas não adiantou nada. Quando cheguei da Alemanha, em 1985, tinha acabado de lançar o Vagas notícias de Melinha Marchiotti. Ninguém conhecia o livro, a única resenha que tinha saído o elogiava de maneira tão boba. A pessoa que escreveu não entendeu absolutamente nada, era uma crítica muito medíocre. Então propus para a Folha de S. Paulo que eu fizesse uma resenha apócrifa sobre meu livro. A editora gostou e resolveu fazer uma edição especial com vários escritores criando seus próprios críticos. Aí tinha o Ignácio de Loyola Brandão, o Caio Fernando Abreu. Mas a minha acabou sendo a única crítica séria, fiz uma puta análise do meu livro. Foi muito interessante porque percebi que eu compreendia de fato o que tinha escrito. Mas o único balanço que posso fazer da minha obra é que sou muito injustiçado na literatura brasileira.

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O único balanço que posso fazer da minha obra é que sou muito injustiçado na literatura brasileira.

• Por quê?
Não sei te dar os motivos, não compete a mim. Já tive bate-boca com crítico por conta da minha homossexualidade, quando ele reduziu minha obra dizendo que o problema dela é saber onde termina o escritor e começa o militante. Eu tive um chilique. O cara não conseguiu compreender o que pra mim é muito simples: está tudo muito claramente separado e claramente misturado: é uma mesma pessoa que usa a homossexualidade tanto na frente ensaística quanto ficcional. O menino [Danilo Thomaz] que foi escrever a primeira matéria sobre o Pai, pai, que saiu na Cult, me mandou um e-mail dizendo que não achava nada da minha fortuna crítica. Respondi que não ia achar mesmo, que não tem, que não adianta procurar. Isso me dói, cara. Mas não é que eu vá brigar como já briguei muito e já doeu até chegar à depressão. Rei do cheiro, por exemplo, é um livro violentamente desprezado. E agora tenho que entrar no terreno do Rascunho, é obrigatório. A única resenha que saiu foi a do Rascunho [edição 118, janeiro_2012] arrasando com o meu livro, escrita por uma pessoa completamente inepta para compreender do que se tratava. Ela fez uma análise de um livro realista que estava na cabeça dela, que não era o meu. Esse tipo de injustiça não é apenas injusta, mas demasiadamente injusta, porque você pega qualquer disco do Chico Buarque e os críticos babando, gozando, tendo orgasmo em cima de qualquer peido que um cara desse possa dar. Eu não quero me comparar a ninguém, mas existem outras pessoas além de Chico Buarque e das outras vacas sagradas deste país, que é todo feito em cima de capitanias hereditárias na cultura. Um cara do júri do Jabuti certa vez me disse: “Claro que o Jabuti vai pro Chico, nós temos a mídia garantida”. Cara, tem alguma coisa de perverso nessa merda. Então tem alguma coisa de perverso em fazer de conta que um livro que eu tive que vender minha garagem e levei anos para escrever não existiu. Por quê? Porque faz crítica ao PT, caralho. Basicamente isso. Fui absolutamente ignorado nos prêmios, não cheguei nem às finais de quase nenhum. E quando falo de prêmios, estou cagando pro meu currículo, mas eu preciso de grana. Esse é o meu problema com a injustiça. Estou eternamente batalhando para sobreviver. Com 73 anos estou aqui me esfalfando, trabalhando num roteiro para receber uma grana. Então, por favor, minha conta bancária: meu negócio é minha conta bancária. Tá na hora, caralho. Mas não chega essa hora. Eu quero saborear aquilo que plantei em vida, porra. Eu mereço. Dei o melhor de mim para essa merda de país e vou receber em troca silêncio? Descaso, desprezo, menosprezo? Quantas vezes eu não tive artigo recusado claramente por motivos que não tinham a ver com a literatura ou com a minha inteligência… Simplesmente porque não estou todo dia nas folhas de jornais ou nas revistas.

• Mais algo nesse sentido?
Não, era isso mesmo.

• Você atua em diversas frentes. Como decide qual formato dará para cada história?
Eu não decido, aparece pronto já. Gosto muito dessa minha disponibilidade interior ou criativa. Eu já sei exatamente o que vou fazer com a linguagem literária, de cinema, de teatro e com a linguagem de pesquisa, ensaística. Quando me aparece uma ideia, não decido o que ela vai ser. O caso de Pai, pai, por exemplo, sempre esteve dentro da literatura, só não sabia se seria um conto, o que ia ser, mas sabia que era literatura. O meu próximo romance é um roteiro que escrevi na década de 1980. Tenho uma gaveta cheia de roteiros que ninguém quis filmar por ser muito pornográfico, transgressivo… algo que lamento. Aí, eu me enchi o saco e resolvi transformar esse num romance, o que pra mim é um imenso desafio. Mas eu gosto da mescla. Desde Vagas notícias de Melinha Marchiotti, comecei a pensar cinematograficamente a literatura. E gosto também do oposto, pensar literariamente o cinema. Mas sempre com a ideia muito clara de que são linguagens completamente diferentes e de que vou ter que fazer uma adaptação às vezes um pouco complexa de uma linguagem pra outra. Gosto disso porque me é muito desafiador. Como você vai trazer a imagem, absolutamente imagem, para a literatura? Vai fazer de forma descritiva? É muito insuficiente. Você tem que contornar e criar uma outra circunstância. E o oposto talvez seja mais complicado, como fazer a literatura na imagem? Existem espaços literários extraordinariamente específicos. Como você vai verter o pensamento ou a crise interior do personagem em imagens? Se você tem em mente a diferença das linguagens, essa complexidade encontra saídas muito criativas porque você aceita que está num mato sem cachorro, que está numa crise de linguagem. Então tem que dar uma solução que é intermediária entre as duas linguagens. Como dizia a Clarice Lispector, vanguarda não existe, a arte tem que furar o bloqueio, tem que arrebentar a boca do balão para ser expressiva. A expressão interior da gente sempre está quebrando muralhas para poder atingir o ponto ótimo em que a expressividade de fato se resolve, caso contrário você vai trabalhar sempre com base em fórmulas, o que é todo o oposto da expressão literária, no caso, da poética.

• E o que você pretende fazer com esses roteiros engavetado?
Não sei, cara. Até hoje não consegui criar sequer um site. Já tentei várias vezes, mas não foi adiante até porque eu não tinha dinheiro, ficava bobo quando me davam o orçamento. Hoje tem blog, mas não confio muito na estrutura, essas plataformas são muito reduzidas. Teria que ter um site com artigos, roteiros, peças, diários, críticas de cinema, meu livro de sonhos… Mas é a única coisa que me aparece de imediato. Porque publicar, meu caro, nem a minha obra eu consigo. Tenho minha obra todinha, com exceção de Pai, pai, fora de catálogo. Tenho minha primeira novela literária que nunca consegui editora. Não sei muito bem o que fazer. A quantidade de coisas inéditas que tenho é enorme. No caso desse roteiro, por exemplo, resolvi adaptá-lo para um romance.

• Qual é a história dele?
Eu prefiro me calar.

• Tem o direito.
É um pouco complicada. Ela justamente não conseguiu virar filme por conta da complicação. Mas tenho outras que são igualmente complicadas e fiz tentativas inclusive fora do Brasil, como é o caso do O onanista, que é a história de um cara que chupa o próprio pau e vira santo. Lembro que entrava em editais até que pensei “para de ser idiota”. Os caras vão ler e pensar “essa merda de pornografia tem que ser jogada no lixo”. Aí resolvi levar para o Festival de Roterdã, em 2012, quando houve um ciclo de cinema da Boca do Lixo. Meu filme foi apresentado em grande estilo, foi levado como uma das revelações do festival. Fiquei todo feliz, traduzi o roteiro pro inglês e para o francês. Levei para Roterdã porque eles têm uma bolsa que é pequena, mas é uma chancela importantíssima até para encontrar produtores. Bom, fui todo feliz para a entrevista com a mulher que me recebeu com horário marcado. Quando disse “é a história de um rapaz que chupa o próprio pau”. A mulher disse “WHAT?”. Ela ficou com os olhos deste tamanho, acho que era uma feminista do velho estilo. Aí o pênis fodeu com tudo, não deu em nada.

• Você ministra oficinas desde 1987. Elas realmente formam escritores?
Não diria que forma, mas ajuda de uma maneira muitas vezes crucial, mas isso não é nenhuma garantia. A maior parte das pessoas que fizeram oficina comigo aprendeu um bocado de coisas, acho, mas não tenho o resultado final do que aconteceu com elas ou com a literatura delas. Agora, posso dizer a mim mesmo, tendo esses 30 anos de experiência, que a oficina tem um papel a cumprir, mas obviamente depende de quem a coordena. Hoje tem oficinas demais por aí. Tem muita gente completamente despreparada que quer coordenar oficina porque acha mais simples do que escrever literatura. Estamos vivendo numa época em que escrever é um elemento quase obrigatório na comunicação via internet. Não apenas escrever, mas o expressar-se é fundamental, e acho isso muito bom. Mas, ao mesmo tempo, as pessoas estão passando a acreditar que literatura é qualquer coisa, e isso não é nada bom. A literatura é um constructo complicadíssimo, esse constructo começa lá dentro, na tua capacidade de se expressar — e muita gente que escreve não tem ideia de que precisa se expressar, ela escreve como se estivesse no piloto automático, mesmo quando fala de si. Literatura não é qualquer coisa. Brigo nas minhas oficinas: por trás de toda obra é preciso ter um projeto. Se não é algo claro quando se começa a escrever, o projeto pode ser a própria obra, é o constructo. Mas hoje eu não estou dando nem oficina particular. Vai perguntar por quê?

• Vou sim: por quê?
Porque não tem público.

• Não se interessam?
Se interessam, mas acham caro (e eu cobro o mais barato que consigo) ou então as pessoas não estão se dando conta da importância da literatura porque a literatura está parecendo qualquer coisa. E qualquer coisa acaba sendo um impedimento para você vir fazer uma oficina em que tem que se dedicar ao escrever.

• Ou será que a literatura está simplesmente definhando de vez?
Não, não, não. Não. Nós estamos com escritores maravilhosos, cara.

Eu quero saborear aquilo que plantei em vida, porra. Eu mereço. Dei o melhor de mim para essa merda de país e vou receber em troca silêncio? Descaso, desprezo, menosprezo?

• E o que de bom você tem lido?
Não tenho lido tanta coisa assim de cabo a rabo, mas esse menino, por exemplo, o Victor Heringer, que faleceu ontem [7 de março], porra, era um puta de um escritor, mas não é o único. O Maurício de Almeida, que foi meu oficineiro, escreve lindamente. Não vou começar a falar agora porque vão dizer “ele fica falando dos amigos dele”. É difícil eu mencionar porque são muitos nomes.

• Elogia os inimigos, então.
[Risos]. Não. A questão dos inimigos é muito delicada porque ou eles interferem na sua vida ou não têm a menor importância. Se eles interferem, você precisa partir pra cima pra se defender. Se não, deixa eles lá, senão serão apenas empata-foda, vão empatar sua vida. Agora, eu considero os inimigos importantíssimos; quem não tem inimigos não tem amigos. A pessoa tem que fazer escolhas. E eu tenho amigos queridos que eu prezo muito, eu prezo sobremaneira a amizade. E há o divisor de águas: esses são os meus amigos, os meus interlocutores, meus afetos, as pessoas em quem confio, com quem eu posso brigar e depois voltar a conversar, há a confiança. E há os outros.

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Pai, pai
João Silvério Trevisan
Alfaguara
253 págs.

 

 

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