Manual de garimpo

novembro 2013 / Manual de garimpo / O espelho partido

Texto publicado na edição #163

O espelho partido

Marques Rebelo une concisão frasal a um fôlego de Proust, Musil, Tolstói e Thomas Mann

> Por ALBERTO MUSSA

Bastariam Marafa e A estrela sobe para assegurar a Marques Rebelo um lugar cativo nas nossas estantes. Esses dois romances são pequenas pérolas do espírito machadiano, que exploram cenários quase virgens da vida carioca: os submundos do boxe, da prostituição, do samba, do rádio, do teatro — que se entrecruzam com o universo acanhado dos funcionários públicos, escriturários, secretárias, vendedores, representantes comerciais. São eles sobretudo dois importantes romances da malandragem (talvez até os primeiros verdadeiramente dignos desse nome), que continuam a linhagem esboçada por Macedo e Manuel Antônio.

Marques Rebelo escreveu ainda O simples coronel Madureira, excelente novela que se passa depois do golpe de 1964 e trata desse assunto numa perspectiva original: a de um militar que participa da máquina do governo. A narrativa se entretece nas desilusões eróticas e amorosas do coronel e sua decepção com os métodos da ditadura.

Falei há pouco no espírito machadiano de Marques Rebelo. Nesse aspecto, Rebelo está longe de ser um caso único nas nossas letras. Nem o Modernismo, com todo o seu programa reformador, nos libertou do gigantesco influxo do Bruxo. Por isso, a literatura brasileira ainda é fundamentalmente urbana, realista, cotidianista, intimista, frasista e com pouco senso trágico — que Machado substituiu por uma sutilíssima ironia. Não é um defeito: mas uma tradição.

E é essa tradição da minúcia machadiana que talvez tenha desestimulado entre nós a linhagem dos grandes calhamaços, dos romanções que ficam em pé sozinhos, mais típicos de línguas como a russa, a francesa, a alemã. É onde entra, de novo, Marques Rebelo.

O espelho partido — ampla trilogia ou vastíssimo romance composto dos volumes O trapicheiro, A mudança e A guerra está em nós — consegue a espantosa proeza de unir a concisão frasal, a microscopia de Machado de Assis a um fôlego de Proust, Musil, Tolstói e Thomas Mann.

Escrito em forma de diário, o romance é meio ficção, meio memória. Talvez já merecesse o nome “autoficção”, como se diz hoje. As personagens reais aparecem com nomes falsos, mas é totalmente dispensável tentar identificá-las, porque a intenção não está na narrativa à clef. Importante mesmo são as referências a episódios históricos (como, por exemplo, os relativos à Segunda Guerra), que vão servir a um exercício crítico da moral brasileira.

A “ação” (se fosse possível usar o termo) vai de 1936 a 1944. Na verdade, esse é o período coberto pelo diário — que registra recordações familiares, o dia-a-dia de uma repartição comercial, conversas de bar entre amigos mais ou menos intelectualizados, reflexões sobre literatura, considerações sobre o significado dos eventos mais relevantes da época. Temos da análise política objetiva, de estilo quase jornalístico, a sentenças espetaculares como essa: “mais belo é um pássaro no ar, que dois na mão”.

Não é, contudo, um livro fácil, que pega de cara. O leitor se perde um pouco, no princípio, até que todas essas camadas, essas vertentes narrativas adquiram um ritmo próprio, para formar o fluxo do romance. Mas vale vencer as primeiras cem páginas — porque a partir daí o que se lê é uma obra-prima.

Não costumo ver a trilogia completa à venda, mas o garimpeiro paciente encontra sem muito esforço os volumes separados, porque há muitos disponíveis, a um preço médio de R$20,00. A primeira edição de O espelho partido é da Martins (respectivamente 1959, 1962 e 1968). Depois vieram as da Nova Fronteira (das quais recomendo a de 1984) e, finalmente, a da José Olympio, ainda em catálogo.

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